Uma derrota como a de ontem deixa o santista irritado. Novamente o time tinha um jogador a mais e novamente perdeu com um gol de bola parada no último lance do jogo. Parece que falta concentração, ânimo, parece que os jogadores ganham pouco ou os salários estão atrasados. Por isso, a bronca do torcedor é normal. Mas não podemos nos esquecer de que o grande objetivo do Santos neste segundo semestre é o Mundial de Clubes no Japão e é partindo dessa premissa que temos de analisar o time e tentar desvendar as minhocas que andam pupulando no cérebro do professor Muricy Ramalho.

Sim, porque uma coisa é o que nós pensamos e achamos que deve ser feito; outra é o que o técnico do Santos fará. Por mais que reclamemos da lentidão e da desatenção da dupla de zaga, qual a chance de Edu Dracena e Durval serem substituídos na disputa do Mundial do Japão? Portanto, precisamos ser realistas e tentar desvendar o que se passa na cabeça de Muricy.

Como será o Santos no Japão

Por tudo que já fez na conquista de quatro títulos em um ano e meio, pelo prestígio de ter sido recentemente convocado para a Seleção Brasileira, Rafael, apesar de sua deficiência para cortar cruzamentos sobre a área, será o goleiro do Santos no Japão. Só uma seqüência desastrosa de falhas poderia levá-lo ao banco e dar ao bom Vladimir a oportunidade de disputar o Mundial.

Nas laterais, Danilo e Léo são absolutos. Rezemos para que não se machuquem, pois não têm substitutos à altura. Os contratados Leandro Silva e Eder Lima não convencem. Bruno Aguiar pode ser improvisado na lateral-direita e Pará na esquerda, mas não são a mesma coisa. E o jovem Crystian só entrará se não houver nenhuma outra opção.

No miolo da zaga, teremos de engolir Edu Dracena e Durval mais uma vez. Mesmo claudicantes, jogam em posições carentes no mercado. Muricy não arriscará de pedir a contratação de um zagueiro para lançá-lo no Mundial. Os reservas Bruno Rodrigo, Bruno Aguiar e Vinicius Simon não têm a confiança do treinador. O irônico é que Edu Dracena e Durval tanto podem voltar consagrados do Japão, como o Mundial pode ser a última competição que farão pelo Santos…

Mas o maior problema do time, para mim, nem é a zaga, e sim o meio-campo. Pelo que sei, foi Muricy quem pediu a contratação de Ibson e Henrique, só que o time joga melhor com os que já estavam: Adriano e Arouca. Pediu também a contratação de Alan Kardec, mas o rapaz é um atacante (ruim) que está tentando jogar como meia. Melhor seria ter dado mais oportunidades a Felipe Anderson.

Enfim, acho que Muricy foi mal nas três contratações e terá de dar o braço a torcer se não quiser ver o Santos afundar no Mundial. Acho que ele dará um jeito de encaixar Henrique como titular e fazer Alan Kardec revezar-se no ataque com Renteria, mas insistir com Ibson é temerário. Comparo a contratação de Ibson com a de Keirrison, no ano passado: ruins e caras.

Outro grande salário do elenco, o ex-Menino da Vila Elano, está jogando muito pouco pela fama. Ah se no seu lugar estivesse Renato, outro ex-Menino da Vila, que o Santos perdeu para o Botafogo… Enquanto Elano se arrasta em campo, preocupado com assuntos sentimentais, Renato ajustou o meio-campo do alvinegro carioca e está ajudando o time a brigar pelo título.

Não haverá criatividade no meio-campo do Santos enquanto Paulo Henrique Ganso não voltar e enquanto Felipe Anderson não for efetivado como seu reserva imediato. Por falta de confiança em Felipe, Muricy tem obrigado volantes a atuarem como meias, o que não tem dado certo. Arouca pode dar uma arrancada de vez em quando, mas não acerta passes de mais de cinco metros.

O meio-campo que Muricy sonha para o Mundial será composto por Henrique (ou Adriano), Arouca, Elano (ou Ibson) e Paulo Henrique Ganso (ou Alan Kardec, ou Renteria). No ataque, qualquer criança sabe, jogarão Neymar e Borges (ou Renteria). Eu faria diferente…

Como não tive maiores oportunidades de ver o garoto Anderson Carvalho jogar, Adriano e Arouca seriam meus dois volantes. Henrique talvez tenha um pouquinho mais de habilidade para apoiar o ataque, mas não marca tão bem quanto Adriano. No meio, eu colocaria o Ganso, mesmo que não estivesse cem por cento. Com uma perna só o garoto é melhor do que qualquer outro que jogue por ali.

E o quarto jogador do meio-campo seria Elano, se melhorasse até o Mundial, ou Felipe Anderson. Se nenhum dos dois justificasse a escalação, optaria por Henrique, formando um meio campo com Adriano, Arouca, Henrique e Ganso (faço a ressalva de que fiquei agradavelmente impressionado com o volante Anderson Carvalho, mas Muricy não tem lhe dado mais oportunidades).

A tática adequada para o Mundial

O problema do Santos não tem sido apenas os jogadores, mas a maneira como se colocam em campo. Por que boa parte dos contra-ataques mortais dos adversários ocorrem depois de um lance de bola parada a favor do Santos? Porque os zagueiros Edu Dracena e Durval vão, ambos, para o ataque, e, como são lentos, não estão em suas posições quando o adversário retoma a bola e avança.

O Santos que ganhou a Copa Libertadores foi um time que guardou as posições na defesa e variou as posições no ataque – que é o ideal. Acredito que no Japão o time voltará a jogar assim. A prioridade de um zagueiro é defender bem, evitar gols do adversário, e não marcar gols. Se o Santos é a quinta defesa mais vazada do campeonato, é óbvio que o capitão Edu Dracena tem de se preocupar primeiro em arrumar as coisas no seu setor, para só depois,e na boa, ir tentar fazer o seu.

Para resumir, eu diria que no Mundial o Santos tem de voltar ao rigor defensivo que adotou na Libertadores, e deixar a criação de oportunidades para os jogadores de talento, como Neymar e Ganso (e talvez Felipe Anderson); de alguma criatividade, como Léo e Danilo (e talvez Elano) e os fazedores de gol, como Borges e Renteria (e talvez Alan Kardec).

Enfim, não se pode esperar contratações para o campeonato no Japão, o mais importante do Santos nos últimos 48 anos. Porém, é preciso escalar melhor o time e adotar uma tática mais eficiente, como na Libertadores. E isso a cabeça de Muricy sabe fazer. Ou pelo menos sabia…

A vida após o Japão

Se for campeão do mundo, mesmo jogando na retranca e ganhando por 1 a 0 ou na disputa de pênaltis, muitos dos jogadores hoje contestados pela torcida continuarão no time. Porém, se perder a oportunidade de conquistar o terceiro título mundial – o que, infelizmente, é a opção mais viável –, o Santos certamente promoverá uma grande renovação no elenco. Só assim teremos o prazer de ver um time com mais vontade e vitalidade, no qual despontarão jovens como Anderson Carvalho, Crystian e Felipe Anderson…

E você, como acha que o Santos jogará no Mundial?