Estou impressionado com a capacidade de alguns jornalistas de fechar os olhos para a questão mais importante do momento, que é a divisão de cotas de tevê. Alguns deles foram incisivos, insistentes, desagradáveis e grosseiros no caso da justíssima Unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959. Encheram-se de discursos, morais e éticas, enfurecidos porque, em sua maneira limitada de enxergar a história, seus clubes queridos estavam sendo prejudicados.

Fingiram ver profundas manobras políticas no reconhecimento das glórias do passado, e convenceram seus seguidores a agirem com a mesma estupidez diante da história. Mas agora, em que Corinthians e Flamengo, seus times do coração, são privilegiados por um conluio sórdido desta mesma CBF, das tevês e dos dirigentes destes dois clubes, fazem de conta que não vêem.

Agora que as negociações individuais com a tevê cavam um abismo entre estes dois clubes e os demais, mantêm publicamente uma atitude blasé, mas esfregam as mãos e sorriem internamente com essa negociata que dará a seus times vantagens desproporcionais contra os concorrentes.

Pelo que se sabe, o Grêmio receberá um terço de Corinthians e Flamengo. Gostaria de saber dos gremistas, que se autodenominam imortais, se essa divisão desmedida não significa morte lenta para a capacidade de competir do grande tricolor do Sul.

Há alguma justiça nesse método de divisão de cotas? Nenhuma. A única divisão saudável para o futebol brasileiro seria o de cotas iguais, ou ao menos bem semelhantes, para todos os clubes grandes do país. Ou a valorização do mérito esportivo, a premiação aos que praticam o melhor futebol, são mais vencedores, produzem o melhor espetáculo para a tevê.

Em mais de um século de vida, Flamengo e Corinthians não conseguiram ser os clubes brasileiros mais vitoriosos e poucas vezes tiveram times que encheram os olhos. Por que mereceriam ganhar mais? Por que têm mais torcedores? Ora, quantidade nunca representou qualidade.

O Brasil também tem uma grande maioria de analfabetos e ignorantes que desprezam o saber e a ética e, como já dizia Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, é habitado por um povo omisso, que se vale de uma pretensa cordialidade para se auto-definir feliz, quase superior.

A valorização da quantidade parte de uma premissa falsa, pois em nosso país ela não é sinônimo de desenvolvimento. Os exemplos das nações desenvolvidas, baseadas em um comportamento ético, mostra que um sistema justo deve permitir a ascensão pelo mérito.

Esportes mais modernos e aprimorados, que colocam a qualidade do espetáculo em primeiro lugar e não se baseiam em reservas de mercado, tornam-se mais atrativos e empolgantes. Veja o caso do tênis, em que surgem campeões a cada temporada. Se a estrutura fosse outra, nosso Guga jamais teria se tornado um astro da noite para o dia.

Ângulos de visão que estão sendo ignorados

Discutimos a Unificação por mais de dois anos e alguns jornalistas, acomodados e mal informados, diziam que não tinha havido discussão suficiente antes da aprovação da CBF. E agora, em que de um momento para outro se quer perpetuar uma situação extremamente desigual no futebol brasileiro, os mesmos “críticos” colocam seu senso moral em hibernação.

Uma sociedade que não se baseia na justiça, se corrompe. Isto está ficando evidente no caso das cotas de tevê. A história de um clube não pode depender do poder de barganha de seu dirigente, ou de suas relações políticas. O torcedor percebe os conluios, os privilégios, e reage. O resultado é a total falta de credibilidade na estrutura do futebol brasileiro (estrutura que não depende só da CBF ou dos clubes, mas também da imprensa, dos formadores de opinião, que não podem colocar esta opinião apenas a serviço dos interesses de seu time preferido).

Há muitas outras formas de se discutir a divisão das cotas de tevê que não dependem apenas do primarismo de se premiar quem tem mais torcida. Se hoje nosso futebol, a Seleção e a CBF, são respeitados no mundo, isto se deve à decisiva atuação de determinados clubes que não são estes dois considerados “de massa”. Todos sabem, aliás, quais foram os times que mais mais contribuíram para este sucesso que valorizou o futebol praticado no país.

Bem, esta é apenas uma questão que poderia ser discutida. O certo é que privilégios que não são conquistados por mérito, tornam-se odiosos. E há momentos em que mesmo o torcedor mais fanático não pode pensar apenas no seu time, mas no todo, no futebol brasileiro. E para este futebol a negociação individual é extremamente maléfica, pois, repito, cristaliza superioridades que não se justificam onde interessa, que é o campo de jogo, e esta injustiça diminui o encanto e o interesse pelo esporte.

Enfim, a ampla discussão que se pediu tanto no caso da Unificação, agora é ignorada. Os clubes e as tevês se envolvem em ações sorrateiras, por baixo do pano, sem que se brigue, sem que se exija transparência.

Já deu para perceber que isso não acabará bem. A RedeTV ganhou a concorrência, mas a Globo e a Record agem por fora, aliciando quem podem. Só que para haver um jogo são necessários dois times, e o que acontecerá se cada um tiver um contrato à parte?

O risco de não se ter um Campeonato Brasileiro em 2012 existe e não é pequeno. A verdade é que a ganância de dois clubes, estimulada pelas redes de tevê, a CBF e uma imprensa conivente, levou o futebol brasileiro a esta situação caótica.

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