Hoje, depois de sete meses afastado, Paulo Henrique Ganso deve voltar ao Santos. Sua arte e sabedoria deverão passear novamente pela Vila Belmiro de tantos craques lendários. É um dia para que o Ganso seja muito feliz, pois representa uma vitória pessoal contra as recentes amarguras pelas quais teve de passar.

Sei que nesse tempo todo de tratamento ele seguiu à risca as determinações do médico e do fisioterapeuta. Com sol ou chuva chegou sempre na hora certa ao CT, fez a rotina de exercícios prevista e voltou pra casa, como um humilde operário que batesse o cartão.

Ganso é admirado na Vila Belmiro pelo seu profissionalismo. Além de admirá-lo, o santista gostaria de amá-lo, como ama Neymar. Mas o amor é uma via de mão dupla. O torcedor só ama de verdade quando se sente amado também. E Ganso é como a namorada bonita que está louca para conhecer um rapaz mais rico e cair fora. O torcedor percebe e desconfia.

Tenho lido o que Ganso tem dito à imprensa e, mesmo não sendo nenhum psicólogo, percebo claramente algumas características que denotam grande carência afetiva por parte de nosso jovem maestro. Ele diz que seu contrato já poderia ter sido resolvido e que fica triste pela demora, depois de tudo que já fez pelo Santos, como se estivesse sendo explorado pelo clube.

Ora, essa é a visão típica de quem se julga o coitado da história, o eterno injustiçado. Porém, se ele tentar olhar a situação de outro ângulo, do ângulo do Santos, verá que o clube também poderia se sentir a vítima do caso. Afinal, lhe paga um bom salário há sete meses, sem poder contar com o seu futebol.

Em outros tempos e em outros clubes, Ganso poderia ter sido abandonado à própria sorte. No Santos, além de um tratamento de primeiro mundo, recebeu cerca de um milhão de reais sem precisar tocar na bola. E o clube ainda quer lhe oferecer um plano de carreira semelhante ao que ofereceu a Neymar.

O plano de carreira sugerido pelo Santos permite que o jogador fique milionário e se torne uma celebridade, provavelmente com direito a ser titular da Seleção Brasileira, sem sair do Brasil. Isso não é pouco. Quantos clubes antes do Alvinegro Praiano puderam oferecer isso? Que eu me lembre, de 30 anos para cá, nenhum.

Atitudes que desvalorizam

Não é mantendo constantes contatos com o brasileiro Leonardo, técnico da Inter de Milão, ou autorizando seus agentes a oferecerem seu passe para outros clubes brasileiros, como o Corinthians, que Ganso será valorizado pelo Santos e pelos santistas. Ao contrário. Atitudes assim o desvalorizam e demonstram, além de tudo, grande falta de sensibilidade e inteligência.

Por outro lado, é claro que ele foi importante para os dois títulos que o Santos ganhou no ano passado. Porém, não foi o único e nem o mais importante em nenhum deles. Não se pode esquecer que o time teve 11 jogadores em campo e entre eles Robinho, Neymar, André, Wesley, Arouca, Edu Dracena, Rafael, também decisivos em várias partidas.

Quanto ao fato de babar ovo para a Inter de Milão, eu sempre digo que falta ao Santos um trabalho de endomarketing, ou ao menos algumas palestras mostrando aos jogadores o que é e o que significa o Santos na história do futebol. Esse mesmo Inter que Ganso deve achar o máximo já perdeu do Santos por 7 a 1, na Espanha, além de ser sido derrotado na final da Recopa Mundial, em 1969, lá mesmo em Milão.

Hoje é o atual campeão do mundo, um clube riquíssimo, mas, mesmo assim, ainda não tem uma história semelhante à do Alvinegro Praiano. Ganso seria muito mais respeitado se, ao invés de ficar todo envaidecido com o interesse da Inter, usasse a mídia para destacar a relevância e a história do clube que o descobriu e lhe paga o salário que mudou a sua vida e a vida de sua família.

Ficar se oferecendo por aí não valorizará o seu passe. Algum de seus agentes já deveriam ter dito isso a ele. A única atitude que pode valorizá-lo é mostrar em campo o seu talento, a sua visão extraordinária dos espaços do futebol. Só isso o fará feliz cada vez que vestir a camisa que já foi de Pelé.

E quando não estiver jogando, querido Ganso, se me permite, sugiro uma regrinha básica para ser feliz e compreender melhor as pessoas: coloque-se no lugar delas, não se imagine o centro do mundo.

Coloque-se, por exemplo, no lugar de Giovanni, o ídolo e mentor que o descobriu no Pará e o trouxe para a Vila Belmiro, e com quem você nem fala mais; coloque-se no lugar dos santistas, que o amam, mas ficam magoados ao vê-lo namorando com outros clubes; coloque-se no lugar da diretoria do Santos, que manteve em dia os seus salários, apesar de você ficar sete meses sem jogar…

Diretoria que agora o recebe para conversar e fica sabendo que você quer que a multa para a venda do seu passe seja reduzida… Ora, o que o Santos ganhará reduzindo a sua multa? Se você quer ir embora do Santos, aja como um homem e não como um garoto mimado. Se você acha que seu futebol vale muito mais do que o Santos pode lhe pagar, então é só esperar e surgirá um clube para lhe bancar a multa. Ou a Inter do seu oportuno amigo Leonardo só fará um lance se a multa cair?

Será que não deu para você perceber – você que é tão inteligente dentro do campo – que muitas das pessoas que o cercam, com elogios e mesuras, estão apenas tirando vantagem de suas fraquezas emocionais? No duro, no duro mesmo, quem até agora fez alguma coisa por sua carreira, a não ser o Santos e os santistas?

Por fim, uma outra constatação, também básica, que eu mesmo fiz ao longo dos meus 58 anos: a felicidade não está em Milão, na Vila Belmiro ou no Parque São Jorge. A felicidade está dentro de você mesmo. Resolva as suas questões, algo que ninguém pode fazer por você, e será feliz. Boa sorte, Ganso!

E você, o que diria ao Ganso nesta sua volta ao Santos?