Negociação individual, a casca de banana que os dirigentes estão loucos pra pisar.

Hoje esta manchete parece uma utopia, ou provocação, mas, se os planos de Corinthians e Flamengo derem certo e os dois clubes puderem negociar em separado com as tevês, logo essas contratações – que desfalcarão os rivais e tornarão os dois clubes mais populares os únicos realmente grandes do Brasil – serão uma realidade inevitável.

Um detalhe que ajudará na estratégia é que a multa para os clubes brasileiros é menor do que para os estrangeiros. Só com a verba de um ano de tevê será possível, para Corinthians ou Flamengo, contratar qualquer um dos três jogadores citados no título.

A única ação que pode evitar isso é um movimento dos outros clubes para não aceitar a negociação individual, que em princípio parecerá melhor para todos, mas depois deixará claro a diferença de tratamento entre eles e os dois preferidos da mídia.

Para um clube que hoje recebe cerca de R$ 20 milhões de reais por ano, passar a receber R$ 70 milhões será o máximo. Mas do que adiantará isso se o maior rival, aquele com quem é preciso brigar pelos títulos que todo time grande deve almejar, receberá, provavelmente, o dobro desse valor e terá uma capacidade muito maior de se fortalecer?

Espanha, o exemplo de que negociação individual não dará certo

Chamo novamente sua atenção para o post anterior. Perceba que Valencia e Atlético de Madrid recebem, da tevê, 42 milhões de euros por temporada. Em reais, isso dá cerca de 100 milhões. Parece muito bom. Mas veja também que Real Madrid e Barcelona ganham 140 milhões de euros, o que equivale a R$ 320 milhões, ou seja, três vezes mais.

É claro que tamanho desnível desequilibra o mercado. Quem tem muito mais dinheiro contrata melhor, passa a ter os jogadores mais famosos, ganha mais títulos, fecha melhores contratos de patrocínio, tem mais visibilidade, ganha mais dinheiro da tevê, contrata grandes jogadores, ganha mais títulos, atrai os maiores patrocinadores, tem muito mais visibilidade, ganha mais dinheiro da tevê…

Percebeu que se entra em um círculo vicioso que não acaba nunca? Quando Valencia, campeão espanhol em 2003/04, e Atlético de Madrid, que até 1984 tinha apenas um título a menos do que o Barcelona, voltarão a estar no mesmo nível dos rivais? Nunca, never, jamais.

É esta mesmíssima situação que acontecerá no Brasil se os clubes optarem pela negociação individual, o que dará à tevê a liberdade de oferecer mais dinheiro apenas aos times que a interessam – no caso, Corinthians e Flamengo – menosprezando os demais.

Tênis, um exemplo de que o mérito esportivo é o melhor caminho

O tênis, que de esporte de elite passou a ser praticado e conhecido no mundo todo, é um ótimo exemplo de que premiar pelo mérito é a melhor maneira de garantir a qualidade do espetáculo. Perceba que mesmo astros absolutos, como Roger Federer e Rafael Nadal, não recebem mais da tevê por participar dos grandes torneios.

Porém, quanto mais tempo eles estão na tevê, jogando e vencendo, mais retorno estão dando aos seus patrocinadores e mais estão ganhando por isso. A premiação no tênis se baseia, essencialmente, no trabalho e no sucesso. Isso faz com que os tenistas deem o máximo a cada partida, para felicidade dos promotores e do público.

É claro que Federer e Nadal têm os seus patrocinadores, que lhes pagam fortunas pelo prestígio que angariaram ao longo do tempo. Porém, a cada vez que entram em quadra precisam se empenhar para justificar a fama. Esse é o princípio que deve nortear o futebol brasileiro.

Garantir uma cota bem maior a uma equipe apenas porque tem mais torcedores, é ir contra os princípios do esporte, é garantir um prêmio para quem ainda não o justificou. Além de antiética, essa prática poderá gerar situações bizarras, pagando regiamente a um dos piores do campeonato e reservando apenas migalhas para um campeão.

Imagine uma situação como a do Campeonato Brasileiro de 2001, em que o Atlético Paranaense foi o campeão e o São Caetano, vice; enquanto o Corinthians terminou em décimo-oitavo e o Flamengo em vigésimo-quarto. Pela negociação individual que se quer empurrar goela abaixo dos clubes, os finalistas receberiam, no máximo, a décima parte dos dois “times de massa”.

Dirigente, o momento é delicado e exige coragem

Sei que para muitos dirigentes de clubes grandes (ao menos considerados assim até hoje), a possibilidade de solucionar crônicos problemas financeiros gera tal ansiedade que não veem a hora de assinar o contrato com a tevê e sair por aí dizendo que em sua gestão o clube saiu do vermelho.

Porém, se respirarem fundo e pensarem melhor, perceberão que a evolução do futebol como negócio e espetáculo fatalmente fará com que os clubes mais destacados enriqueçam, sem que para isso seja preciso vender a alma.

Na ânsia de solucionarem seus eternos “problemas de fluxo de caixa”, poderão estar assinando o atestado de coadjuvância, ou de pequenez eterna, de seus clubes, que jamais terão qualquer possibilidade de brigar de igual para igual com seus dois maiores rivais, a exemplo do que ocorre na Espanha.

Enfim, para o bem do espetáculo e do desenvolvimento do futebol brasileiro, a negociação com a tevê deve ser coletiva e o mérito esportivo, a colocação final no campeonato, deve ser mais recompensada do que o número de torcedores de cada time, algo que não interfere no desempnho e no currículo de cada um.

A casca de banana está aí. Todos estão alertados. Se mesmo assim quiserem pisar, depois não se queixem por quebrar as pernas.