Do jeito que ele estava procurando o jogo e pelo espaço que os equatorianos davam, era possível apostar que Neymar ainda faria mais um ou dois gols antes do final da partida. Mas o indecifrável técnico Mano Menezes resolveu tirá-lo do time. E tirou também Paulo Henrique Ganso. Nisso, o locutor Galvão Bueno veio com a pérola: “Agora Mano Menezes vai chamá-los para uma conversa no banco de reservas. Afinal de contas, são apenas meninos…”.

Havia um quê de desaprovação na voz impostada do decano dos locutores brasileiros de futebol, como se os garotos tivessem feito algo ruim e merecessem a reprimenda do técnico. Ora, o Brasil não foi eliminado por causa dos dois, de Pato, Robinho e Maicon, os melhores em campo contra o Equador. Mas o pior não é esta visão premeditadamente distorcida do jogo. O pior é negligenciar o poder e o talento dos garotos.

Pois eu diria que Neymar, aos 19 anos, já contribuiu milhões de vezes mais para o futebol do que Galvão Bueno com seus discursos infindáveis e piegas. E o mínimo que um locutor de futebol deveria ter era respeito ao craque e ao ídolo que, grosso modo, garante o seu ganha-pão.

Fosse a Seleção Brasileira um deserto de talentos, um time perdedor, covarde e sem ousadia, e Galvão provavelmente estaria usando sua bela voz para vender enciclopédias de porta em porta (não vejo outra serventia para sua cultura de almanaque e seus argumentos de vendedor ambulante).

Mais respeito aos Meninos do Santos!

Pelé tinha apenas 17 anos quando levou o Brasil ao título da Copa de 1958, na Suécia, devastando o complexo de inferioridade que impregnava os velhos homens do nosso futebol. Clodoaldo tinha 20 quando assumiu a proteção da defesa brasileira na Copa de 70 e ainda teve a iniciativa de ir ao ataque e marcar o gol mais importante daquele Mundial: o de empate, contra o Uruguai, nas semifinais, quando o resto do time parecia paralisado pelo medo.

Robinho tinha apenas 19 anos na final do Brasileiro de 2002, em que pedalou, fez gol, defendeu, deu assistências preciosas, enfim, decidiu o jogo contra o Corinthians e impôs sua habilidade e rebeldia a um Morumbi superlotado.

E Coutinho? Este ainda não tinha completado 16 anos quando marcou dois gols na vitória sobre o Vasco por 3 a 0, no Pacaembu, e deu ao Santos o título do Rio-São Paulo de 1959.

Bem, quem conhece a história do Santos sabe que na Vila Belmiro Meninos são deuses eternamente reverenciados. E se quisermos voltar mais ainda no tempo, teríamos os pioneiros Adolfo Millon e Arnaldo Silveira, depois Araken Patusca, Siriri, Camarão, Antoninho, Pepe, Del Vecchio…

Por tudo isso é que um santista sabe que um jogador jovem, por mais inexperiente que seja, merece respeito. E se ele já foi campeão quatro vezes em apenas um ano e meio, como são os casos de Paulo Henrique Ganso e Neymar, aí o respeito passa a ser obrigatório.

Não, Neymar e Ganso não são “apenas” meninos. Eles simbolizam, na sua arte e irreverência, tudo de belo e apaixonante que o futebol brasileiro pode produzir. São deuses dos estádios, são ícones populares. Nós, Galvão, que temos a sorte de tê-los na Seleção Brasileira, é que somos apenas jornalistas.

E pra você, o que Neymar e Ganso representam para o futebol brasileiro?