Por Marcelo Da Viá

Desde que o futebol brasileiro voltou a valorizar a Taça Libertadores da América, os times nacionais vem dominando a competição: nas últimas 20 edições deste torneio (desde de 1992), em 17 delas um time brasileiro chegou à grande final. Isso quando dois times brasileiros não decidiam o título (enquanto foi permitido). E nada demais nisso, dada a relevância que o futebol desfruta no país continental.

Mas esse texto não é sobre a Libertadores. É que há uma sensação geral de que os últimos campeões do nosso Brasileirão por pontos corridos são apenas os menos ruins, ou mais regulares, no pior sentido do termo. De fato, um campeonato por pontos corridos deve premiar o time mais “regular”, no que isso tem de bom (times de alto nível que costumam jogar quase sempre bem).

Penso que esse sistema de disputa pode ter chegado tarde demais ao Campeonato Brasileiro. Explico: durante, principalmente, os anos 70 e 80, é fato que nossos estaduais foram inchados com fases desnecessárias, e isso quando havia tempo de sobra para os pontos corridos (que pressupõe turno e returno), já que o torneio nacional não era tão valorizado. A disparidade entre o que se via na Europa, com bons nacionais premiando o mais regular, e o que fazíamos aqui, parecia gritante. Mas o tempo foi passando e muita coisa mudou, lá e cá.

Com o fim das restrições a jogadores estrangeiros na Europa (coincidentemente, a partir de 1992), supertimes foram se formando por lá, o que transformou a Champions League na principal competição do velho continente. Claro que a Champions cresceu também de tamanho – hoje são 32 times. Ocorre que na Europa não existem tantos grandes clubes por país, por isso a tendência de esvaziamento de seus nacionais – um fato – foi apenas uma conseqüência natural. Mas no Brasil, com tantos grandes clubes, seria um pecado permitir que essa triste história se repetise, o que, na prática, infelizmente, já está acontecendo – na América do Sul também passamos a valorizar mais o torneio continental, que igualmente inchou, com os mesmos 32 times. O fato é que, com Estaduais, Libertadores, Copa do Brasil e Mundial inter-clubes, sem contar as sempre aborrecidas mas obrigatórias convocações para a Seleção Brasileira, o Brasileirão por pontos corridos foi se tornando uma competição manca. É óbvio: se das 38 rodadas que possui, em pelo menos em dez ou doze os melhores não jogam com suas melhores formações, o campeão não pode reivindicar ser nem ao menos o mais regular, quanto mais o melhor;

Na verdade, sem patriotismo bobo, com a crise financeira da Argentina – que esperamos que seja passageira -, a fase mais aguda da Libertadores nesses últimos anos tem sido um grande Brasileirão, só que sem todos os seus melhores times. Por que não reconhecer isso e mudar?

Se houvesse a volta do mata-mata, com os oito melhores classificados, o país se deleitaria com grandes clássicos, grandes jogos, que premiariam simplesmente o melhor, e não apenas o melhorzinho – aliás, será que o Santos de Robinho, Renato e Diego teria chegado aonde chegou caso o sistema de 2002 fosse o de pontos corridos? Sabendo de antemão que podem se classificar, os times de melhor elenco podem se planejar, sem prejuízo das outras importantes competições de que geralmente participam.

A idéia é manter os dois turnos, por isso seria necessário um mês inteiro paras as quartas de final, semi e finalíssima, sempre em dois jogos, valendo gol fora e dando a vantagem do empate para o time de melhor campanha (respeitando sempre o saldo de gols), sem decisões por pênaltis. Isso acarretaria na antecipação do campeonato, ou seja, os estaduais, já tão esvaziados, teriam que diminuir de tamanho.

É isso, encerro fazendo um esclarecimento: não tenho qualquer interesse comercial nesta proposta, que antes é uma constatação. O Brasileirão é tão bacana que, com tudo isso, ainda é, de longe, mais interessante entre todos os nacionais do planeta. Mas que pode melhorar, e muito.

E você, acho que o Brasileirão tem de voltar a classificar os oito mais bem classificados para um mata-mata final, como em 2002?