Em primeiro lugar, deixo claro que gosto de Muricy Ramalho como técnico e quero que continue no Santos. Aviso isso logo de cara porque, no Brasil, se você faz críticas a alguém, acham que está querendo derruba-lo. Como não temos a tradição da democracia, mas do corporativismo, julgamos que crítica é coisa de inimigo, e que amigo só dá tapinha nas costas. Mas as críticas são as que mais contribuem para a evolução de um ser humano. Por isso as faço e sempre as farei.

Muricy tem sido o técnico mais vitorioso do futebol brasileiro, mas ainda tem muito que aprender, principalmente no trato com as pessoas. Quando desenvolver mais algumas propriedades inerentes aos seres humanos – como empatia, tolerância, amizade, compaixão e companheirismo –, crescerá também como profissional.

Digo isso porque o que aconteceu com Neymar em Minas Gerais também foi culpa dele, Muricy Ramalho, que não teve sensibilidade para perceber que o garoto está estressado, exausto, cansado de jogar, de carregar dois times nas costas (o Santos e a Seleção Brasileira), de levar pancada, de ser cobrado por ditadorezinhos como Galvão Bueno e sua trupe, de se pressionado para ir embora de sua pátria, de ser o maior ídolo do futebol brasileiro aos 19 anos.

Todas as reações de Neymar no jogo contra o Atlético Mineiro indicam estresse emocional. Depois de sofrer 12 faltas, ele reagiu, foi advertido e em seguida expulso (enquanto seus agressores, que fizeram rodízio para agredir um garoto franzino e muito melhor jogador do que eles, ficaram em campo). No vestiário, Neymar chorou, pediu desculpas a Muricy, aos seus companheiros, e na saída ainda pediu desculpas aos jornalistas. Ou seja, ele se descontrolou, fez algo que não queria e se arrependeu imediatamente. Só aí o menino já demonstra sua grandeza.

Quantos que o criticam, como se fossem donos da verdade, já pediram desculpas? Qual foi a única vez que Galvão Bueno e seus asseclas pediram desculpas pelas incontáveis bobagens que disseram e dizem ao longo de suas insuportáveis carreiras? Não me lembro de ter ouvido nenhuma retratação de suas bocas, enquanto Neymar, aos 19 anos, a galinha dos ovos de ouro do galinheiro que é o nosso futebol, já está farto de ser acusado e de pedir desculpas… Quanta hipocrisia desses deformadores de opinião. Quanta coragem para acusar um garoto de 19 anos, quanta covardia para admitir um erro!

Depois da viagem conturbada do México, não era preciso forçar a escalação de Neymar contra o Atlético. Muricy deveria ter tido a percepção de descansa-lo, de preservar o seu melhor jogador. O garoto já fez 59 jogos este ano e ainda faltam dois meses e meio para terminar a temporada.

Bem, o estresse de Neymar é uma, mas quais são as outras coisas que Muricy não vê e que têm atrapalhado o Santos neste Brasileiro? Vamos a elas:

O Santos não pode jogar sem meias

Talvez outros times consigam, mas o Santos não. O time joga tocando a bola, que sai da defesa e vai ao ataque de pé em pé. Este é o estilo ancestral do Santos, ganhando ou perdendo. Chutões para frente, de zagueiros fazendo a chamada ligação direta, não funcionam no Alvinegro Praiano. E não dá para fazer uma boa ligação entre defesa e ataque sem ao menos um bom meia.

Um time não pode ter tantos jogadores com problemas musculares

Paulo Henrique Ganso e Elano são os mais assíduos, mas Arouca e Léo também costumam passar um bom tempo cuidando de problemas musculares. Isso não é normal. Um time que pretende brigar por títulos não pode ficar tanto tempo sem quatro de seus melhores jogadores. Essa responsabilidade não é só da preparação física e do departamento médico, mas do técnico também. Ele precisa saber o que está acontecendo. Atletas não podem ter tantos problemas físicos seguidos.

Os companheiros não podem se omitir às agressões contra Neymar

Muricy reclama que os árbitros deixam Neymar apanhar o tempo todo, mas não dá ordens aos seus jogadores – ou ao menos ao capitão Edu Dracena – para pressionar o árbitro e os adversários sempre que o garoto é agredido. Bater com a certeza de que não será punido pela arbitragem e nem receberá o troco dos adversários é muito cômodo. Qualquer zagueiro adora uma situação assim. Nos tempos de Pelé, quem dava, levava. Muito zagueirão se deu mal com o Rei… Como Neymar não precisa e nem deve revidar, outros santistas têm de fazer o serviço sujo por ele. O ideal seria que o futebol fosse limpo, sem faltas. Mas já que não é assim, não é justo que só um jogador e um time sofram com a violência.

Durval e Edu Dracena é a dupla de zaga que sofre mais gols

Por incrível que pareça, a dupla de zaga titular do Santos é justamente aquela que sofre mais gols. Quando, no ano passado, entrava o Vinicius Simon, e quando, este ano, entra o Bruno Rodrigo, a defesa fica mais firme. Se fosse nos Estados Unidos, onde as estatísticas são levadas a sério, o técnico já tinha mexido nessa dupla. Mas Muricy finge que os números nada significam.

Um técnico tem de saber motivar o time nas horas difíceis

O técnico do Santos já disse que não gosta de discursos motivacionais. Concordo com ele em parte. Acho que este exagero de apelar para o lado sentimental dos atletas acaba gerando mais estresse. Porém, a falta de motivação também é um problema, principalmente quando o time já não tem possibilidades de chegar ao título. É preciso encarar cada partida com a devida seriedade, ou o Santos correrá, sim, o risco de rebaixamento.

E você, acha que tem mais algum problema no Santos que Muricy não vê?