O mundo esperava que Neymar brilhasse no jogo de hoje, contra a Escócia, em Londres. E ele não decepcionou. Assim como no Santos, o garoto de 19 anos definiu a partida. Marcou os dois gols da vitória de 2 a 0 – um em chute quase sem ângulo, colocado, e cobrando pênalti que ele mesmo sofreu.

Além de jogar demais, Neymar tem personalidade, é autêntico, e isso dá a ele uma força interior irresistível. Como Robinho na final do Brasileiro de 2002, provocou o pênalti, pôs a bola embaixo do braço e definiu o jogo. Isto, sob vaias dos agressivos torcedores escoceses, que numa odiosa demonstração racista jogaram uma banana dentro do campo na saída dos brasileiros.

Há ao menos dois lados positivos nessa grosseria desses idiotas escoceses: o de questionar essa babação de ovo da imprensa esportiva brasileira pela Europa, como se estivesse escrito que um jogador brasileiro jovem e de talento fosse obrigado a jogar lá antes de se tornar efetivamente um craque. E o de mostrar a Neymar e sua família que a Europa pode ser um bom lugar para ganhar dinheiro, mas nem sempre é o melhor para um brasileiro ser feliz.

Pai do ídolo gosta da idéia de mante-lo no País

Como um pai que, acima de tudo, quer ver a felicidade do filho, o senhor Neymar já disse que o garoto só sairá do Santos se a oferta for bem maior do que o clube pode cobrir, no mínimo o dobro. Ele está certíssimo, e deve ter percebido hoje, ao ver o filho ser insultado pelos racistas, que a vida lá fora não é esse mar de rosas que alguns teimam em divulgar por aqui.

Se em Londres, em um estádio moderno e seguro, essas manifestações acontecem livremente, imagine como será nas cidades e nos estádios menores, em que a torcida local cria um clima de guerra contra os visitantes. Neymar não precisa passar por isso para provar nada.

“Eram muitas vaias, até na hora de bater o pênalti estava o estádio inteiro vaiando. Esse clima do racismo é totalmente triste. A gente sai do nosso país, vem jogar aqui e acontece isso. É triste, prefiro nem tocar no assunto, para não virar uma bola de neve”, disse Neymar após o jogo.

Talvez outros jogadores brasileiros acreditem que precisam passar por essas humilhações para serem mais ricos e conhecidos. Neymar, não. No Brasil ele prosseguirá cada vez mais rico, amado, ídolo e reverenciado. Mais e mais empresas quererão associar sua marca à do jovem irreverente, mas talentoso e vencedor. Hoje, Neymar é um espelho para uma geração. Não só pelo corte de cabelo moicano – algo superficial, que só pode ser valorizado por quem não consegue enxergar o que o rapaz realmente representa.

Em um país em que o jovem é desvalorizado e desrespeitado, mendiga estágios para iniciar uma claudicante carreira profissional, Neymar é um espelho pela confiança em si mesmo, pela coragem de enfrentar o status quo fora do campo e, dentro dele, a violência dos adversários e a autoridade cínica e complacente dos árbitros.

Neymar não pediu licença. Chegou chegando, como dizem os torcedores. E é claro que incomodou e incomoda muita gente, principalmente os falsos moralistas que se baseiam em um hipócrita conceito de autoridade para cercear a liberdade e o talento.

É claro que para manter Neymar o Santos terá de fazer alguns esforços, mas todos valerão a pena. Seria um orgulho, não só para o Santos, mas para o Brasil, manter um dos grandes ídolos do futebol mundial por aqui, apesar de toda a pressão para que vá embora.

Equilíbrio, um dom de Neymar. Como de Ademir da Guia

Um dia pesquisando fotos de Ademir da Guia nos arquivos do jornal O Estado de São Paulo, descobri que não havia uma única situação de jogo em que o grande craque não estivesse perfeitamente equilibrado. Pois esta mesma qualidade tem Neymar e isso lhe dá uma vantagem muito grande sobre os demais.

Há outros atacantes que também conseguem boas avançadas, às vezes chegando até o gol. Mas avançam aos trancos, aos solavancos, quase caindo. Neymar, não. Há elegância e equilíbrio em cada fase de sua investida e aí está a marca do jogador excepcional, que pode extrair o máximo de uma jogada, mesmo que aparentemente sem condição física de faze-lo.

No gol que fez hoje, ele está, aparentemente, desequilibrado. Mas em fração de segundos ajeita o corpo e coloca a bola, não chuta, no canto oposto do goleiro. Note que no filme abaixo, da tevê britânica, o comentarista percebe e elogia esta incrível noção de equilíbrio do atacante do Santos e define o gol como lovely, ou digno de adoração. Na verdade, o termo lovely é uado três vezes neste curto comentário, mostrando o grau de admiração dos ingleses pelo futebol de Neymar.

No final de sua fala, o locutor diz que o Chelsea tentou contratar Neymar por 50 milhões de dólares, mas que agora esse valor serviria só para iniciar a negociação (deixando claro que o jogador do Santos vale muito mais do que a oferta recusada do Chelsea).

No twitter, o zagueiro Rio Ferdinand, do Manchester United, ex-capitão da Seleção Inglesa, escreveu que Neymar parece um “Cristiano Ronaldo jovem, ousado, um show man”. Disse que ele tem “muito ritmo e habilidade” e o definiu como um “garoto legal”.

Atuações como a de hoje, em Londres, e as repercussões que elas têm no mundo do futebol, certamente elevam o valor de mercado de Neymar e não me surpreendo se na malfadada janela de transferências ele e o Santos receberem propostas absurdas para que vá embora do Brasil. Acho que é uma questão de honra para o clube e o Brasil mantê-lo entre nós.

Santos/São Vicente, terra abençoada do futebol

Sem forçar muito a memória, é possível destacar vários nomes de jogadores maravilhosos que nasceram ou vieram ainda crianças para Santos e São Vicente e acabaram se tornando lendários. Pagão, Antoninho, Neymar, Robinho, Pepe, Del Vecchio, Joel Camargo, Gylmar dos Santos Neves, Cláudio Cristóvão Pinho… Nossa, o que será que essa terra tem para gerar tantos craques?

Reveja os gols de Neymar na partida contra a Escócia:

E você, o que acha da ideia de Neymar jogar no Santos para sempre?