Quarta-feira tivemos um sinal do que irá acontecer se a tevê priorizar em suas transmissões os clubes de maior torcida. A Globo escolheu transmitir Palmeiras e Comercial do Piauí, do Pacaembu, ao invés de Santos e Cerro Porteño, da Vila Belmiro, e amargou o seu pior ibope de quartas-feiras no ano.

Calcula-se que o Palmeiras tenha 2 milhões de torcedores na Grande São Paulo, apenas 500 mil a mais do que o Santos, que ganha do rival na Baixada Santista e mantém um empate técnico no resto do Estado. Essa pequena diferença, como se esperava, não foi suficiente para suprir a falta de interesse pelo jogo e fazer com que tivesse mais audiência do que a partida em Santos, válida pela bem mais relevante Libertadores da América.

Apenas 0,015% da torcida do Palmeiras na Grande São Paulo compareceu ao Pacaembu (3.500 pagantes), em uma clara demonstração de que não é qualquer jogo que atrai a massa de palmeirenses. Isso nos faz refletir sobre a divisão de cotas de tevê que está sendo negociada.

É evidente que não é só a quantidade de torcedores de cada time, mas as circunstâncias das partidas que fazem com que despertem maior ou menor atenção. Se o Palmeiras enfrentasse o Cerro pela Libertadores, obviamente teria uma audiência maior na tevê e um público bem maior no estádio.

A questão não é uma disputa entre Santos e Palmeiras, que, para mim, estão no mesmo barco. A questão mais importante nesta discussão sobre cotas é a intenção da TV Globo de privilegiar Flamengo e Corinthians, pagando-lhes cotas bem superiores aos demais.

Favorecer ainda mais os times mais agraciados com patrocínio, espaço na mídia e benesses do poder só vai cavar um buraco cada vez maior entre eles e os demais, colocando o Brasil no mesmo caminho da Espanha, que hoje só tem dois times efetivamente grandes: Real Madrid e Barcelona.

Lá, ao menos estes dois acumularam méritos esportivos durante sua existência para justificar a popularidade. Aqui, talvez por questão de gosto, os times mais vitoriosos não são os de maior torcida, o que torna a manobra para favorece-lo, de certa forma, indecente.

Não há duvida de que o populismo que assola o País tem muito a ver com essa tendência de privilegiar Flamengo e Corinthians, que tiveram mais de um século para justificar sua supremacia em campo, mas não conseguiram.

Estádio de mão beijada com dinheiro público (Corinthians), verba milionária da tevê ao clube mais endividado do Brasil (Flamengo) são fatos que boa parte da mídia, conivente, e às vezes apaixonada, nem ousa discordar. Mas que não é ético, não é mesmo.

Privilégios geram mais privilégios

Para contentar os maiores rivais, a Globo tem oferecido um valor bem maior a quatro outros clubes de boa visibilidade em todo o Brasil, e não só em regiões específicas (como é o caso de Grêmio e Internacional, que só são populares no Sul do País).

Assim, logo depois dos queridinhos Flamengo e Corinthians, virão Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco. Está provado que jogos destes quatro times têm boa audiência em qualquer região do Brasil, facilitando a comercialização das partidas.

Como a verba para estes quatro será quase o triplo do que andam recebendo, alguns presidentes destes clubes estão bem animados com a possibilidade de colocar a mão na grana. Mas estão se esquecendo de que, aceitando essa manobra, estarão permitindo que se instale um sistema de desigualdade que gradativamente colocará Flamengo e Corinthians em um patamar inalcançável.

Clubes com mais dinheiro contratam melhores jogadores, ganham mais títulos, atraem mais mídia, conquistam mais e mais torcedores, conseguem contratos de patrocínio mais polpudos e com tudo isso se mantêm sempre na frente, em um círculo vicioso que nunca poderá ser rompido.

Clubes realmente grandes têm de lutar pelo primeiro lugar

O objetivo principal de um clube grande não é o de estabilizar suas finanças, mas de lutar por títulos, de ter sempre o objetivo de ser o campeão, o primeiro. Ao serem seduzidos pela oferta da Globo, todos os clubes, com exceção de Flamengo e Corinthians, estarão se colocando em uma perigosa e talvez irreversível situação de inferioridade.

O ideal é de que a negociação fosse coletiva e que o equilíbrio fosse mantido, assim como nos países onde o futebol é mais organizado e desenvolvido. A fórmula da Espanha fracassou, tanto que no próximo campeonato a negociação com a tevê de lá passará a ser coletiva.

O exemplo da NBA é outro que não pode ser esquecido. A filosofia que impera no campeonato do basquete profissional dos Estados Unidos, um dos mais ricos e de maior prestígio no mundo, é a de que quanto maior equilíbrio houver entre os contendores, melhor para o espetáculo, para o público e para os anunciantes.

Ao aceitar a negociação individual com a tevê, que privilegiará dois clubes, o Brasil está indo na contramão das tendências do esporte moderno e revivendo uma historia de privilégios típica de uma nação que confunde populismo com igualdade e democracia.

O momento de fazer algo para que este retrocesso não seja definitivamente estabelecido é agora. Os outros grandes clubes do Brasil, unidos, detêm a força política, já que apenas dois times não podem disputar um campeonato sozinhos. Porém, se os demais forem seduzidos pela verba maior que receberão, estarão se apequenando, vendendo sua alma e também o sonho de seus torcedores.

Você acha justo a tevê pagar mais para Flamengo e Corinthians, ou os outros clubes grandes deveriam se unir e exigir cotas iguais?