Por Marcelo Da Viá

Desde ontem, o ex-craque Tostão, bastante conhecido também por suas boas colunas no caderno de esportes da Folha de S. Paulo, é mais um a dizer, com todas as letras, “Vai, Neymar, vai jogar no exterior, que é melhor pra você!”. Claro que é um direito do colunista famoso expressar suas idéias, ele escreve lá para isso. Mas me permito discordar. Entre outras idéias, para mim, tortas, Tostão afirma, textualmente, que Neymar “teria, no Real ou no Barcelona, mais chances de evoluir na parte técnica”. Mais uma pérola: “Robinho não fracassou na Europa. Ele apenas não é espetacular como pensávamos”.

Começando pelo fim, sobre Robinho. Eu acho exatamente o contrário; que Robinho não chegou ao nível que poderia ter chegado justamente por ter saído do Brasil precocemente. Mais. Ele piorou – estava atuando como um verdadeiro Pelezinho no meio de 2005, e teria tudo para dar o título da Libertadores daquele ano para o Santos, caso o “gênio” Carlos Alberto Parreira, bom técnico, não tivesse impedido isso, ao chamá-lo para a reserva da Seleção, na inútil Copa das Confederações da Alemanha. O São Paulo, que perdeu Cicinho pelos mesmos motivos (mas não dá para comparar), deve muito de seu título a Parreira – o Santos teria sido possivelmente seu adversário na final (ou o Chivas, que também teve meio time convocado para o México, até o segundo goleiro, o que facilitou as coisas para o bom Atlético-PR, que não tinha nada com isso, assim como o São Paulo do ótimo Amoroso, diga-se).

Mas já me afastei do tema. Voltemos. Tostão acredita piamente que Neymar deve zarpar. Mas por quê? Ele não desenvolveu, mas certamente pensa que na Europa há um futebol mais competitivo, um verdadeiro who’s who que define quem de fato joga mais. Ele nunca atuou fora do Brasil, mas com certeza responderia na lata que, naquela época, o Brasil possuia os melhores times e jogadores. Será? Provavelmente, sim. Mas será que isso mudou tão drasticamente?

Não discordo que hoje Messi seja o melhor jogador do mundo. Na verdade, acho que ele já está entre os dez maiores de todos os tempos, e penso que o craque argentino pode evoluir a ponto de ultrapassar Maradona – muito dificilmente Pelé. Trata-se de uma grande notícia para os amantes do futebol, mas, infelizmente, isso virou um argumento definitivo para os que defendem que é na Europa que todos os bons jogadores e/ou craques devem jogar. Cristiano Ronaldo também é grande. Mas quem mais?? Por que Neymar deve sair do Brasil agora, aos 19 anos? Eu nem vou usar o argumento de que a Europa está falida, e o Brasil é a sede da próxima Copa. Porque não acho que a Europa esteja falida, nem que sediar uma Copa é garantia de prosperidade para o futebol do país-sede, mesmo sendo esse país o Brasil.

É que esse argumento de Tostão não se sustenta, não pára em pé. Os times europeus têm nos seus campeonatos nacionais o mesmo problema que os times mais ricos dos estados mais desenvolvidos no Brasil em relação a seus campeonatos estaduais – falta motivação, pela discrepância técnica entre alguns poucos times e os demais. Na Europa, há alguns seis ou sete super clubes, que gastam os tubos para montar muitas vezes times apenas medianos, apostando tudo na fase final da Champions League (porque a fase de grupos também é chata, previsível). Contratam bons e maus jogadores do mundo inteiro, alguns jovens candidatos a craque, para todas as posições, e às vezes até montam grandes times, como a Inter de Mourinho, mas a que preço? Não digo o financeiro, para o clube, mas o alto custo psicológico que cada craque-reserva paga por não vingar no time em que recebe uma fortuna de salário. São, na prática, jovens aposentados, milionários (Recoba, por exemplo?), mas possivelmente, pessoas tristes, frustradas.

Alguém aqui se lembrou do lateral-esquerdo Serginho, ex-Cruzeiro e São Paulo, que jogava só ocasionalmente no Milan, mesmo tendo futebol para brilhar? Óbvio que não evoluiu tudo o que podia. Com Neymar é diferente, se for, vai para ser titular, mas será que terá a mesma liberdade de que precisa para jogar seu futebol precioso?

Robinho, por exemplo, foi confinado na ponta esquerda do Real, nada a ver com o que o craque fazia naquele semestre mencionado de 2005, no Santos, já sem a companhia de Diego, o que lhe fez bem, aliás. E já que citei Diego, falemos um pouco dele. Para mim, um craque, podia ter sido um novo Dirceu Lopes, jogador que, mesmo não tendo brilhado na Seleção Brasileira, marcou época nos anos 1970, o grande meia-armador do Cruzeiro, do mesmo Tostão. Diego está milionário, não questiono isso, fez por merecer (ninguém foi obrigado pagar o que pagam para ele não jogar) mereceu, mas e quanto a seu futebol? Será que Tostão diria que ele não vingou porque, assim como Robinho, ele não é tudo isso? E quanto ao promissor Breno, um líbero incrível aos 18 anos no São Paulo de Muricy, que foi se perder na Alemanha (espero que se recupere 100%), ganhando os tubos para ficar no banco e se deprimir?

Acho absurda a tese de Tostão, porque para mim, obviamente, esses jogadores encabeçam um lista muito extensa de craques brasileiros que viajaram e pioraram, mas não porque lhes faltasse capacidade, mas, sim, pela falta de bons técnicos, bons jogadores para tabelar… Alguns eram de fato ruins, fracos. Não sou patriota, não é mesmo o caso, e, assim como Tostão, não penso que o Brasil sempre é favorito em Copas do Mundo – me irrito com o ufanismo nesta época, a ponto de torcer contra. Mas não gosto que atentem contra a lógica. O Brasil é um país-continente, referência no futebol, por isso, caso o país venha a crescer, não é utópico imaginar que os craques que surjam possam ficar, e até os de outros países serem contratados. Ainda não chegamos lá, mas há uma luz no fundo do túnel, aliás, ela já não está mais no fundo, é bem visível, ao menos para o limitado universo do futebol.

Neymar deve ficar no Santos, para o bem DELE, e de certo também para o futebol brasileiro. Pelo menos até a Copa de 2014, mas, por que não até se aposentar?

(Um detalhe: o jornalista Marcelo Da Viá é corintiano roxo. Seu filho, Gabriel, fez aniversário e exigiu um corte à la Neymar. Ah, e eu também acho que o Santos deve fazer uma oferta pelo costa-riqunho que é fã de Neymar. O cara tem faro de gol.)