Reis só perdem a coroa quando morrem. O ditado já diz: “Rei morto, rei posto”. E Pelé ainda está bem vivo (e tomara que viva mais 100 anos…). Por isso, a capa da Veja é exagerada. Mas não a recrimino. É boa para Neymar, o Santos, o futebol brasileiro. Prova de que é possível, sim, quebrar o paradigma de que só há futebol moderno e charmoso na Europa, e de que só pode haver ídolos pop por lá.

Nada como uma revista que tem uma visão mais ampla do universo às vezes fanático e limitado do futebol. Se Neymar e o Santos tivessem rezado a cartilha ensebada da crônica esportiva nativa, o clube teria vendido o garoto no ano passado para o Chelsea, uma espécie de São Caetano da gelada Inglaterra (com todo o respeito ao São Caetano). E o que teria acontecido?

Neymar estaria recebendo por mês o equivalente ao que ganha no Santos, não teria metade do prestígio, não seria campeão de nada, não teria garotinhas bonitinhas atrás dele (ao menos não tão bonitinhas como as brasileiras), não seria mais o maior ídolo do Brasil e talvez nem fosse titular do time inglês, pois lá eles gostam de jogadores fortes, bons no chamado jogo aéreo, que levam pancada e levantam rápido para levar a próxima, não reclamam do árbitro e não fazem firulas. Ou seja, a Inglaterra, como descobriu Robinho, Elano e tantos outros, é o último lugar em que um craque brasileiro deve jogar.

Mas havia uma pressão enorme e injustificável para que Neymar fosse embora. Ora, que interesse um jornalista esportivo brasileiro pode ter de ver os melhores jogadores do País indo para o exterior? A única explicação – e me recuso a acreditar nela, pois revelaria uma mesquinhez total – seria a paixão deste jornalista por um outro clube que teria mais chances de ser campeão sem um Santos tão forte como concorrente.

Se Neymar não fosse do Santos, não seria chamado de Rei

O título de capa da Veja permite uma interpretação interessantre. Diz ele: “Finalmente surge um craque da linhagem de Pelé”. Ao invés de “linhagem”, poderia ter usado “à altura de Pelé” ou algo parecido. Mas preferiram um termo que lembra herança genética, árvore genealógica, como se Pelé tivesse filhos, como se a genialidade do Rei pudesse ser herdada.

E se há uma linhagem, ela existe desde as origens. Sim, isso mesmo, o fato de ter iniciado a carreira na Vila Belmiro, como Pelé, reforça a nobre filiação de Neymar. Este título da revista seria impossível se o rapaz já estivesse expondo suas canelas finas à sanha dos lenhadores anglo-saxões travestidos de beques e volantes.

Neymar só pode ser considerado o novo Rei porque é craque, porque tem uma segurança e uma personalidade incomuns, porque ninguém é indiferente a ele e porque, obviamente, joga no mesmo time que é sinônimo de realeza.

Chegamos, enfim, ao incomensurável valor agregado de se jogar no Santos, clube do qual o mundo do futebol sempre espera novos mitos e fantasias. Nenhuma outra agremiação esportiva desse planeta pode dar a um garoto, em tão pouco tempo, a coroa e o cetro do esporte mais apaixonante e popular. Isso só acontece, repito, porque o Santos é o time de Pelé.

Por isso, jogar no Santos foi o que de mais importante aconteceu na carreira de quase todos os jogadores que passaram pela Vila Belmiro. Muitos só se dão conta disso anos depois, quando a ânsia pela chamada realização financeira cede lugar à sabedoria que vem com a idade e descortina as coisas realmente essenciais da vida.

Ser feliz, estar rodeado por pessoas que nos amam e a quem amamos, viver em um ambiente que nos agrada e nos proporciona tudo o que queremos, sentir-se admirado e respeitado pelo que fazemos e ter plena liberdade para desenvolver nossas aptidões e talentos. É isso que um craque do futebol precisa para brilhar, brilhar tanto a ponto de um dia poder ser chamado de Rei. E Neymar encontrou tudo isso no único time que abriga um histórico e uma linhagem real.

E você, acha que Neymar é o novo Rei do Futebol? Por que?