Pinhegas, o ponta-esquerda que veio do Fluminense e se apaixonou pelo time e a cidade; Odair, o ex-jornaleiro que virou artilheiro, e o poster de A Gazeta Esportiva em homenagem ao vice-campeão paulista.

Esses três vídeos, de origem desconhecida, trazem as imagens mais antigas que se conhece de um clássico entre Santos e Corinthians.

Ao assistir, abaixe o som, pois a locução não tem nada a ver com o filme. Na verdade, só o som do primeiro vídeo pode ser interessante, pois é um depoimento de Pelé para o Museu da Imagem e do Som.

O jogo, realizado em 4 de julho de 1948, valeu pela sexta rodada do Campeonato Paulista, que naquele ano durou oito meses, de maio a dezembro.

Nos cinco jogos anteriores, o Santos havia vencido quatro – entre eles o clássico com o Palmeiras, campeão do ano anterior. Sem contar que na estréia goleara o Nacional, de São Paulo, por 7 a 0.

Estréia de Pinhegas

Este jogo com o Corinthians marcou a estréia do ponta-esquerda Pinhegas no Santos. Rápido, com bons chutes de esquerda e direita, ele veio do Fluminense com 30 anos, mas jogou mais nove no Alvinegro Praiano, encerrando a carreira em 1957, com 34 gols em 94 jogos (como tantos outros jogadores que adotaram a cidade, Pinhegas passou a viver em Santos, onde faleceu em 2 de fevereiro de 2007 e foi sepultado no Cemitério de Filosofia, no Saboó).

Além do estreante Pinhegas, este Santos se 1948 tinha dois jogadores de destaque: o clássico meia Antoninho, considerado um dos melhores santistas de todos os tempos, e o centroavante Odair, que depois de ter trabalhado como jornaleiro quando criança, era um dos jogadores mais famosos da época e seria o vice-artilheiro do campeonato, com 15 gols (atrás apenas de Cilas, do Ypiranga, com 19).

Torcida do Santos era bem maior

Os torcedores, muitos de terno, chegavam no bonde 17, que passava pela Vila Belmiro. Repare que torcedores dos dois times ficavam juntos. Não havia e nem precisava de divisão de torcidas.

Note que não havia filas ou organização para se comprar ingressos e teve um momento em que a cavalaria teve de intervir. Ou seja, o tratamento ao torcedor continua o mesmo.

Os ingressos eram vendidos indistintamente. O que quer dizer que se fosse realmente a maior torcida da cidade – como alguns energúmenos fazem questão de divulgar –, obviamente seriam também a maioria no estádio. Porém, perceba nas comemorações dos gols, que os santistas são a grande maioria.

Athié começava aera do Santos grande

O filme mostra, espremido na multidão, o presidente do Santos, Athié Jorge Cury. Nesta época ele começou a filosofia de não vender os melhores jogadores e montar um time para ser campeão.

Com 15 vitórias, dois empates e apenas três derrotas, o Santos terminaria este Paulista de 1948 na segunda posição, apenas dois pontos atrás do São Paulo (em uma época em que vitórias só davam dois pontos). Para variar, seu ataque foi o mais positivo, empatado com o do São Paulo, com 54 gols.

O Santos continuaria fazendo boas campanhas nos anos seguintes, obtendo novamente o vice-campeonato em 1950, apenas um ponto atrás do Palmeiras.

Até que em 1955 conquistou seu segundo título paulista e iniciou um período de longa hegemonia no futebol de São Paulo, no qual, em 15 campeonatos, foi 11 vezes campeão.

Detalhes do filme

Perceba que há um lance – de 2m22s a 20m31s do terceiro vídeo – em que o jogador do Santos sofre falta na área, mas o árbitro marca impedimento. Será que já era o apito amigo a favor do rival?

Veja no primeiro filme detalhes dos arredores do estádio, com as mesmas casas que existem até hoje.

Note que um ônibus para e sai um monte de gente fumando lá de dentro. Imagine como deveria ser a qualidade do ar dentro do coletivo.

Repare a loucura dos torcedores que se penduram em uma alta torre de transmissão para ver o jogo. E um que tenta escalar o muro.

Perceba, nos lances de jogo, que se usava muito os centros altos para a área. Era chuveirinho sem parar. Não se costumava tocar a bola para o lado. Era ataque o tempo todo.

O gramado era ralo e a bola quicava muito. Era mais difícil controla-la.

Súmula do jogo (uma cortesia do amigo Khayat, que a pesquisou)

Detalhe: O público presente era maior do que o previsto para este domingo.

Repare no nível dos técnicos: Oswaldo Brandão pelo Santos e Gentil Cardoso pelo Corinthians. Dois personagens lendários do futebol brasileiro.

04/07/1948 Santos FC 3×2 SC Corinthians Paulista

Local: Vila Belmiro – Santos (SP)

Competição: Campeonato Paulista

Renda: Cr$ 115.135,00

Público: 12.688 + cerca de 6.000 sócios (18.688 total)

Árbitro: Vicente de Paulo Luz

Gols: Pinhegas 10, Severo aos 14 e aos 43 minutos do primeiro tempo; Odair aos 30 e aos 42 do segundo.

Santos: Robertinho; Artigas e Expedito; Nenê, Telesca e Alfredo; Odair, Antoninho, Pascoal, Paulo e Pinhegas. Técnico: Osvaldo Brandão.

Corinthians: Bino; Rubens e Belacosa; Newton, Hélio e Aleixo; Cláudio, Baltazar, Servílio, Severo e Noronha. Técnico: Gentil Cardoso.

Bem, foi isso o que eu reparei nesse vovô dos filmes de Santos e Corinthians. Veja se você percebe mais alguma coisa interessante:

E aí, o que achou deste Grande Jogo de 1948?