Na foto maior, o Palmares, que não esconde na cor do uniforme a sua origem santista. Zé Roberto, o autor do gol, é o terceiro na esquerda para a direita. Geraldo, que cobrou o escanteio para a bola bater na minha cabeça e entrar, é o último de pé, à esquerda. Agachado, sem cabelo e com chuteira vermelha, Mirinho, o maestro do time, que eu tive a ousadia de substituir. Nas fotos abaixo, Vicente e o enciclopédico professor João Neto, que ontem deu uma de Muricy; o time do SPAC, herdeiros de Charles Miller que só sorriram antes do jogo; o humilde craque, de chuteira nova, que dá o ar de sua graça de nove em nove anos, e a alegre turma do Palmares na avenida Sabará, comemorando a segunda vitória do ano no CT do Neto (fotos de Suzana Silva/ Blog do Odir).

Ontem foi jogada mais uma rodada do Campeonato Brasileiro, mas o jogo mais importante do dia aconteceu em Veleiros, no gramado histórico do São Paulo Athletic Club, o famoso SPAC, ou clube dos ingleses, o primeiro campeão de uma competição oficial no País, o Campeonato Paulista de 1902 (na verdade, primeiro tricampeão, pois repetiu o feito em 1903 e 1904).

Para quem não sabe, o SPAC é o clube de Charles Miller, o rapaz filho de ingleses que foi estudar na Inglaterra e de lá trouxe as primeiras bolas que iniciaram a paixão do brasileiro pelo futebol. Miller, jogava bem e foi artilheiro do Paulista em 1902 e 1904, é chamado de “O pai do futebol do Brasil”.

Lá, na manhã de ontem, o time dos garotos sub-60 do SPAC recebeu o destemido Palmares, da vila de mesmo nome, do bairro da Pedreira, zona sul de São Paulo, um reduto de santistas.

A maioria dos jogadores do Palmares, assim como o seu técnico, João Neto, torcem pelo Santos. Fundado há 40 anos, o time tem o uniforme principal todo branco, em homenagem ao Alvinegro Praiano. Até a numeração das camisas da defesa é igual à do Santos: 4 – 2 – 6 – 3.

Para este jogo histórico contra o SPAC, o simpático e bem falante João Neto, que é tem uma memória sobre o futebol que faria inveja a Celso Unzelte e PVC juntos, cometeu a imprudência de me convidar “para bater uma bolinha”.

Como minha última partida tinha sido há nove anos, em uma competição entre jornalistas, nem chuteira eu tinha mais. Comprei um par no sábado e ontem pela manhã, levado pela Suzana, lá fui para “brincar” ao lado dos rapazes do Palmares. Mas ao divisar o campo de batalha, constatei que a tarefa seria das mais árduas: o campo era imenso, acho que maior do que a Vila Belmiro e o Pacaembu.

“Amistoso” não seria um termo correto

Logo percebi que o jogo era encarado com seriedade. Na distribuição das camisas, o “professor” João Neto anunciou que começaria com sua “força máxima”. Rafael, Edu, Silvinho, Raimundo e Geraldo; Chiquinho, Zé Roberto, Cláudio e Mirinho; Bala e Murilo (é claro que eu não tinha esperança de começar jogando. Quem iria confiar em um sujeito que aparecia de chuteiras novas e de óculos?).

Por mais que defenda o jogo ofensivo nas nossas conversas sobre o Santos, João Neto preferiu uma formação mais conservadora, com apenas Bala e Murilo à frente. O início do jogo já provou que ele estava certo, pois o time do SPAC, mais entrosado, trocava passes com facilidade.

Mirinho, o articulador do Palmares, que lembra Luisinho, o Pequeno Polegar, logo impôs o seu estilo tranquilo de passes curtos e isso equilibrou as coisas. Mas o adversário era mais perigoso e parecia tremendamente interessado na vitória, pois seu centroavante xingou-se demoradamente após bater uma falta por cima do travessão. E outro jogador, o número oito deles, costumava xingar deus e todo mundo.

Aliás, isso merece registro: enquanto alguns defensores do SPAC, herdeiros naturais da decantada fleugma britânica, perdiam-se em palavrões e atitudes grosseiras, os rapazes do Palmares tratavam de jogar limpo, educadamente, como se neles é que corresse o sangue nobre de Charles Miller.

E não é tão fácil ser educado quando o árbitro apita à moda da casa, mas esta é uma história para o final. O certo é que por volta dos 20 minutos do primeiro tempo, em uma investida pela meia direita, Zé Roberto penetrou e a bola foi tocada, com categoria, por sobre o goleiro do SPAC. Golaço! 1 a 0 Palmares!

Como se fosse o time do Muricy

No vestiário, antes da segunda etapa, vi que a intenção do professor era segurar a vitória mínima. “Vou trocar dois agora e depois eu te coloco, Odir”, disse João Neto. Àquela altura o time já tinha perdido um zagueiro, que sentiu uma velha contusão no joelho, e outros estavam perto da exaustão.

Não havia limite para substituições e era permitido retornar o jogador que já havia saído. Mas João prometera que todos jogariam e agora se via na saia justa de ter de me colocar em campo e correr o risco de jogar por terra uma vitória preciosa. Alguns companheiros me olhavam, desconfiados, e um deles falou: “Só substitui se for para o time melhorar, João!”

É claro que àquela altura eu já nem fazia muita questão de entrar. De fora eu tinha imaginado que, pegando uma bola pela meia-esquerda, driblaria com facilidade para dentro e chutaria no canto oposto do goleiro. Mas foi só tentar controlar a bola e dar uns chutes, no intervalo, que constatei que meus músculos já não me obedeciam como há, digamos, umas duas décadas.

Virei um torcedor e auxiliar técnico, orientado e gritando da beira do gramado. Marcar bem, segurar a bola e fazer o tempo passar eram as prioridades. Um segundo gol cairia do céu, mas parecia um tanto improvável. O time da casa dominava o jogo e melhorou ainda mais quando fez duas substituições e colocou em campo um ex-profissional.

E eis que, a uns 20 minutos para o fim do tempo regulamentar, João me chama e diz: “Odir, você vai entrar no lugar do Mirinho. Ele está morto. Prepare-se”. Bem, se fiz algum preparo, foi psicológico, pois não me lembro de ter dado nem um pique no lugar. Mirinho veio saindo, lentamente, e eu fiquei esperando por ele. Mas de trás de mim, gritaram: “Entra! Entra!”. E fui cumprimentar o maestro do time quase no meio-campo. Seu olhar era indefinível. Acho que se perguntava: “O que o João Neto está fazendo? E o que esse jornalista está fazendo aqui?”.

Minhas ordens, assim como as ordens dos outros cinco reservas que entraram antes de mim, foram as mesmas: “Fecha o meio-campo, ajuda na marcação”. Bem, e lá fiquei eu, como um volante caído para a esquerda. Mesmo destro, me sinto mais à vontade nessa faixa do campo. E havia muito o que fazer, pois às vezes o SPAC atacava com três jogadores por ali. Acho que detectaram em mim um ponto fraco…

Um milagre: a bola está no fundo da rede…

No primeiro passe que recebi, pela lateral, deixei a bola escapar e só fui alcançá-la, com o pé esquerdo, quando estava para sair de campo. Consegui jogá-la na paralela para o Zé Roberto, mais avançado (depois do jogo, o Chiquinho, um dos fundadores do Palmares, disse que nesse primeiro lance já estava dizendo que eu era uma merda, quando eu consegui o passe e mudou de opinião…).

Um campo grande permite a troca de bolas pelo chão, e isso é que tentei fazer. Mas não busquei nenhum drible ou arrancada, como havia planejado fora de campo. Sentia que não teria arranque suficiente para concluir uma jogada mais ousada. Então, fiquei ali, marcando, cercando, marcando, como um Adriano quase sexagenário.

Mas, mesmo sem grandes pretensões ofensivas, surgiu um escanteio pra nós pela direita. Eu tinha tentado acompanhar ao jogada pelo meio, à espera de um rebote, e estava no campo de ataque. Olhei para a área e não vi ninguém do nosso time à espera do escanteio. Só para pressionar a defesa deles e segurar uns beques lá atrás, fui para a pequena área e fiquei me deslocando para a frente e para atrás, como se soubesse cabecear.

Um grandalhão do SPAC, o número 22, virou as costas para o lance e, com desdém, preferiu sair da área, dizendo: “Já tem três para marcar um, por que eu preciso ficar aqui?”. Nisso, eu fui para a frente e, o mais rápido que pude, voltei para o segundo pau, pois o goleiro e o beque que me marcava ficaram à frente e, se o escanteio os encobrisse, atrás deles eu teria alguma chance.

Lembro-me como se fosse agora: quase encostado na trave vi Geraldo bater na bola com maestria, usando a curva para tirá-la do goleiro, pelo alto, e vir me encontrar, livre, na segunda trave. Sei que em jogadas assim corro o risco de levar um soco na cara e sofrer sérios ferimentos, principalmente se o óculos quebrar. Mas não podia deixar de enfiar a cabeça.

Confesso que não sigo o conselho dos mestres para uma boa cabeçada, e na hora do impacto, fecho os olhos. Só sei que a bola bateu na minha cabeça e, quando olhei, ela estava no fundo da rede e de nosso banco vinham os gritos de gol. A sensação que tive é de que os deuses do futebol tinham me proporcionado aquele milagre.

Já estava quase no meio de campo, cumprimentado pelos companheiros, quando me avisaram de que o árbitro – um rapaz enviado pela Federação Paulista – tinha anulado o gol, dando falta sobre o goleiro. Falta? A bola passou por ele e veio direto na minha cabeça. Subi com os braços rente ao corpo. Se houve algum choque, foi ele que se chocou comigo, ou com a trave… Senti na pele o quanto é duro ser garfado.

Depois do jogo ainda fiquei sabendo que o bandeirinha correu para o meio-campo, validando o lance, e que um jogador adversário exclamou: “Não foi nada, o goleiro é que falhou”. Mas na hora nem tive ânimo de ir falar com o árbitro. Percebi que não adiantaria nada e ele ainda poderia me expulsar.

Bem, mas o que importa é que o goleiro Rafael, que há seis meses sofre com uma dor crônica no ombro direito, salvou o time com uma defesa espetacular, jogando para escanteio um chute da marca do pênalti. E o mesmo Zé Roberto que fez o gol do Palmares, salvou outro gol certo do SPAC, tirando uma bola que ia entrando mansamente.

A vitória só veio depois de muita luta e mais de 10 minutos de acréscimo! No vestiário, João Neto me explicou que no futebol amador é assim mesmo: “o time visitante tem de fazer quatro para valer dois”, e garantiu que os dez minutos além do tempo até que não foram muito, pois já viu jogos em que o árbitro só terminou quando o tima da casa conseguiu empatar.

No CT do Neto

Após o jogo, fomos levados ao “CT do Neto”. Não, não tem nada a ver com o “Recanto Alvinegro”. É um bar na Avenida Sabará, cujo proprietário se chama Neto, que reúne os craques do Palmares para a confraternização após as partidas. Com muita cerveja, pedaços de frango e algumas caipirinhas, soltamos a voz e as lembranças.

João Neto, uma enciclopédia viva do futebol, relembrou algumas histórias do Santos, principalmente do genial Toninho Guerreiro. Lá conheci Chiquinho, craque que driblava como Romário e que quebrou a perna no dia em que ia para o Cruzeiro. Conheci também toda a torcida do valente Palmares: quatro ex-jogadores que não abandonam o clube, fundado há 40 anos.

Pedi uma frase ao técnico vencedor, e João escreveu no meu bloquinho: Numa partida impecável, Palmares, mais conhecido como “Só perde se quiser”, condegue uma vitória sensacional frente ao primeiro campeão paulista, apesar da arbitragem “Bola Nossa. E anotou o time completo com as substituições: Rafael, Edu (Bill), Silvinho (Luís), Raimundo (Mala), Geraldo, Chiquinho (Odir), Zé Roberto, Cláudio (Joãozinho), Mirinho (Maurício), Bala (Vicente) e Murilo.

Em dado momento, João Neto alardeou, sorrindo: “Calei os críticos!”. E em seguida fez um balanço dos jogos do Palmares em 2011: de dez partidas, o time perdeu oito e ganhou duas (aí eu entendi melhor a luta intensa para segurar a vitória contra o SPAC). As vitórias têm sido tão escassas que duas seguidas dão direito a uma feijoada. Esta será a maior motivação para a próxima batalha.

Quando a mim, percebi, duas horas após o jogo, quando o corpo esfriou, que tinha aberto a virilha de novo – mesma contusão que me tirou de campo há nove anos, na última partida que tinha feito antes de pisar no lendário campo do SPAC, o primeiro time a ser campeão no Brasil. Porém, ao contrário dos profissionais do Santos, que estão de volta, no máximo, em duas semanas, acho que meu retorno aos gramados só se dará em 2020. Isso, se Deus e o professor quiserem.

E você, tem uma história interessante e recente de um jogo na várzea? Gostou de saber que o Palmares é um time com maioria de santistas?