O craque estava há sete meses sem jogar. Entra no segundo tempo de um jogo enrolado, 0 a 0. No primeiro toque na bola dá uma assistência perfeita, que gera o primeiro gol, de Elano. Depois, como centroavante, penetra e faz o segundo. De quebra, toca de calcanhar entre as canetas do adversário, além de ditar o ritmo da partida. Esta foi a reestreia de Paulo Henrique Ganso no Santos, ontem, na vitória de 2 a 1 sobre o Botafogo. Melhor, impossível.

Há coisas – boas – que só acontecem com o Alvinegro da Vila Belmiro. Robinho estreou em clássicos fazendo um gol de letra em Rogério Ceni; Ganso e Neymar estrearam na Seleção Brasileira dando um show contra os Estados Unidos. Enfim, as expectativas, no Santos, geralmente são superadas.

Ao ver Paulo Henrique Ganso jogar, percebemos como às vezes exageramos ao chamar algum jogador de craque. Mais do que habilidade e talento, habilidades que muitos têm, Ganso foi abençoado com uma noção extraordinária de tempo e espaço. Perceba que seu primeiro toque na bola, após tanto tempo de inatividade, foi simplesmente perfeito. Um milésimo de segundo a mais ou a menos e Zé Eduardo não apareceria livre na frente (tive de parar o filme algumas vezes para checar a posição do atacante, o que Ganso deve ter feito instantaneamente).

Perceba que, ao contrário de Diogo, que está sempre correndo de um lado para o outro atrás da bola, e parece sempre atrasado ou adiantado demais, Ganso é quem controla o tempo do jogo. Ele tanto pode trocar passes desinteressados pelos cantos do campo, como fez com Elano, como disparar em direção ao gol. É uma aventura maravilhosa, mais do que vê-lo em ação, tentar entender suas intenções. Sim, assistir Ganso também é um exercício intelectual.

Espero que depois da profunda sensação de felicidade que sentiu ontem, o jovem maestro reveja alguns conceitos e perceba, definitivamente, que seu lugar é o Santos, onde a arte do futebol é devidamente valorizada e ele tem liberdade para exerce-la plenamente. Além, é claro, de ser muito querido pelo torcedor – privilegiado torcedor, que pode apreciar, no mesmo time, os talentos de Ganso, Elano e Neymar.

Análise das personagens

Rafael – Excelente, novamente autor de defesas dificílimas. Se ele toma um gol, é porque não dava para fazer nada. Confio demais nesse garoto.

Jonathan – O lateral-direito que veio do Cruzeiro machucou-se de novo. Uma pena, pois vinha bem, mas já tinham me dado a notícia de que em Minas Gerais não foi diferente: lá ele também passou mais tempo na enfermaria do que no campo.

Pará – Ontem fez um erro grosseiro, furando uma bola em situação clara de gol. Mas também deu o passe para Zé Eduardo cruzar para Ganso marcar o segundo gol do Santos. Pará precisa de confiança, pois deverá ser o lateral-direito do Santos na Libertadores.

Durval/Dracena – Durval apareceu mais, chegou até a sair jogando. Mas o que aconteceu no gol do Botafogo? Durval e Dracena nem saíram na foto. Sorte que já estava no fim da partida, ou o Santos ainda teria passado aquele indefectível sufoco.

Léo – O fôlego parece ter melhorado. Jogou como nos bons tempos, entregou-se à partida com muita vontade. O veterano é mesmo um leão.

Adriano – Melhorou. Está fazendo mais desarmes e cometendo menos faltas. Só precisa pensar mais rápido quando tem a bola.

Danilo – Ontem acertou um ótimo passe. Mas perdeu inúmeras bolas e cometeu, para variar, faltas bobas. Vou procurar o agente dele para vender publicidade para o meu blog. Te cuida Rede Globo!

Neymar – Está mais objetivo e incisivo do que nunca. Logo vai começar a marcar também de cabeça.

Elano – Seu futebol e seu sorriso voltaram com o Ganso. Agora tem com quem dialogar no meio-campo. Chegou a dizer, humildemente, que não se importa de ser coadjuvante. Que jogador titular da Copa do Mundo teria caráter para dizer isso? Que ninguém se iluda, Elano é essencial.

Ganso – Riquelme, Verón, Zidane, Ademir, Rivelino, Gérson… Ganso tem um pouco deles todos. Mas pode ser ainda melhor. O tempo dirá…

Zé Eduardo – O Ganso entrou e o futebol de Zé Eduardo começou a aparecer. Ele é o atacante rápido que percebe o passe antes de ser dado. Faltava quem desse.

Rodrigo Possebon – É a nova mania do técnico Marcelo Martelotte. Só que ele entra no final e o Santos começa a tomar pressão do adversário. Não sabe sair jogando, é inexperiente e tem pouca habilidade para substituir Elano.

Marcelo Martelotte – Faz o feijão com arroz mais temperadinho do que Adilson Batista. Falta a ousadia de colocar mais um meia – ou Róbson, ou Felipe Anderson, ou Alan Patrick. Mas com a volta de Arouca e a estréia de Charles, o titular que nunca jogou, terá seus problemas solucionados.

Bem, por hoje é só. Mas amanhã, às 19h15m, não se esqueça: vamos ver outro gênio do futebol da Vila. Falcão, o Rei do futsal, comanda o Alvinegro contra o Joinville, em Joinville, na difícil estréia do Santos na Liga Nacional. O Sportv transmitirá a partida.

Reveja os gols da reestréia do Ganso. Pare o filme para checar a precisão do passe do maestro no primeiro gol. Isso porque ficou sete meses parado!

E o que você achou da volta do Ganso e da vitória do Santos sobre o Botafogo, ontem?