Ao vencer a Liga dos Campeões da Europa, entre o prêmio em dinheiro pelo título e o que passaria a receber pelas cotas de televisão, o Barcelona garantiu um total avaliado em 126 milhões de euros, ou 179 milhões de dólares. Enquanto isso, o Santos, campeão da Libertadores, a versão sul-americana da Champions League, recebeu menos pelo título continental do que havia angariado pela taça do Campeonato Paulista, ou seja, o equivalente a 5% do campeão europeu.

O que isso significa? Que assim como os grandes supermercados engoliram os mercadinhos de esquina, o futebol europeu engoliu os futebóis pelo mundo afora. A competitividade é uma nuvem passageira que paira, de quatro em quatro anos, sobre as Copas do Mundo – quando muitos dos astros europeus defendem seus países de origem –, mas se dilui no dia a dia dos clubes.

Não é só uma questão econômica. É, também, um fenômeno cultural. Criou-se e se propaga, com pleno sucesso, o conceito de que só pode haver futebol na Europa e, portanto, os jogadores, por melhores que sejam, só passam a existir quando jogam lá. Essa crença tira dos países emergentes a vontade de alterar esta situação, mesmo quando têm plenas possibilidades para isso.

Se for levado em conta o PIB (Produto Interno Bruto) de cada país, o Brasil é mais rico do que Espanha e muito mais rico do que a Turquia, por exemplo, mas o campeonato brasileiro recebe apenas 40% dos direitos de transmissão do monótono campeonato espanhol (todo mundo sabe quem serão campeão e vice) e 70% do campeonato turco.

Você assiste ao insosso campeonato francês? Pois fique sabendo que ele arrecada 300% a mais com a tevê do que o brasileiro. A comparação com o italiano é ainda mais vexatória, pois eles faturam 500% mais. E com o inglês, então, dá até vergonha: pois aqueles times, que têm no chuveirinho sua tática principal, participam de uma competição nacional que fatura 6,5 vezes mais do que o campeonato brasileiro.

E como todos esses campeonatos europeus faturam tanto? Ora, vendendo suas transmissões de tevê para o mundo todo, o que gera milionários benefícios diretos e indiretos. Além do dinheiro obtido diretamente com a venda dos direitos, há o que se ganha com a maior popularidade dos times europeus no mundo, materializada na venda dos mais variados produtos, dos quais a camisa oficial é o pãozinho quente.

O próprio prêmio de melhor do mundo, chancelado pela Fifa, está plenamente ajustado neste esquema. No dia em que houver alguma dúvida de que os principais jogadores não estão na Europa, o castelo poderá começar a ruir.

A Europa precisa de ídolos para se manter no topo

Por mais que haja uma estrutura resplandecente, com estádios novinhos em folha e uma grama tão macia e apetitosa que alguns jornalistas esportivos teriam vontade de comer, a verdade é que o esporte ainda não pode prescindir do ídolo. É ele que incendeia as multidões, é ele que torna o sonho completo. Por isso esta ansiedade para tirar Neymar do Brasil.

Um ídolo do futebol que se mantenha fora da Europa pode colocar em risco o predomínio do futebol do velho continente. Tudo bem, isso pode representar apenas uma pequena fissura no dique, mas que as mudanças na economia mundial e, repito, a irrefreável paixão das massas, tratarão de alargar.

Com melhores atrações, o campeonato brasileiro se tornará um espetáculo mais requisitado, gerando ganhos maiores aos clubes e contribuindo para se iniciar um círculo virtuoso que levará ao aprimoramento de toda a estrutura.

Com um pouco de esforço de toda a comunidade futebolística brasileira – jornalistas esportivos, inclusive –, em poucos anos o campeonato brasileiro poderá dobrar o seu faturamento, que hoje é calculado em 247 milhões de dólares anuais. Estes três anos até a Copa do Mundo são a grande oportunidade de se buscar uma valorização que poderá elevar a competição nacional no mínimo ao nível da espanhola (683 milhões de dólares) ou até mesmo da francesa (912 milhões).

Desdenhar Neymar e Ganso faz parte do jogo…

Não me surpreenderam as frases do presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, e de um jornalista italiano, duvidando do talento e da capacidade de Neymar e Paulo Henrique Ganso. Primeiro porque, como diz a sabedoria popular, quem desdenha quer comprar. E depois porque a Europa não pode correr o risco de dar ao mundo a impressão de que o Brasil tem dois dos melhores jogadores do planeta. Se não puderem levar, tratarão de minimizar a perda, de tentar desvalorizar os jogadores no mercado internacional.

Quando Pérez disse que Neymar não vale mais do que 15 milhões de euros, ele quis dizer que na Europa, e mesmo no Real Madrid, há muitos jogadores mais valiosos do que o brasileiro, o que é uma deslavada mentira.

E quando o jornalista italiano afirmou que Ganso não é um jogador vencedor, mostrou desconhecimento e arrogância, pois Ganso ganhou o Paulista de 2010 com sua personalidade e talento de segurar a bola em um momento crucial da partida, e foi essencial na conquista da Libertadores ao dominar o meio-campo do jogo decisivo contra o Cerro Porteño, em Assunção, quando o Santos estava desfalcado de Neymar e Elano e precisava desesperadamente da vitória. Ganso é tão vitorioso quanto Neymar, esta é a verdade.

A atitude correta – e corajosa – é manter os craques aqui

Perceba, leitor, que o Campeonato Brasileiro está esvaziado. Estádios pela metade, pouco interesse, atenções voltadas para a Copa América. Imagine o quanto não seria pior se os principais clubes estivessem sem seus melhores jogadores… Correríamos o sério risco de ver, abruptamente, o futebol brasileiro seguir os passos em direção ao abismo que se vê na vizinha Argentina.

Iniciar um movimento – ao menos no campo das ideias – para se manter nossos craques por aqui, é um primeiro passo para começar a mudar o quadro atual e impedir a falência do nosso futebol – que, repito, internacionalmente é menos valorizado do que o turco.

Assim como as equipes esportivas precisam de mais repórteres e menos comentaristas, o futebol brasileiro e sul-americano precisa de mais ação e menos blá-blá-blá. Que se estudem ações conjuntas de valorização do esporte no continente, que se crie, por exemplo, um prêmio ao melhor jogador do mundo que, realmente, contemple atletas de todos os continentes.

Enfim, é possível contra-atacar, apesar de a Conmebol e as federações nacionais serem dominadas por políticos e não por administradores, e a imprensa esportiva estar coalhada de pensadores modernos seduzidos pela grama verdinha e macia do futebol europeu, que não tiram a bunda da cadeira para checar as informações que dão.

Como já escrevi antes, até entendo que profissionais da ESPN defendam a ida dos melhores jogadores brasileiros para a Europa. Sem recursos para comprar os direitos de transmissão do campeonato brasileiro, a emissora vive de nos empurrar goela abaixo competições das mais variadas nações europeias. Cabe ao telespectador o discernimento de não perder tempo com tanta porcaria.

A BandSports, o Sportv e a RedeTV também transmitem jogos da Europa. Tudo bem, uma ou outra partida vale a pena. Mas aquilo que começou com o Silvio Lancelotti e o Antero Greco comentando jogos do campeonato italiano na hora do almoço de domingo, virou uma febre que não poupa nem o dantesco campeonato russo (urgh!).

O caso Neymar pode ser o precedente que o futebol brasileiro precisava para se auto-analisar, rever seu caminho. Do jeito que está, para onde vamos? Quando teremos novamente os melhores jogadores do mundo atuando aqui, como aconteceu até o final dos anos 70? Seremos eternos mercadores de talentos jovens para a Europa?

Bem, estas são respostas que cada um de nós tem de buscar dentro de si mesmo. Estádios modernos e gramas verdinhas não são a maior carência. A grande questão é abdicar do sonho, a única coisa que vale a pena no futebol. E é isso que muita gente, sem perceber, já fez no Brasil.

E você, tem alguma idéia de como transformar o futebol brasileiro em um dos mais atraentes e rentáveis do mundo? A bola é sua.