O problema do Santos voltou a ser a defesa. Mas não é um problema só de quem joga no setor defensivo – goleiro, zagueiros e laterais -, mas de todo o time. É uma questão de mentalidade, de filosofia. No futebol moderno, a defesa começa com o centroavante, até chegar ao goleiro. Sem a bola, o time todo tem de marcar, ou o adversário terá vantagem.

Por isso é que times que jogam em casa, mesmo quando inferiores ao adversário, costumam mais ganhar do que perder. Porque se atiram à luta com determinação, como o Atlético Paranaense fez ontem.

Os jogadores mais competitivos sabem o valor da marcação. Até Pelé marcava. E se você pesquisar aí no Youtube o jogo entre Brasil e Uruguai pela semifinal da Copa de 70, verá que o gol da virada brasileira surgiu de uma sutil roubada de Pelé no meio-campo. Se o Rei do Futebol marcava, então ninguém tem desculpa para não marcar.

O dilema de Muricy: os melhores jogadores, ou o melhor sistema?

O técnico Muricy Ramalho ganhou dois títulos em três meses priorizando a defesa e deixando o talento de Neymar resolver tudo lá na frente. Deu certo, mas não dá para um time jogar sempre assim. Que chances o Santos teria em uma provável final com o Barcelona dependendo só das arrancadas ou da genialidade de Neymar? Nenhuma, não é mesmo?

Por isso, o técnico está se permitindo usar um esquema menos mesquinho, com jogadores que tratam melhor a bola. Substancialmente, a única mudança de fato foi a entrada de Ibson no lugar de Adriano. O novo contratado tem fama de ser um volante com recursos, jogou em grandes times, tem experiência internacional, já foi cogitado para a Seleção e por isso veio por um salário equivalente ao de Elano. Enfim, o técnico tem a obrigação de colocá-lo para jogar.

Mas, para dar certo no Santos, Ibson tem de marcar mais do que apoiar. Ou ter fôlego para fazer as duas coisas bem feitas. Por Paulo Henrique Ganso não marca ninguém e Elano, que deveria faze-lo, também não faz. Elano age como o operário que chegou a chefe de seção e agora acha que pode ser menos disciplinado do que era antes, de que pode ter regalias. Mas no futebol não é assim. Se o jogador se destacou atuando de uma maneira, só se manterá em destaque se continuar jogando da mesma forma.

Elano deve ajudar o lateral-direito na marcação por aquele setor e deve apoiar quando o time tiver a bola. Mas não pode perde-la e pôr a mão na cintura, pois aí sobrecarregará o lateral. Ganso é o único do meio-campo que não tem obrigação de se dedicar muito à marcação, porém também não pode perder a bola e ficar parado.

A lição que vem do basquete: marque também os eu marcador

Oscar Schmidt, o grande cestinha e ídolo do basquete, revelou-me que no seu esporte a atuação de um jogador não é medida apenas pelos pontos que fez, mas também pelos pontos marcados pelo jogador que ele deveria marcar. Por exemplo, de nada adiantaria Oscar encestar 40 pontos se o jogador a quem deveria marcar encestasse 42.

Leve esta máxima para o futebol e perceba que há jogos em que o jogador menos cotado, por se entregar mais à luta, leva vantagem sobre aquele que, mesmo mais técnico, não se dedica tanto à defesa. Ontem tivemos um exemplo claro dessa realidade ao analisar os desempenhos de Ganso e Cléber Santana.

Todos sabemos que Ganso é o mais cotado para vestir a camisa 10 da Seleção Brasileira na Copa. O rapaz teve o privilégio de ser usado como desculpa pelo técnico Mano Menezes para as más atuações da Seleção antes da Copa América: “Falta o Ganso”, repetia Mano, dando ao jovem jogador santista um status de Didi.

Por outro Aldo, Cléber Santana, que o santista sabe que é muito bom, estava em baixa. Não brilhou no São Paulo e não se destacava no Atlético até o golaço que fez ontem, driblando quatro santistas e marcando um gol de redenção. Enquanto isso, o que fez Ganso, o seu antípoda do Santos? Nada, ou pouco mais do que nada. Sim, o gramado atrapalhou o seu toque refinado. Mas, quando não dá para jogar bonito, o jogador determinado joga pela vitória.

Minha invencibilidade do campinho do Diamante

Adoro o jogo ofensivo, mas tenho de confessar: por ser muito temerário, não era o meu preferido nos “treininhos” lá no campo do Diamante de Cidade Dutra (sim, chamávamos de “treininho” e não de pelada. Como se estivéssemos nos preparando para algo maior, que veio só para poucos).

Como gostava de desafios, se houvesse um número ímpar de moleques, fazia questão de que o adversário jogasse com um a mais. E como eu é que tirava par ou ímpar e escolhia meus companheiros de time, não ia só pelos mais habilidosos, mas pelos que também gostavam de marcar, que não temiam um jogo mais peleado, que se entregavam à partida de corpo e alma.

Perdida a bola, todo mundo tinha de marcar. Ai daquele que se atrevesse a ficar parado lá na frente, sem função. Tínhamos prazer de se entregar à luta pela bola. E jamais desistir. Isso sempre dava resultados.

Uma vez jogávamos contra o time do amigo Juarez, que já estava treinando no Juventus. O jogo tinha virado a quatro e terminava a oito. O placar era um nervoso 7 a 7. Com a tranqüilidade dos profissionais, Juarez veio saracoteando de sua defesa, cheio de pose. Dei-lhe caça com ferocidade, roubei-lhe a bola e fulminei o goleiro, que até se agachou para evitar a bolada na cara.

Outro dia enfrentamos um time de três irmãos muito habilidosos. Gostavam de dar canetas (que para nós era bola “no meio das pernas”), chapéus… Confesso que levei um. Mas, não havia problema. Nada nos tirava do objetivo de roubar a bola e partir com velocidade para o ataque.

Desde aquele tempo constatei que jogadores que querem só atacar não tem o mesmo ânimo para defender. Perdiam a bola e ficavam parados, sem ânimo para correr atrás de nós. Como resultado, lembro-me bem, neste jogo os irmãos habilidosos perderam de 3 a 0, apesar de todas as micagens.

Enfim, ficamos um ano sem perder no campinho do Diamante. Sempre defendendo primeiro, para depois atacar. Isso me remete a uma frase de William T. Tilden, o grande campeão do tênis.

O conselho do tenista Bill Tilden trazido ao futebol

Campeoníssimo nos longínquos anos 20 e 30 do século passado, William T. Tilden, ou “Bill Tilden”, fez um dos primeiros livros importantes sobre os aspectos tático e psicológico do tênis. Sob o título “Tênis, como jogá-lo melhor”, que li e reli inúmeras vezes, ele diz: “Quem vai à rede ganha aplausos, quem fica no fundo, ganha o jogo”.

Ele queria dizer que o jogador que vai à rede proporciona jogos mais emocionantes, mais vistosos, porém o que fica no fundo da quadra, tem maiores possibilidades de ficar com a vitória. O jogo de rede chega a ser temerário. Com exceção de John McEnroe e, talvez de Stefan Edberg e Boris Becker, não conheço outro tenista dos anos 80 para cá que tenha liderado o ranking jogando na rede.

No futebol, é a mesma coisa. O time ofensivo proporciona espetáculos mesmo quando perde – os dois últimos jogos do Santos provaram isso. Porém, a possibilidade de ser surpreendido, aumenta. Como o São Paulo e o Internacional ganharam o Mundial da Fifa? Jogando na mais para e descarada retranca. Pois é…

Se for possível manter-se no ataque a maior parte do tempo e ainda ganhar os jogos, excelente. Mas isso depende de um elenco extraordinário e de jogadores que, além de tecnicamente superiores, tenham grande consciência coletiva. Vi essas qualidades no Santos dos anos 60, no São Paulo de Telê e no Palmeiras de Luxemburgo em 1996.

Mas, se não há o comprometimento de todos os jogadores de impedir a armação de jogadas do adversário desde o nascedouro, o dique se desmorona e a defesa paga o pato. Porque não basta escalar os melhores jogadores. É preciso que estes se comprometam de pagar o preço exigido para se ter um time que afoga o inimigo em seu campo.

As soluções para o Santos

Uma coisa é certa: não dá para continuar a fazer jogos memoráveis e perde-los, pois a classificação ainda é medida por pontos. E a realidade é que, apesar de ter feito duas partidas emocionantes, com muitos lances de beleza, o Santos perdeu seus dois últimos compromissos e hoje ocupa a zona de rebaixamento.

A melhor solução para o time não está no técnico, e sim nos jogadores. Se Ibson e Elano marcarem melhor, se Ganso ao menos cercar os adversários no meio-campo, assim como Neymar e Borges lá na frente, a bola chegará menos limpa para o ataque adversário e a defesa santista não terá tantas dificuldades como nos dois últimos jogos, em que sofreu a média de quatro gols por partida.

Se não houver melhoras, Adriano voltará para o meio, no lugar de Elano. Todos sabemos que Elano tem um potencial técnico tremendamente superior a Adriano, mas irá para o banco por sua própria culpa: por não ser suficientemente humilde e inteligente para entender em que o time precisa dele.

Outra solução seria adotar o sistema com três zagueiros. Ao menos esta diminuiria o risco de se tomar gols em bolas altas na área, o que voltou a ser um martírio para os santistas. Com a trinca de zagueiros, a volta de Danilo à direita e Léo à esquerda, o sistema defensiva seria novamente forte. Mas isso implicaria a saída de um jogador de meio.

Como Neymar e Borges são insubstituíveis lá na frente, e como Arouca é o melhor volante santista, Elano e Ibson iriam para o banco e o time ficaria com Rafael, Danilo, um zagueiro (Bruno Aguiar, Bruno Rodrigo ou Vinícius Simon), Edu Dracena, Durval e Léo; Arouca, Ibson (ou Elano) e Paulo Henrique Ganso; Neymar e Borges.

Para mim, entretanto, adotar três zagueiros significa diminuir as opções ofensivas de um time. O ideal é que Ibson e Elano se decidam por ajudar mais Arouca na cobertura da área e das laterais. Se não agüentarem o tempo todo, que saiam no segundo tempo, mas que o time não perca sua característica.

Bem, escrevi demais. Mas acho que o momento exige. O Santos vive uma fase de transição e ela deve ser feita com calma e sabedoria, ou o sucesso do primeiro semestre irá para o ralo.

E você, que sugestão dá a Muricy para manter o Santos competitivo?