Enquanto preparávamos o jantar, Suzana me perguntou o que eu achava do jogo, se o Santos ganharia. Respondi que a lógica era o empate, resultado que agradaria ao Corinthians, pois voltaria à liderança, e não descontentaria Muricy, que estava sem Neymar, Ganso e Danilo. Ela retrucou, desmotivada: “É?!”. “É, e o mais provável é que dê 0 a 0”, completei. Depois do jantar, levemente entorpecida pelo vinho, ela avisou que ia para a cama mais cedo. Tranqüilizei-a: “É melhor mesmo, amor. Você não vai perder nada”.

Anos e anos de futebol fazem a gente sentir no ar o que pode acontecer em um jogo. Ontem, com três ou com dois zagueiros, o Santos seria um time pouco criativo, mais preocupado com a marcação. Os desfalques e as presenças de jogadores que estão se ambientando na equipe não davam a confiança de que pudesse superar o time mais organizado do Corinthians.

Não há muito o que falar do jogo. Eu diria que a defesa do Santos foi bem. E só. Prossigo sem a menor confiança em Ibson e Henrique. O primeiro é bem mais ou menos. Não faz nada de especial. Se custou mesmo quatro milhões de euros e ganha 300 mil reais por mês (a diretoria do Santos me corrija se eu estiver errado), foi mais um péssimo negócio que o clube fez.

Quanto a Henrique, perde a bola com muita facilidade para um volante. Se há um jogador que tem de brigar pela bola com unhas e dentes, é o volante. Ele não só precisa roubá-la do adversário, como dar sequência às jogadas. Mas só ontem eu contei quatro bolas dominadas que o rapaz perdeu.

A grande decepção do time, entretanto, foi Diogo. Ele parece um filho de diretor convidado para completar o coletivo. Não tem as manhas de um jogador profissional. Não sabe proteger a bola, escolhe as piores opções, cai ao menor esbarrão. Acho que Felipe Anderson deve estar treinando muito mal, pois ficar no banco do Diogo é dose.

Ontem era jogo para o Felipe entrar. Ele pelo menos tenta alguma coisa nova, dá um drible ou enfia uma bola de vez em quando, além de ser bom nas bolas paradas. Faltou um meia que ao menos tentasse isso.

Quanto a Muricy, fez o que eu esperava dele. Jogou pelo 0 a 0 e torceu para que uma ou outra bola entrasse. Mas não empreendeu o mínimo esforço tático para que isso acontecesse. Com um companheiro de ataque atrapalhado como Diogo, seria um milagre se Borges chegasse ao gol.

No final, colocar o comprido Alan Kardec para aproveitar os chuveirinhos na área lembrou a estratégia manjada dos times do interior. A verdade é que, mesmo jogando em casa e diante de um adversário também desfalcado, Muricy quis garantir o empate. Garantiu. Mas será que isso é suficiente?

Nestas horas lembro-me de uma frase (inteligente) de Vanderlei Luxemburgo: como as vitórias valem três pontos, e o empate um, é melhor jogar sempre pela vitória, mesmo correndo o risco de perder. Pois se um time empata dois jogos, ganha dois pontos, mas se perde um e vence o outro, além dos três pontos passa a ter uma vitória a mais, que é um critério de desempate.

Luta contra o rebaixamento não será tão fácil

Os três jogos que o Santos tinha a menos sempre foram considerados motivos suficientes para evitar o medo do rebaixamento. Entretanto, um jogo já se foi e o Alvinegro ganhou apenas um ponto. Se continuar jogando assim, empatará com o Fluminense, em casa, e perderá para o Grêmio, no Olímpico, e só terá feito dois pontos nos três jogos atrasados.

Depois, terá de batalhar pela vitória a cada jogo, pois nenhuma equipe está se deixando vencer com facilidade. Mesmo com os retornos de Neymar, Ganso e Danilo, o Santos não deverá ter moleza e precisará de muita concentração e determinação para evitar o maior vexame de sua história.

Amanhã, quando acordar bem cedinho, Suzana vai me perguntar como foi o jogo do nosso time, que ela pronuncia “tchime”, me imitando. Eu só darei um sorriso e ela entenderá que deu o que eu previ. Ela responderá com outro sorriso e exclamará: “Ah, esse meu amor!”. Pois é. Ao menos o 0 a 0 aumentou meu crédito como especialista em futebol aqui em casa.

E você, o que achou do clássico e o que espera do Santos no campeonato?