Receita da selvageria e do jogo sujo: primeiro, explodem rojões e fazem barulho perto das janelas do hotel em que o time adversário está hospedado. Perceba que tem até um sujeito de terno. Isso deve ser um programa comum por lá. Depois, usam uma parte dos fogos com os quais adentram livremente no estádio para jogar sobre os torcedores visitantes. Pedras também são usadas. Se conseguir acertar a testa do técnico do adversário, melhor ainda. Se nada der certo, ainda há a possibilidade de invadir o campo e massacrar os jogadores do outro time, como fizeram em 2009, contra o Fluminense. É inacreditável como esta torcida do Cerro Porteño age impunemente e a Conmebol e a federação local nada fazem para impedir esses bandidos. Entra ano, sai ano, e a Libertadores continua essa bagunça…

No campo, o Santos usou os contra-ataques para empatar em 3 a 3 com o Cerro Porteño e garantir a vaga para a final da Libertadores. Eu poderia estar mais feliz com isso. Mas o festival de barbaridades que se viu no estádio do Cerro Porteño foi tão grande que, se não houver nenhuma punição ao clube paraguaio, acho que os clubes brasileiros devem analisar com carinho a possibilidade de não participar mais desta competição.

Os jogadores, a comissão técnica e os torcedores do Santos – como já havia acontecido com o Fluminense na partida com o Estudiantes – foram expostos a agressões e riscos incalculáveis.

Criou-se, literalmente, um cenário de guerra e ódio para receber o representante brasileiro. A selvageria começou na noite anterior, com foguetório e barulho na madrugada diante do hotel em que se hospedavam os santistas. A velha barbárie que ainda frutifica entre as piores pessoas que acompanham o futebol, floresce em ambientes sem lei, como certos países sul-americanos.

Antes do início do jogo, um verdadeiro show pirotécnico engolfou o estádio, com os perigos que já conhecemos dessa prática selvagem. Depois, com a bola rolando, vêm as pedras e o raio laser nos jogadores e no técnico adversário, além da pressão sobre a torcida contrária, como se ela fosse um pequeno batalhão inimigo programado para ser massacrado.

Não adianta esperar mais que essas coisas se resolvam. A Conmebol, além de enriquecer as pessoas que a utilizam para seu benefício pessoal, nada faz pelo desenvolvimento do futebol sul-americano. Nem ao menos protege as poucas estrelas de um futebol falido que ainda insistem em continuar jogando no continente.

Hoje, não duvido se Neymar tenha se perguntado: “Por que eu tenho de continuar jogando nessa merda de América do Sul, contra esses zagueiros de merda, esses torcedores de merda, esses dirigentes de merda e essa imprensa de merda? Eu ganho o que, além de porrada, para continuar por aqui?”.

Não sei ele, mas eu teria me perguntado depois do jogo de ontem. E teria dito ao sair do jogo: “Onde está a Conmebol que não vê tudo isso? Cadê o senhor Nicolas Leoz? Vão esperar que morra alguém para tomar alguma providência?”.

Percebi que, ao abandonar o campo, Neymar ainda estava assustado. Se aqui, de longe, sentimos o clima hostil, imagine ele, um garoto que desperta amor e ódio? E ao sair do estádio teria ainda de enfrentar a sanha do populacho, o fanatismo ignorante dos torcedores paraguaios. A classificação para a final teria de ser comemorada no Brasil. Não seria aconselhável ficar nem um minuto mais no Paraguai.

Uma pena que tenha de ser assim. Paciência. Com o resultado, além de se classificar para a decisão da Libertadores, o Santos manteve a escrita de nunca perder para uma equipe paraguaia. Fico imaginando: se agora é assim, como não seria nos anos 60, em que os jogos não tinham o testemunho da tevê? Por essas e outras que o Santos abdicou de jogar a Libertadores três vezes, mesmo tendo adquirido o direito. Jogar em um estádio sujo e perigoso como o de ontem é oferecer pérolas aos porcos. Neymar, os jogadores brasileiros, nem ninguém, merece isso.

Um primeiro tempo dos deuses

O show pirotécnico antes do jogo deu um ar belicoso à partida. Estranho jogar em um país onde fogos são permitidos em estádios, com luzes e estrondos ribombando em meio à multidão. Quanta gente não deve se ferir! Parece intimidação aos visitantes. As federações de futebol dos países sul-americanos deveriam estudar regras conjuntas de segurança e civilidade.

A um minuto de jogo Neymar recebeu bom passe pela esquerda e driblou para ir à linha de fundo quando recebeu falta para cartão amarelo. O árbitro colombiano Wilmar Roldán não deu o cartão, mas ao menos marcou falta, que Elano cobrou com maestria na cabeça de Zé Eduardo. E assim Zé Love desencantou na hora certa. 1 a 0. Melhor impossível.

O gol abalou o Cerro e calou estádio. Mas não por muito tempo. Logo o time paraguaio tratou de ir à frente, no que foi ajudado pela postura defensiva do Santos, que, no ataque, só mantinha Zé Eduardo, pela direita, e Neymar pela esquerda.

Aos 10 minutos o Cerro dominava e Alex Sandro já tinha levado um cartão amarelo quando Torres saiu machucado e entrou o garoto Iturbe, que deu maior movimentação ao ataque paraguaio.

Aos 13 minutos Edu Dracena fez falta boba. Quatro minutos depois, foi a fez de Durval. E todas as bolas eram chutadas a gol, ou centradas, perigosamente, na área santista.

Aos 20 minutos Rafael fez grande defesa, em uma cabeçada quase à queima-roupa. Aos 22, em um raro contra-ataque, Alex Sandro cruzou e Zé Eduardo cabeceou fraco. Dois minutos depois Jonathan se esforçou demais em uma jogada em que recebeu o cartão amarelo e sentiu novamente o músculo. Pará o substituiu.

Aos 27 minutos, quando o Cerro mais pressionava, um chutão de Edu Dracena alcançou Neymar no ataque. Ele disputou a bola com o zagueiro Pedro Benitez, que conseguiu cabecear para o goleiro Barreto. Este, porém, em uma falha incrível, deixou a bola entrar. 2 a 0 caídos do céu!

Mas o Cerro continuou no ataque e o Santos, recuado. E aos 31 minutos, após cobrança de escanteio, César Benitez apareceu no meio da zaga santista para cabecear sem chances para Rafael. O estádio se incendiou de novo com o gol do Cerro. 2 a 1.

Aos 33 minutos Durval fez outra falta perto da área; aos 36 Rafael fez mais uma grande defesa, salvando gol certo. Aos 29 Elano levou o amarelo depois de perder a bola no ataque.

Aos 41, entrou Lucero e saiu Burgos. O técnico Leonardo Astrada apostava definitivamente no ataque. Aos 45 Iturbe recebeu amarelo por simulação. O árbitro foi muito bem neste lance, que só pôde ser comprovado na câmera lenta.

No último lance da primeira etapa, em um contra-ataque puxado por Arouca desde o campo do Santos, Neymar recebeu livre, pela ponta-esquerda. Cortou para o meio e com uma tranqüilidade inacreditável, escolheu o canto direito para bater seco e fazer o terceiro gol.

A sensação do final do primeiro tempo é que a classificação para a final já estava praticamente garantida, mas que o Santos ainda sofreria muita pressão do Cerro. A esperança é de que no vestiário Muricy acalmasse e organizasse melhor o time.

O sufoco continuou no segundo tempo

O Santos continuou recuado no segundo tempo. Mas aos 10 minutos a impressão que se tinha é que o jogo estava mais controlado.

Irritada, a torcida passou a jogar objetos em campo e dirigir raios de laser para os rostos do goleiro Rafael e de Neymar.

Aos 14 minutos, de tanto pressionar, o Cerro fez um gol e diminuiu para 3 a 2. Sete minutos depois, para aproveitar os cruzamentos altos, entrou o grandalhão Roberto Nanni.

Aos 25 minutos saiu Elano e entrou Rodrigo Possebon, e com esta substituição se foi a última esperança de o time conseguir equilibrar as coisas no meio-campo. Em seguida Maikon Leite substituiu Zé Eduardo e o Santos passou a viver de chutões para a frente na esperança de encontrar Maikon Leite ou Neymar.

Aos 31 minutos Rafael fez duas defesas seguidas, depois de um passe nas costas de Alex Sandro. Cinco minutos depois, Fabbro dominou uma bola que estava entre Maikon Leite e Rodrigo Possebon e acertou um chute incrível, de longe: 3 a 3.

Um minuto depois e Muricy Ramalho foi atingido por uma pedra na testa. Aos 39 minutos Neymar cobrou uma falta na trave, mas a pressão era do Cerro, que jogava o tempo todo no campo do Santos.

Neymar ainda teve uma chance esporádica antes do final, em um único passe de Maikon Leite, mas o Cerro acertou o travessão e esteve mais perto do gol.

Antes do fim, Edu Dracena, que já tinha levado cartão amarelo por fazer cera na cobrança do tiro de meta, foi expulso depois de cometer falta desnecessária perto da área, saltando sobre as costas do adversário. Ele desfalcará o Santos no primeiro jogo da decisão.

Não farei análise individual dos jogadores do Santos. O time se classificou, mas fez sua pior partida na Libertadores. Achou os três gols e depois recuou demais. Não conseguiu tocar a bola e perdeu a maioria das divididas. Ninguém se destacou, se bem que Neymar, novamente, tenha sido decisivo. Ele sofreu a falta que gerou o primeiro gol, pressionou o zagueiro na jogada do segundo e marcou o terceiro com extrema categoria, além de dividir com Zé Eduardo toda a responsabilidade de brigar contra a defesa do Cerro.

Incrível que no jogo da fase de classificação, sem Neymar, Elano e Zé Eduardo, mas comandado pela maestria de Paulo Henrique Ganso, o time tenha jogado bem melhor do que ontem, controlando a partida e não permitindo chances de gol ao adversário. Sem contar que o fato de descansar no fim de semana não parece ter ajudado muito, pois o Cerro se empenhou muito mais.

Na decisão, primeiro jogo será fora

Asssiti ao jogo pela Globo, mas depois ainda vi o tape pelo Sportv. O narrador Milton Leite afirmou que o primeiro jogo da final será no Brasil e o segundo e decisivo fora, mas a informação não procede. O Santos foi o melhor dos segundos colocados, à frente de Peñarol e Velez.

A classificação na segunda fase, a de grupos, é que se define o mando de campo até o final da Libertadores. O time com mais pontos fica como número 1, e assim por diante. Como melhor dos segundos, o Santos ficou com o número 9, o Velez com o 10 e o Peñarol com o 14.

Quando dois times se enfrentam nas fases posteriores à segunda, ou seja, nas oitavas, quartas, semifinal e final, o que tem o menor número (o que significa que ganhou mais pontos na segunda fase, a de grupos), tem o direiro de fazer o segundo jogo em casa.

Para a final se exige um estádio com capacidade mínima para 40 mil pessoas. Creio que o Pacaembu se encaixaria, mas espero que a diretoria do Santos escolha o Morumbi, o que daria a mais santistas e a mais sócios do clube o prazer de ver a final da Libertadores. Sem contar que a arrecadação também será maior.

Você acha que o time jogou pelo resultado, ou também esperava mais do Santos em Assunção? E os incidentes, será que trarão conseqüências para o Cerro, ou passarão em branco?