Ganso e Léo estarão de volta ao Santos amanhã, na decisão da Libertadores. Neymar é a maior preocupação do Peñarol. Zé Eduardo, ao lado dos pais, chorou ao lembrar que amanhã fará sua última partida no Alvinegro Praiano (que se despeça com gols). Fotos: Comunicação Santos FC.

Os titulares Paulo Henrique Ganso e Léo, além do capitão Edu Dracena, voltam ao time do Santos amanhã, em que o Alvinegro Praiano terá todas as vantagens – melhores jogadores, mais futebol, campo e torcida – para vencer o Peñarol e conquistar seu terceiro título na Libertadores. Ao time uruguaio resta a eterna “garra” baseada em uma cultura belicista que joga a ética às favas e permite qualquer tipo de atitude, desde que resulte na vitória final.

As agressões da torcida do Peñarol aos santistas que foram ao Centenário são fichinha perto do que já se fez no Uruguai por um título no futebol. Na primeira Copa do Mundo, em 1930, os argentinos, que venciam no primeiro tempo por 2 a 1, foram ameaçados de morte no intervalo e voltaram para o segundo tempo conformados de que deveriam entregar o jogo para saírem de Montevidéu com vida.

O título mundial do Peñarol, em 1961, foi obtido em um jogo contra o Benfica em que o time português foi prejudicado de todas as maneiras. Fernando Cruz, lateral-esquerdo do Benfica, relembra: “Vencíamos por 1 a 0 e perdemos no final, com um gol de falta e um de pênalti que não existiram. E na falta o jogador Sacía encheu a mão de areia e jogou nos olhos dos nossos jogadores que estavam na barreira. Devíamos ter jogado o terceiro jogo no Brasil ou na Argentina, mas nossos dirigentes foram covardes. Lá, certamente perderíamos. Pois, se ganhássemos, não sairíamos vivos dali”.

Na final da Libertadores de 1962, Pepe, o canhão da Vila, soube que chegaram a fazer buracos no gramado do Centenário para prejudicar o toque de bola do Santos. E no segundo jogo, na Vila Belmiro, Sacía jogou terra nos olhos de Gylmar no escanteio que gerou o gol de empate do Peñarol e provocou a confusão que acabou dando os pontos da partida ao time uruguaio e obrigou à realização de uma terceira partida, em Buenos Aires, que o Santos venceu por 3 a 0.

Este Peñarol segue a tradição do jogo sujo e violento

Apesar dos novos tempos, em que a tevê, com sua núltipla visão e câmera lenta, inibe as agressões, não se iludam, pois este Peñarol segue a cultura de seus ancestrais. Assim como os jogadores brasileiros treinam novas formas de dribles e jogadas de efeito, muitos dos jogadores uruguaios experimentam formas originais de agredir o adversário sem serem vistos.

Bater em cima, quando as câmeras focalizam a bola, no chão, é uma das maneiras que encontraram para parar Neymar no jogo em Montevidéu. Por três vezes o atacante santista levou socos, tapas e empurrões enquanto seus pés tentavam controlar a bola.

A tática não poderia dar mais certo, pois os agressores não foram punidos e Neymar, além de receber cartão amarelo “por simulação”, ainda passou todo o segundo tempo inibido, com receio de ser expulso e desfalcar o Santos na grande decisão de amanhã.

Ontem à noite, quando desembarcou tranqüilamente em São Paulo e, obviamente, também pode dormir tranqüilamente no hotel Tivoli, nos Jardins, os sorridentes uruguaios admitiam que um dos pedidos que mais ouviram de sua torcida é que parassem Neymar, de qualquer maneira. O lateral-direito Alejandro González chegou a dizer que se fosse atender ao pedido dos torcedores, não faria outra coisa a não ser dar pontapés no atacante santista.

Na verdade, os novos tempos desenvolveram outras técnicas para se ferir o adversário. Chegar atrasado é uma delas. A bola já passou, a câmera já está no próximo lance, e é aí que o tornozelo é pego. Há ainda o carrinho, uma especialidade de Alejandro González, que pega a bola e as pernas do jogador ao mesmo tempo.

Há, ainda, o “encontrão casual” nas cabeçadas, os empurrões e até golpes inusitados, como o praticado pelo veterano lateral-esquerdo Darío Rodrigues, que na partida contra a LDU, em Montevidéu, se aproveitou de um lance em que caiu embolado com o atacante Hernan Barcos para espremer-lhe o pênis. Sim, isso mesmo, patolou o equatoriano com vontade. Que Neymar fique bem esperto com essa novidade uruguaia…

Hoje, às 19 horas, o time do Peñarol fará o reconhecimento do campo do Pacaembu. Que fiquem em paz. Mas é importante que os funcionários do estádio prestem atenção para ver se não farão buracos no gramado de propósito. Eu não duvido nada…

Árbitro argentino já teria sido subornado pela federação uruguaia

O árbitro argentino Sergio Pezzota, que atuará na partida, auxiliado por seus compatriotas Ricardo Casas e Hernán Maidana, também merece mnuita atenção, pois já foi acusado de aceitar suborno da Federação Uruguaia, com quem mantém ótimas relações.

Segundo o diário uruguaio La República, Sergio Pezzota serviu-se de uma “dama de companhia” contratada pela Federação Uruguaia para satisfaze-lo antes do jogo entre Uruguai e Chile, em 18 de novembro de 2007, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo.

Pezzota, que havia chegado com três dias de antecedência a Montevidéu, recebeu a visita da formosa dama que, para despistar os funcionários do hotel onde o árbitro estava hospedado, estava devidamente trajada com uniforme da Federação Uruguaia.

Segundo a jornalista argentina Yosselem Rocamora, que é amiga íntima de Pezzota, a garota de programa foi muito bem paga pelos dirigentes uruguaios. O jogo terminou empatado em 2 a 2, mas o resultado foi considerado bom pela Seleção Uruguaia, que perdia por 2 a 1 até 36 minutos do segundo tempo.

Santos não pode baixar a guarda

Se esta final fosse em Montevidéu, o Santos teria incríveis dificuldades para ser campeão, pois seria cercado de agressões e ameaças dentro e fora do campo. Esta é a cultura de se ganhar a qualquer custo que prevalece na maioria dos países da América do Sul – Uruguai e Argentina, principalmente.

Estimulados por governantes que usam o esporte para desviar o foco de seguidas administrações corruptas, os uruguaios levam muito a sério esta coisa de serem um pequeno país contra o mundo e têm a ilusão de vencer o planeta a cada título inesperado no futebol.

Como se vê nas relações complicadas entre a direção do Santos e a do clube uruguaio, o anti-fair play começa no presidente e vai até o último aficionado do Peñarol – cuja torcida representa o que a América do Sul quer deixar de ser: um continente dominado pela barbárie. Vencer a qualquer custo é a sua norma, como se um título pudesse fazer com que um time medíocre e violento passasse a ser um exemplo de como se praticar o futebol. Não mesmo…

Por isso, por ter sempre uma carta na manga que pode provocar uma confusão e desnortear os adversários, esse Peñarol merece extremos cuidados. Não se imagine que aceitará pacificamente a derrota amanhã. Haverá provocação e bagunça. Isso é quase certo. Que o Santos esteja preparado.

Uma palavra à torcida santista

A forma animalesca como os santistas foram recebidos no Estádio Centenário – agredidos diante da atitude cínica dos policiais locais – é de revoltar mesmo os mais tranqüilos, como eu. Porém, que nada se faça contra os uruguaios que vierem torcer para o seu time no Pacaembu. Um erro não justifica o outro.

Sei que é duro apanhar e virar a outra face. E mais duro ainda pedir isso aos santistas recebidos como inimigos mortais no estádio Centenário. Mas peço que não hajam com a mesma selvageria, ou perderão a razão e tirarão a razão do Santos.

Que haja reação, sim, mas no grito, no incentivo e na comemoração final. Nada dói mais ao torcedor do que ver seu time derrotado e assistir ao rival erguendo a taça. Que os uruguaios que venham ao Pacaembu possam sentir isso, na pele.

Tomara que aprendam que futebol não é guerra, que um título, mesmo em condições heróicas, não transformará o Uruguai em maior do que é, ou fará do futebol do Peñarol mais bonito. Após a Libertadores, as coisas continuarão do jeito que estão. O Santos seguirá sendo o melhor time de todos os tempos e Neymar e Ganso continuarão sendo os melhores jogadores da América.

E você, o que acha dessa “garra uruguaia”? É garra mesmo, ou é desculpa jogar sujo e agredir os adversários? E o árbitro argentino Sergio Pezzota?