Ontem, quarta-feira, o grande inquisidor, ou melhor, o diretor executivo da Globo Esporte, Marcelo de Campos Pinto, visitou a Vila Belmiro e assinou com o presidente Luis Álvaro o contrato entre a Globo e o Santos para a transmissão dos jogos do clube pelo Campeonato Brasileiro.

Pelo contrato, que tem a duração de quatro anos, o Santos receberá cerca de R$ 35 milhões por ano – e, ao que tudo indica, pelos direitos das tevês aberta e fechada. O valor é menos do que a metade que o Corinthians receberá anualmente só pela tevê aberta.

Ou seja, o que eu temia aconteceu: ao aceitar a negociação individual com a tevê, o Santos fez o jogo do Corinthians e sacramentou sua inferioridade com relação ao seu rival alvinegro.

O presidente Luis Álvaro e o vice, Odílio Rodrigues, saíram da reunião comemorando o fato de o clube ter conseguido mais do que o dobro dos valores do último contrato. Ora, mas isso já era previsto. Na verdade, sonhava-se que o Santos pudesse faturar cerca de R$ 70 milhões por ano, o que agora parece impossível.

Enquanto isso, o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, já anunciou que o clube receberá da Globo R$ 75 milhões por ano só pelos direitos da tevê aberta. Com todas as outras mídias, o alvinegro paulistano poderá alcançar a cifra de R$ 150 milhões anuais.

Por conta do dinheirão que vai entrar, Sanchez avisou que seu torcedor “pode ficar tranquilo, porque contrataremos de dois a quatro grandes jogadores. Queremos atletas de ponta, muitos que nem jogam no país”, disse, prometendo um timaço para o Brasileiro.

Não adianta ficar no azul, tem de ser competitivo

O erro do presidente e do vice do Santos é que estão enxergando apenas a situação do clube, como se este fosse uma ilha. Ora, o Santos não é uma instituição financeira – à qual só basta permanecer no azul –, mas um time de futebol, um time grande, cuja existência só tem sentido se for campeão ou ao menos disputar os títulos. E para isso tem de estar tão fortalecido quanto os adversários.

O acordo que acabam de fazer com a Rede Globo condena o clube a ser um eterno coadjuvante, ao menos se comparado ao alvinegro da capital. Analisemos:

O Santos recebe mais por patrocínio de camisa do que o Corinthians? Não.

O Santos arrecada mais com bilheteria do que o Corinthians? Não.

O Santos fatura mais com marketing do que o Corinthians? Não.

Agora, a negociação individual com as tevês tornará essa desproporção ainda maior, pois o dinheiro que vem da mídia é o mais importante que os clubes recebem.

A solução teria de ser política e coletiva

Esta situação só seria evitada se os outros clubes grandes se unissem e obrigassem a adoção da negociação coletiva, de preferência com cotas iguais para todos. Ou seja, seria preciso um gesto político para impedir esse privilégio que tornará apenas dois clubes os realmente grandes do futebol brasileiro.

Ao se desmanchar o Clube dos 13, o ambiente ficou propício para se estabelecer a vontade das tevês. E agora que vários clubes já assinaram com a Globo, não vejo como a hegemonia de Corinthians e Flamengo possa ser contestada.

A bola de neve começou a rolar. Milhões cairão nos cofres dos dois times de massa, que se colocarão no mesmo nível de alguns grandes da Europa, enquanto o restante das agremiações brasileiras serão obrigadas a se contentar com as migalhas.

É estranho como poucos dirigentes parecem ver a tsunami que vem pela frente. Por mais que se tenha prevenido – ao menos neste blog –, o Brasil trilhou o caminho que já deu errado na Espanha, pois leva a uma disputa entre apenas dois times, marginalizando os demais.

Enfim, não sei como os clubes se armarão para o próximo Campeonato Brasileiro, mas já adianto que os favoritos ao título serão Flamengo e Corinthians, não necessariamente nessa ordem.

Daqui a quatro anos, se alguém se lembrar, que volte os olhos para trás, para este momento que o futebol brasileiro está vivendo, só para constatar que foram os últimos tempos em que ainda houve algum equilíbrio entre os grandes clubes do Brasil.

E você, acha que o Santos fez um bom acordo com a Globo?