A Arena Santos se ilumina para receber o povo. Casais, adolescentes, idosos, muitas crianças, todos chegam, alegres, para mais uma exibição daquele que já é o melhor time de futsal do Brasil. Santos adotou rapidamente o novo esporte e apoia o time de Falcão, Valdin, Djony, Pixote & Cia com entusiasmo. É bonito de se ver. É como se o futsal já fizesse parte da cultura da cidade há muito tempo.

Eu também estava lá. Caminhei da Vila Belmiro até a Arena, embaixo de uma chuva fina, para sentir de perto o que este time de futebol de salão representa para a cidade. Comentar sem ver e sentir é um dos erros na nova crônica esportiva que, veterano, tento evitar. Claro que não me arrependi.

Santos precisava de um programa esportivo noturno, em um horário decente e por um preço acessível, em que pais e filhos pudessem apreciar o futebol sem medo. O time maravilhoso de futsal do Santos está preenchendo este espaço. Mais do que isso: está deixando muitas lições, que bem apreendidas, poderão contribuir também para a cidade e o futebol de campo do Santos.

Lição 1: Ingresso caro é maior responsável por público pequeno na Vila

Para ver o futsal as pessoas pagam inteira de R$ 6, com meia de R$ 3. E as entradas têm se esgotado dias antes dos jogos. Isso prova que o santista adora futebol, adora o Santos, e só não vai mais à Vila Belmiro devido ao preço dos ingressos.

A Vila Belmiro só tem sentido se estiver lotada. Por que jogar lá para cinco, seis mil, pessoas, se no Pacaembu o público é, normalmente, o dobro disso? O bom de se jogar no Urbano Caldeira é a pressão maior sobre o adversário, mas se não há público, cadê a pressão?

Por outro lado, com tantas outras fontes de faturamento – tevê, patrocínio de camisa, marketing, merchandising –, por que essa mania de ingressos caros? Essa é uma das coisas que não entendo. Acho essa política prejudicial à imagem do Santos. Não fica comprovado que se arrecada mais dinheiro e ainda se passa uma imagem de que o time tem torcida pequena, o que o não é verdade.

A Arena Santos comporta cinco mil pessoas, mas, por critérios de segurança, têm sido vendidos apenas quatro mil ingressos. De qualquer forma, os jogos do futsal estão atraindo um público maior do que alguns na Vila. Será que não é hora de começar a respeitar o poder aquisitivo do santista?

Lição 2: Torcidas organizadas ajudam, mas não podem atrapalhar

Outro dia este blog estava pedindo apoio para a Escola de Samba Torcida Jovem. Sim, acho que as torcidas organizadas podem ser importantes para a divulgação da cultura do clube e para apoiá-lo em situações em que o torcedor comum não se atreveria. Mas há situações em que estas torcidas precisam ser melhor orientadas, ou acabam mais atrapalhando do que ajudando.

Ontem, um grupo da Torcida Jovem ficou de um lado do ginásio, enquanto outro, de aficionados da Sangue Santista, ficou do outro. Somados, não davam 100 pessoas. Porém, em um ginásio fechado, o som que produziam virava um estrondo que encobria as manifestações dos outros torcedores.

Cada torcida organizada entoava um coro diferente, e às vezes ao mesmo tempo. Isso inibia os outros 90% de torcedores do ginásio, que só podiam ouvir ou acompanhar um coro ou outro. Essa desarmonia prejudicava a concentração na partida e gerava um barulho contínuo e desagregado.

Por que os representantes da Jovem e da Sangue não se entendem e cantam a mesma coisa? Vejam o exemplo das torcidas cariocas, que fazem o estádio todo se unir nos mesmos cânticos de incentivo ao time. Isso é apoiar, isso é deixar a vaidade de lado e colocar o time em primeiro lugar.

Essa coisa de cada torcida ter o seu cântico – tal como “Torcida Jovem lá, lá, lá, lá, lá…” (como o Silvio Santos apresentava seus jurados), não tem graça nenhuma. O importante é o time, não a Torcida Jovem, a Sangue, ou qualquer outra.

E o pior são os cânticos de guerra, que pregam a violência, tipo “Torcida Jovem a mais temida!”. Temida por quem, cara pálida? O jogo é de uma torcida só. Não havia torcedores do Colégio Londrinense, e mesmo que houvesse, por que deveriam ser intimidados?

O momento de maior empolgação que veio das arquibancadas aconteceu quando Falcão fez o quarto gol e desempatou o jogo. Aí, o ginásio todo resolveu gritar “Santosooooos!”. Gente que não está acostumada a ver futebol decidiu, naquele momento de desabafo, simplesmente gritar o nome do time que ama, e os versos dos torcedores organizados é que não foram ouvidos.

Enfim, ou a Torcida Jovem e a Sangue Santista se entendem, ou percebem que o futebol de salão exige outro comportamento, ou mais atrapalharão do que ajudarão quando forem aos eventos da Arena Santos.

Lição 3: Pode haver competição e civilidade

Ontem o público aplaudiu os visitantes. Sim, enquanto eram apresentados, os jogadores do Colégio Londrinense foram aplaudidos. Achei isso bonito, superior. As pessoas estavam felizes de estar ali e aplaudiam aos participantes do espetáculo, mesmo o adversário. Nada mais justo e civilizado.

Havia, ainda, a Baleiinha e o Baleião, as cheerleaders, os times perfilados para o hino nacional, um ginásio coberto e confortável, a cordialidade entre os jogadores – pois o futsal pode ser bem disputado, mas não é desleal como o futebol de campo.

Nenhum jogador costuma ser caçado por fazer jogadas de efeito. Pode-se passar o pé sobre a bola, pedalar, dar caneta, chapéu, e isso não provocará uma batalha campal. Os dois times têm jogadores habilidosos e estes têm liberdade para mostrar o que sabem. É claro que esta tolerância torna o espetáculo melhor, pois libera o talento e a criatividade.

Lição 4: No futsal há solidariedade. Todos atacam, todos defendem

Falcão é um atacante nato, habilidosíssimo, que pode driblar, lançar, tabelar, tem um controle excepcional da bola e chuta como ninguém. Mas mesmo ele também se empenha na defesa: dá carrinho, atrapalha um ataque adversário, orienta a marcação.

Esse espírito solidário do futebol de salão é algo que deve ser incorporado pelo futebol moderno. Ontem, Neymar, Paulo Henrique Ganso, Elano e Zé Eduardo foram à Arena prestigiar o futsal. Espero que tenham prestado atenção nesta característica que une o time do versátil Falcão.

Um jogo fácil, que ficou difícil, e o Santos fez ficar fácil de novo

Quando o Santos fez 2 a 0 no Colégio Londrinense, parecia que viria uma goleada. Mas, só para provar que no futsal as forças se equivalem, o adversário passou a jogar muito bem, revelou alguns jogadores de grande habilidade e chegou ao empate.

O Santos fez 3 a 2 e o Londrinense empatou de novo. Aí o técnico Ferreti apelou para sua arma secreta, que é colocar Falcão como goleiro-linha. Outros times usam essa estratégia só nos minutos finais, pois é muito arriscada. Mas no caso do Santos, o risco maior é para o adversário.

Como Falcão dificilmente perde a bola ou erra um passe, o adversário fica acuado, pois o Santos passa a ter um jogador a mais na linha, dificultando a marcação.

Ontem, o banco de reservas do Londrinense se desesperou quando Falcão surgiu como goleiro-linha. Mas a gritaria não adiantou. Com passes rápidos, comandando o jogo com uma frieza e uma visão sobrenaturais, logo o camisa 12 teve uma chance para o arremate e desempatou o jogo. Depois, Valdin, o artilheiro da noite, com três gols, driblou até o goleiro para marcar, fechando a goleada em 6 a 3.

Com a vitória, a sexta da campanha que ainda tem um empate, o Santos, que é patrocinado pela Cortiana (empresa de móveis e garrafadeiras plásticas), continua na liderança da Liga Futsal, com 19 pontos. Em segundo lugar está o Copagril/Faville/Dal Ponte, de Marechal Rondon, que ontem ganhou do Krona/Joinville/Dal Ponte por 4 a 0 e chegou a 15 pontos.

Os Reis do Futsal voltam a jogar na Arena Santos neste domingo, às 11 horas, contra o Praia/Pepsi/Velox, de Uberlândia/MG, que em seis jogos tem duas vitórias, dois empates e duas derrotas. Os ingressos já estão à venda na Vila Belmiro e em outros pontos de venda, que podem ser conferidos no site oficial do clube: www.santosfc.com.br

Esta fase de classificação da Liga terá um turno só, que classificará 16 equipes para a próxima fase. Portanto, mesmo fazendo muito mais jogos fora do que em casa, não há qualquer risco de o Santos não passar para a fase seguinte –em que os times serão divididos em quatro grupos de quatro, passando os dois primeiros de cada grupo para as quartas-de-final.

Ainda há muito pela frente até o título, mas o novo torcedor do futsal do Santos está percebendo que, ao contrário do futebol de campo, não é só a conquista final que interessa, pois cada jogo é um espetáculo que deve ser apreciado com a devida atenção.

Para você, o que o futebol de campo do Santos deveria aprender com o futsal?