Este é o convite para você ir ao lançamento do Dossiê, dia 26, no Museu do Futebol. O coquetel começará às 19 horas, mas eu e o Peres receberemos os convidados a partir das 16 horas.

Prepare-se, este post é longo. Mas o assunto é relevante. Portanto, se não tiver tempo de lê-lo de uma vez, salve entre seus documentos. Ele fala de um trabalho sobre a Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959 produzido por dois graduandos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), orientados pelo professor doutor Marco Antonio Bettine de Almeida.

Os graduandos – Jéssica Garcia Takahashi e Victor Hugo Moreira Milesi – analisam a Unificação por intermédio do método weberiano, de Max Weber (Maximilian Carl Emil Weber), intelectual alemão falecido em 1920, considerado um dos fundadores do estudo moderno da Sociologia, além de ter influenciado a Economia, a Filosofia, o Direito, a Ciência Política e a Administração.

Considero este trabalho da Jéssica Takahashi e do Victor Hugo Milesi de extrema importância porque é científico, isento da paixão que assola a maioria dos profissionais do jornalismo esportivo. Analisa a Unificação dos Títulos Brasileiros com uma metodologia consagrada, criada pelo genial Max Weber.

Lembro-me que minha ilusão ao fazer a pesquisa e redigir o Dossiê era de que o assunto fosse analisado com a devida seriedade pela imprensa. Eu e o parceiro José Carlos Peres imaginamos que seriam comuns trabalhos como este dos graduandos Jéssica e Victor Hugo. Mas, qual. Levou-se para o lado das paixões, dos antagonismos, dos clubismos. Sem conhecerem o Dossiê ou analisarem em profundidade os fatos e argumentos levantados, alguns tentaram, com apenas uma frase irônica, destruir um trabalho de longos anos de exaustiva pesquisa.

Restou a esperança de que o meio acadêmico tratasse o assunto com o respeito que ele merece. Afinal de contas, não se poderia menosprezar os 12 anos de campeonatos nacionais que compõem o capítulo mais belo e arrebatador da história do futebol brasileiro. Finalmente, aqui está um trabalho – publicado na edição 156, de agosto de 2011, da revista EFDeportes, de Buenos Aires, Argentina – que analisa a questão de todos os pontos de vista e que adota uma metodologia consagrada, o método weberiano, para julgar o seu mérito.

A análise da Unificação dos Títulos Brasileiros segundo o Método Weberiano

Por Jéssica Garcia Takahashi e Victor Hugo Moreira Milesi

Resumo

Este trabalho trata sobre a unificação de títulos nacionais de futebol de um período entre 1959 e 1970 com um período pós-71. Tal unificação gera polêmica por todo país, surgindo conflitos e divergências de valores e opiniões. Sendo assim, partiu-se da hipótese de que, se houvesse um tipo ideal de campeonato brasileiro, onde a partir de um fim objetivo para o mesmo, os torneios pré-71 tivessem razões objetivas para serem considerados campeonatos brasileiros, poder-se-ia eliminar todos os conflitos e polêmicas gerados, muitas vezes, sobre má informação sobre o fenômeno. Com isso, o presente artigo teve como objetivo propor uma análise de características comuns a um campeonato brasileiro através do método weberiano que parte do conceito de tipos ideais, podendo, a partir disso, identificar argumentos que comprovem a oficialidade e relevância dos torneios pré-71. Como método de estudo, foi feita uma pesquisa bibliográfica através de entrevistas, artigos, documentos e livros com intuito de estudar todo o processo social, político e econômico relacionado ao fenômeno. Observou-se no estudo que definir um campeão brasileiro e promover a ele a classificação para a Taça Libertadores da América são os 2 fins objetivos pelos quais houve a criação dos campeonatos nacionais, sejam pré ou pós-71. Assim, definiu-se o pedido de unificação dos títulos como plenamente legítimo, acreditando-se, portanto, que tenha sido importante para amenizar os conflitos ideais existentes, informando as pessoas para que criem opinião concretizada em fatos tangíveis.

Introdução

Há uma discussão muito polêmica atualmente devido à reivindicação de 6 grandes clubes de futebol do Brasil para a validação das competições disputadas entre 1959 e 1970, havendo portanto uma unificação dos títulos nacionais deste período com os posteriores, a partir de 1971.

1959 foi um ano expressivo para o futebol. Ali, o Brasil já havia conquistado um título mundial. Neste mesmo ano, surge a primeira ponte aérea Rio-São Paulo. Sendo assim, a integração nacional passava também por uma integração no futebol. Surge neste ano o primeiro torneio inter-regional do país, a Taça Brasil, vencido pelo Esporte Clube Bahia. Conquistaram o título, além do Bahia, a Sociedade Esportiva Palmeiras (duas vezes – 1960 e 1967), o Santos Futebol Clube (cinco vezes – 1961, 1962, 1963, 1964, 1965), o Cruzeiro Esporte Clube (1966) e o Botafogo de Futebol e Regatas, o último campeão em 1968. Entre 1967 e 1970, outro campeonato movimentou os grandes clubes do país, o Roberto Gomes Pedrosa, ou Robertão (chamado também de Taça de Prata). Acontecimentos históricos ocorreram neste torneio, como o milésimo gol de Pelé em 1969. O Palmeiras (duas vezes – 1967 e 1969), o Santos (1968) e o Fluminense Football Club (1970) foram os vencedores. As manchetes dos jornais da época tratavam os ganhadores da Taça Brasil e da Taça de Prata como verdadeiros campeões brasileiros (CUNHA (não publicado)). Mas em 1971, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), usando o mesmo formato de disputa do ano anterior, organizou o que chamou de Campeonato Brasileiro e criou uma 2ª divisão. Até 2003, quando começaria a era dos pontos corridos, o Brasileirão nunca havia repetido a forma de disputa e foi chamado de Taça de Ouro, Copa Brasil, Copa União, Copa João Havelange, Campeonato Nacional de Clubes, Campeonato Brasileiro.

O fato é que, até o ano de 2010, os títulos conquistados nos torneios disputados antes de 1971 não eram reconhecidos como campeonatos brasileiros. Neste mesmo ano, no dia 22 de dezembro, a Confederação Brasileira de Futebol (antiga CBD) anunciou oficialmente a unificação dos títulos da Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata com o Campeonato Brasileiro pós-71, após criteriosa análise de um dossiê elaborado pelo pesquisador e historiador Odir Cunha.

Tal medida gera polêmica de norte a sul do país, surgindo conflitos entre torcedores e até dirigentes de clubes beneficiados ou não pela unificação. Surgem conflitos e divergência de valores e opiniões. Torcedores dos times beneficiados são a favor, logicamente. Torcedores rivais, contra. Questionamentos, argumentos e até precedentes de supostos torneios análogos anteriores surgem como reivindicações. Mas quem estaria certo? Quais argumentos seriam válidos?

Este projeto partiu da hipótese de que, se houvesse um tipo ideal de campeonato brasileiro, onde a partir de um fim objetivo para o mesmo, a Taça Brasil e a Taça de Prata tivessem razões objetivas para serem considerados campeonatos brasileiros, poder-se-ia eliminar todos os conflitos e polêmicas gerados, muitas vezes, sobre má informação sobre o fenômeno. Muito torcedor, principalmente, possui opinião formada sobre determinado fenômeno sem estar informado. Infelizmente, não só o torcedor possui esta característica, mas até dirigentes dentro do futebol. Existe um anacronismo na sociedade. Olha-se o passado com os olhos do presente. “Não se pode pegar uma competição atual e compará-la com outra realizada há meio século antes, com condições sociais, políticas e financeiras totalmente diferentes.” (CUNHA, 2010a) Havia uma maior dificuldade de transporte antigamente, em pensar-se que a primeira ponte aérea só acontece no final da década de 50. Os clubes eram pobres, pois não havia toda uma política capitalista focada no futebol como ocorre hoje. Seria improvável uma disputa de pontos corridos com 38 rodadas a nível nacional. Portanto, argumentos válidos devem ser justificados através de seu fim. A oficialidade e relevância dos torneios Taça Brasil e Taça de Prata devem ser dadas de acordo com sua finalidade, estando dentro de um “padrão de campeonato brasileiro” idealizado por uma referência metodológica usada para realização de análise de dados, o tipo ideal de Weber (WEBER, 1994).

O problema é conhecer, entender e interpretar o processo social, político e econômico que envolveu o futebol brasileiro entre as décadas de 1950, 1960 e 1970, bem como as circunstâncias e possibilidades da época, trazendo comparações entre os torneios disputados na época e os atuais.

A relevância deste trabalho se dá pelo fato de se conhecer os aspectos da unificação dos títulos brasileiros desde 1959, pois a partir do momento que se encontra um tipo ideal de campeonato brasileiro como modelo padrão e tais campeonatos tenham requisitos relevantes para seus reconhecimentos, obtém-se assim um argumento válido para o fenômeno estudado, sendo importante para amenizar os conflitos ideais existentes.

Pouco se estuda o futebol, em específico o campeonato brasileiro, sob a ótica das ciências sociais, sendo este trabalho inovador ao propor uma análise através do método weberiano, o tipo ideal.

Sendo assim, o presente trabalho procura como objetivos:

Conhecer, entender e interpretar o processo social, político e econômico que envolveu o futebol brasileiro nas décadas de 1950, 1960 e 1970;

Propor uma análise de características comuns a um campeonato brasileiro através do método weberiano que parte do conceito de tipos ideais;

Identificar e debater argumentos e provas que comprovem a oficialidade e relevância dos torneios pré-71.

Método de pesquisa

Inicialmente, foi feita uma pesquisa bibliográfica através de entrevistas, artigos, documentos e livros, com intuito de estudar todo o processo de unificação dos torneios, bem como todo processo social, político e econômico relacionado ao fenômeno.

Posteriormente, partindo do conceito que o tipo ideal entende um fenômeno a partir de suas características gerais e mais salientes, foi realizada uma análise de características comuns dentre todos os campeonatos envolvidos na discussão, procurando compreender todo o desenvolvimento como sendo construído racionalmente segundo fins objetivos (WEBER, 1994), retirando as tantas variedades que acontecem na realidade. Sendo assim, o tipo ideal foi o campeonato brasileiro de futebol.

Apresentação dos dados – contexto histórico

Até o ano de 1959, o único torneio a nível nacional de futebol era o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, onde os melhores jogadores dos clubes eram escalados para representar seus respectivos estados. Portanto, até ali, não havia um clube campeão nacional. Neste contexto, João Havelange, presidente da CBD entre o período de 1956 e 1974, é informado de que estaria se organizando para acontecer no ano seguinte, 1960, uma competição sul-americana que reuniria representantes campeões nacionais do continente. O campeão deste torneio, a Taça Libertadores da América, disputaria a Copa Intercontinental com um campeão europeu (vencedor da Taça da Europa). Surgia assim a primeira edição da Taça Brasil em 1959, criada por João Havelange para definir um campeão nacional e dar a este o direito de disputar a Taça Libertadores da América do ano seguinte. O modelo de disputa pegava como molde a Taça da Europa. Nela, apenas participavam os campeões nacionais, além do campeão de sua última edição. Homologamente, no torneio brasileiro, participavam os campeões estaduais, sendo os estados brasileiros como os países europeus.

A disputa era pelo sistema eliminatório e havia ainda uma característica do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais: os times do eixo Rio-São Paulo entravam diretamente na semifinal. Isso se dava pelo fato desses dois estados concentrarem os melhores jogadores e clubes do país, tornando-se algo merecedor para as circunstâncias da época.

Ninguém discutia que São Paulo e Rio de Janeiro tinham as equipes mais fortes, os melhores jogadores. E, como acontece hoje no Mundial da FIFA – onde os representantes da América e da Europa já entram nas semifinais -, neste período, os primórdios das competições nacionais (de clube), acontecia isso. O Palmeiras, para chegar à semifinal da Taça Brasil de 1960, por exemplo, participou de um Campeonato Paulista, no qual fez 41 jogos, sendo os 3 últimos contra o Santos de Pelé, em uma super-decisão. Então, foi uma eliminatória dificílima, como acontecia no Rio de Janeiro, para que ele tivesse este privilégio, digamos assim, de participar da Taça Brasil (CUNHA, 2010a).

Deve-se destacar que, no período de existência da Taça Brasil e da Taça de Prata, participavam destes torneios, principalmente no eixo Rio-São Paulo, jogadores campeões das Copas de 1958, 1962 e 1970 pela seleção brasileira. Ou seja, foi uma Era Áurea do futebol do país que, muito provavelmente, não voltará a ocorrer, visto que, hoje, os melhores jogadores vão ainda jovens para o exterior por fins lucrativos (CUNHA, (não publicado)).

O fato de existirem poucos jogos a serem disputados por paulistas e cariocas para se chegar ao título gera polêmica e discussões atualmente com a unificação. Há de se entender que é um respeito às situações e condições da época. Por exemplo, em 1959, foi o primeiro ano da ponte aérea Rio-São Paulo. A possibilidade de uma disputa por pontos corridos (como o formato atual) era praticamente impossível em uma época que não existia sequer um transporte aéreo decente para a situação. Outro ponto importante para o entendimento do caso é o fator financeiro. Economicamente, o futebol ainda vivia tempos precários, apesar do profissionalismo desde meados da década de 30 (CARRAVETTA, 2006). Não havia uma política capitalista no meio futebolístico. O marketing ainda não enxergava o potencial gerador de lucro que este esporte poderia proporcionar, visto que, segundo MARQUES et al. (2008), o esporte contemporâneo surge como fruto de transformações relativas à comercialização da cultura e lazer no período pós-Guerra Fria, que coloca-se como uma versão atual do esporte, apresentando novas características como a heterogeneidade de práticas e comercialização exacerbada. Assim, a possibilidade dos clubes estarem viajando longas distâncias em um curto período de tempo não passava de uma utopia para as décadas de 50 e 60.

No dossiê elaborado pelo historiador e jornalista Odir Cunha (não publicado), é possível encontrar alguns relatos históricos que fortalecem a idéia de que não é necessário ter campeonatos longos para se ter um campeão, respeitando condições sócio-econômicas de um determinado período no tempo. Em um momento, Odir usa como referência a Itália, um país desenvolvido de cultura rica no futebol durante a sua longa história. O Genoa Cricket and Football Club venceu nove vezes o campeonato italiano, sendo seu último título em 1924, antes do profissionalismo do futebol no país. Hoje, o clube se encontra em 4º lugar no ranking de campeões italianos. Nenhum clube desmereceu o feito conquistado, apesar das condições que a época proporcionava. Seu primeiro título, para se ter uma idéia, foi em 1898, onde disputara apenas duas partidas (contra Ginnastica Torino e Internazionale Torino) ao longo de um dia, sendo os jogos em um campo de padrão irregular em que a prática se dava através de botas. Todavia, há um respeito cultural da sociedade italiana ao contexto da época.

Como discutir a 1ª Taça Brasil, criada no ano que surgiu a ponte aérea, sendo ela uma competição oficial e abrangente? O termo abrangência talvez seja a melhor forma de demonstração da ética do campeonato, visto que de 20 estados brasileiros (em 1959), 16 tinham seus respectivos campeões disputando o torneio nacional. Ao comparar com a edição do ano de 2011 do campeonato brasileiro, vê-se neste apenas 9 estados representados, sendo 27 o número de estados do país. Ou seja, a 1ª edição da Taça Brasil continha 80% dos estados na disputa, contra 30% em 2011. (RSSSF)

Das muitas críticas que nós vimos, citaram ‘como é que pode o Siderúrgica representar Minas Gerais?’ Ora! O Siderúrgica superou o Cruzeiro, o Atlético e o América. E nada mais justo do que o Siderúrgica representar o estado. Isso provava a lisura da competição que, na Taça Brasil, foi levada ao extremo. Nenhum time que não foi campeão estadual participou da Taça Brasil, a não ser que o campeão estadual tivesse sido campeão da Taça Brasil, então, no ano seguinte, ele dava vaga para o vice daquele estado (CUNHA, 2010a).

Em 1966, o Cruzeiro aparece como campeão nacional. Isso foi um marco para a história do futebol brasileiro, uma vez que se abriram os olhos para potenciais atletas de outros estados, minimizando a hegemonia do eixo Rio-São Paulo. Assim, surge à idéia, concretizada em 1967 pelas federações paulista e carioca de futebol (RSSSF), de ampliar o torneio Rio-São Paulo (chamado desde 1954 de Roberto Gomes Pedrosa), com a entrada de grandes clubes dos estados de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, ficando conhecido como o “Robertão”.

Este torneio viria a ser o principal nacional, uma vez que trazia em suas edições só times de elite do futebol brasileiro, onde era possível encontrar todos os jogadores campeões da Copa de 70, no México. Por quatro anos (1967, 1968, 1969 e 1970), fora possível ver diversos feitos memoráveis, como o milésimo gol de Pelé, que atraía atenção da mídia mundial no jogo contra o Clube de Regatas Vasco da Gama, em 1969, no Maracanã.

Entretanto, por se tratar de um período de transição, onde uma fórmula de disputa estava se exaurindo (Taça Brasil) para a entrada da nova competição, por dois anos (1967 e 1968), o Brasil assistia a dois campeonatos nacionais oficiais, tendo portanto 2 campeões em cada ano. Com isso, Odir Cunha, em seu dossiê, preferiu que as duas competições fossem consideradas campeonatos nacionais, alegando não poder punir o campeão de uma e privilegiar o de outra.

O Palmeiras consegue os 2 títulos de 1967. Em uma matéria do Jornal da Gazeta (2010b), uma entrevista é concedida ao jornalista Marcelo Belpiede por Odir Cunha, onde valida os 2 títulos e afirma que a Taça Brasil classificava para a Taça Libertadores da América, mas o Roberto Gomes Pedrosa (Taça de Prata) tinha um nível melhor.

É estranho? Mas há precedentes. O campeonato carioca teve o Flamengo como campeão duas vezes no ano de 1979. Vários países da América possuem o torneio Apertura e Clausura, onde, em 1997, o River Plate foi duas vezes campeão argentino; o Colo-Colo do Chile, duas vezes em 2006 e 2007. No Mundial Interclubes, tivemos isso, em 2000. Ao mesmo tempo em que o Corinthians era campeão da FIFA, o Boca Juniors foi campeão pela fórmula antiga. E os dois são considerados campeões. Se você tirasse o título de um ou de outro, seria injusto (CUNHA, 2010b).

Para prosseguir na linha do tempo, deve-se lembrar de forma sucinta o cenário político em que o Brasil passava.

Após o Golpe Militar de 1964, a Ditadura sustentou-se com o partido Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o qual influenciava a população por diversos meios de comunicação, buscando apoio à soberania nacional e à integração nacional. “A idéia dos militares era fazer do Brasil uma grande nação, diminuir as distâncias regionais no âmbito social, econômico e espacial (…). Os militares sabiam que os meios de comunicação eram importantes para a formação e coesão social (…)” (ALMEIDA e GUTIERREZ, 2011, p. 146). Das diversas formas de integração, pode-se citar o Projeto Rondon, de 1967 – no qual objetivava a promoção do contato de estudantes universitários com comunidades isoladas do interior do Brasil – e a Rodovia Transamazônica, inaugurada em 1972 – projetada para integração da região norte com o resto do país. Mas o futebol – esporte tão difundido e que mexe com a paixão de milhões de pessoas – foi a grande sacada publicitária, usado pelo governo a partir do êxito da Copa do Mundo de 70 como uma das melhores ferramentas de integração nacional.

Assim, em 1971, a CBD anuncia a transformação da Taça de Prata em Campeonato Nacional de Clubes (o atual Campeonato Brasileiro), com grande influência política. Seguindo o slogan “Brasil, um país que vai para frente”, a história do futebol a partir daquele momento era deixada para trás. Este novo torneio viera com a proposta de dar oportunidades diretas para times do país inteiro, sem que tivessem de passar por campeonatos regionais. A fórmula de disputa seguia a mesma da Taça de Prata de 1970, com a criação de uma 2ª divisão.

Ali, nascia uma nova era do futebol do país, marcada ao longo da história por diversos problemas organizacionais, divergências e controvérsias (CUNHA, 2010a). Tudo para girar a favor do sistema e trazer mais adeptos ao mesmo por todo território.

Para se ter uma idéia, em 1979, o campeonato sofreu um inchaço de clubes promovido pelo governo, chegando ao número de 94 participantes. Um fato que destrói a ética do torneio, uma vez que a maioria dos clubes era convidada.

Cria-se, naquele contexto, o bordão “onde a ARENA vai mal, mais um no Nacional. Onde a ARENA vai bem, outro time também.” Odir Cunha destaca na entrevista concedida ao jornalista Vitorino Chermont (2010a): “Teve time, por exemplo, o CEUB, em 1973, que foi criado em Brasília com veteranos porque os parlamentares de Brasília gostariam de ver seus clubes de coração jogando lá. Então, criaram o clube, o colocaram no Nacional e o Vasco, Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Santos iam jogar lá para que os parlamentares pudessem assistir.”

Assim se deu, portanto, o processo social, político e econômico que envolveu o futebol brasileiro nas décadas de 50, 60 e 70, havendo nele 2 extremos: um período de méritos e conquistas, marcado pela fase áurea do futebol brasileiro; e outro marcado pela influência política, do qual fora exposto aqui alguns episódios desonestos.

Discussão dos dados

Partindo do conceito que o tipo ideal entende um fenômeno a partir de suas características gerais e mais salientes, é possível fazer uma análise de algumas propriedades que fazem de uma competição de futebol digna de definir o campeão brasileiro. Características estas existentes entre os campeonatos nacionais disputados desde o final da década de 50, passando pelas campanhas publicitárias em massa na década de 70 até os dias de hoje.

Segundo Max Weber, sua metodologia de estudo sobre determinado fenômeno social deve ser usada para ajudar na compreensão de tal, separando as diversas variedades que ocorrem ao longo do processo. No caso deste estudo, deve-se, portanto, analisar o tipo ideal de campeonato brasileiro de futebol com ênfase, principalmente, nos fins objetivos pelos quais tal competição fora criada, não importando número de participantes, nome, fórmula de disputa ou nível técnico.

As particularidades encontradas nos campeonatos pré e pós-71 serão detalhadas a seguir.

Primeiramente, a pesquisa mostra que todas as competições foram criadas com a finalidade de definir um campeão brasileiro, sendo todas criadas pela entidade máxima do futebol, no caso, a CBD, hoje Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que assume a história e as conquistas da CBD. Então, houve um ponto importante que iguala as competições, a FINALIDADE.

Um segundo ponto a ser analisado se dá à classificação para a Taça Libertadores da América. A grande finalidade/intuito da criação do 1º torneio nacional de clubes era exatamente este, o mesmo até hoje. Então, além de eleger-se um campeão nacional, havia a CLASSIFICAÇÃO PARA O TORNEIO SUL-AMERICANO.

Estas são as 2 principais finalidades encontradas para a criação dos campeonatos nacionais, sejam eles de nomes ou fórmulas de disputa diferentes.

Entretanto, como discussão dos dados, pode-se levantar outras características percebidas com o estudo.

Uma característica importante para um campeonato a nível nacional encontrada na Taça Brasil é que houve grande representatividade, visto que, já na sua 1ª edição, tinham representantes de 80% dos estados brasileiros na época (haviam 20 estados e 16 deles foram representados). Então, houve REPRESENTATIVIDADE.

Foram usados critérios claros de classificação. Era preciso ser campeão estadual para participar da Taça Brasil. Ou seja, todos os times que disputaram os estaduais se candidatavam à Taça Brasil, como hoje ocorre, por exemplo, com a Taça Libertadores da América. Se alguns dos melhores times do Brasil não participam da Libertadores, a culpa não é da competição, e sim dos times que não conseguem se classificar. Logo, havia CLASSIFICAÇÃO POR MÉRITO E NÃO POR CONVITE

Havia ainda, como prêmio, além da classificação para a Libertadores, o reconhecimento nacional, tido pela imprensa, torcedores, dirigentes e jogadores. Havia o conceito de que aquele time era o campeão do Brasil naquele ano, segundo relata Odir Cunha em seu dossiê, o qual contém diversas manchetes de jornais publicados na época, que deixava claro o sentimento nacional (Algumas matérias…). Ou seja, não era só um reconhecimento oficial, mas também público. Tinha, portanto, RECONHECIMENTO.

Algumas matérias e manchetes publicadas nas décadas de 1950 e 1960

(AQUI O TRABALHO REPRODUZ VÁRIAS MATÉRIAS DA IMPRENSA DA ÉPOCA TRATANDO OS VENCEDORES DA TAÇA BRASIL E DO TORNEIO ROBERTO GOMES PEDROSA COMO CAMPEÕES BRASILEIROS)

Fonte: CUNHA, O. Dossiê: unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959. São Paulo, 350 p. Trabalho não publicado.

Esta metodologia de estudo foi muito importante para o presente trabalho, uma vez que houve um respeito a todas as condições sociais, econômicas e políticas proporcionadas ao longo da história deste esporte.

Consideração final

Considerando o tipo ideal de campeonato brasileiro de futebol, ao qual definir um campeão brasileiro e promover a ele a classificação para a Taça Libertadores da América são os 2 fins objetivos pelos quais houve sua criação; e ainda, por respeito a situações e condições sociais, econômicas e políticas de determinadas épocas, este trabalho define o pedido de unificação dos títulos pré e pós-71 como plenamente legítimo, sendo uma das coisas mais justas feitas no futebol brasileiro. A CBF, no caso, não está dando nada a ninguém, porque os clubes conquistaram estes títulos em campo, na fase áurea do futebol do país, onde de 12 anos e 4 Copas do Mundo, o Brasil ganhou 3. Então, realmente tínhamos aqui os melhores jogadores do mundo e foram eles os responsáveis por estas conquistas.

A partir do conhecimento dos aspectos da unificação e do tipo ideal de Max Weber, este trabalho obteve argumento válido para o fenômeno estudado. Acredita-se, portanto, que tenha sido importante para amenizar os conflitos ideais existentes, informando as pessoas para que criem uma opinião concretizada em fatos tangíveis.

Deve-se, todavia, entender que o tipo ideal estabelece uma relação de forma racional na procura do entendimento de um fenômeno, mas que não corresponde à realidade. Não existe um tipo ideal real na sociedade. A oficialidade e relevância dos torneios Taça Brasil e Taça de Prata se dão de acordo com a finalidade pela qual foram criados. Mostrou-se no trabalho que não existe um tipo ideal de campeonato brasileiro em relação a fórmulas de disputas, por exemplo. Atualmente, o Campeonato Brasileiro de Futebol é disputado pelo sistema de pontos corridos, com 20 times e 2 turnos ao longo da competição. Porém, o que parece ser a melhor forma de disputa hoje, pode não ser amanhã. Pode ser que, daqui 30 anos, esta fórmula seja tida como algo fracassado, não justo. Deve-se entender, entretanto, que tudo depende da tendência da época, seja no futebol, seja em qualquer fenômeno de grande difusão social.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, M. A. B.; GUTIERREZ, G. L. Análise do desenvolvimento das práticas urbanas de lazer relacionadas à produção cultural no período nacional-desenvolvimentista à globalização. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 25, p. 139-154, 2011.

BELPIEDE, M. ‘Loucura’ por futebol faz Odir Cunha insistir pela unificação de títulos. Gazeta Esportiva, São Paulo, 21 de dezembro de 2010b. Disponível em: http://www.gazetaesportiva.net/noticia/2010/12/bastidores/por-futebol-faz-odir-cunha-insistir-pela-unificacao-de-titulos.html, Acesso em: 5 jun. 2011.

CARRAVETTA, E. S. Modernização da gestão no futebol brasileiro: perspectivas para a qualificação do rendimento competitivo. 1. Ed. Porto Alegre: AGE, 2006. 206 p.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL. Resolução n. 03/2010, de 20 de dez. de 2010. Disponível em: http://www.cbf.com.br/media, Acesso em: 10 abr. 2011.

CUNHA, O. Unificação dos títulos. São Paulo, SPORTV, 22 dez. 2010a. Entrevista a Vitorino Chermont.

CUNHA, O. Dossiê: unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959. São Paulo, 350 p. Trabalho não publicado.

GIANFRANCO, B. Ponte aérea: Uma grande idéia brasileira. Revista Flap. Disponível em: http://www.revistaflap.com.br/pdf/Ponte_Aerea.pdf, Acesso em: 10 abr. 2011.

Le formazioni dei campioni d’Italia dal 1898 al 1915. (Itália) Disponível em: http://www.batsweb.org/sport/Calcio/Campionato/form1898.htm, Acesso em 5 jun. 2011.

MARQUES, R. F. R.; GUTIERREZ, G. L.; ALMEIDA, M. A. B. de. A transição do esporte moderno para o esporte contemporâneo: tendência de mercantilização a partir do final da Guerra Fria. 1º encontro da ALASDE. Curitiba, UFPR, 2008.

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WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa; revisão técnica de Gabriel Cohn, 3ª edição, Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1994.

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