Hoje à tarde jogam Flamengo e Corinthians e a Globo transmitirá esse amistoso para todo o Brasil, como se tratasse de um Real Madrid e Barcelona. Mas nem são os dois times mais vitoriosos do Brasil, nem tem os melhores elencos e nem chegam a reunir, juntos, 30% dos torcedores do País. Mas a Globo quer facilitar as coisas para ela e bipolarizar o futebol brasileiro, como já ocorre na Espanha.

E o pior é que se você assistir a este jogo, mesmo que não torça para nenhum dos dois, estará engrossando o ibope e dando subsídios para a Globo, que pretende perpetuar uma cota privilegiada para estes dois clubes, aumentando, gradativamente, a distância econômica entre eles e os demais clubes grandes do Brasil, destruindo a competitividade do futebol brasileiro.

Por isso, para o bem do futebol brasileiro e do seu clube de coração, não assista a esta pelada em Londrina. Não assista e alerte seus amigos e colegas que não torcem para estes dois times, para que também não vejam. O maior ibope que estes dois times conseguem, principalmente o Corinthians, vem dos torcedores rivais, que o assistem só para “secar”. Pare de ajudar o adversário.

Só resta aos torcedores dos outros times grandes tentar fazer alguma coisa, já que nada fizeram os dirigentes dos clubes e das federações, os jornalistas dos grandes veículos e os diretores da Rede Globo. Nenhum deles teve a sensibilidade para perceber que esta divisão de cotas imposta levará o futebol brasileiro para o buraco, a exemplo do que ocorre no futebol espanhol.

O critério, injusto – pois não se baseia no currículo ou no mérito esportivo, e sim em uma relativa popularidade – restringirá, em pouco tempo, os grandes clubes brasileiros a apenas dois. Pois com muito mais dinheiro a cada ano, contratarão melhores jogadores, terão ainda mais exposição na mídia, mais possibilidades de ganhar títulos, venderão mais caro seus espaços publicitários e com isso conquistarão mais e mais torcedores.

Se hoje a soma das torcidas de Flamengo e Corinthians equivale a cerca de 30% da massa dos aficionados de futebol no Brasil, pode estar certo de que esta porcentagem aumentará a cada ano, até que seja a maioria e aí sufoque de vez as vozes contrárias. Por isso, o momento de reagir a esta tentativa de espanholização é agora.

Uma pesquisa feita pelo jornal Marca em 2007 apontou que a soma das torcidas de Real Madrid e Barcelona atingia 58,3% da preferência do torcedor espanhol. Outros três que já foram considerados grandes – Valencia, Athletic Bilbao e Atlético de Madrid – não davam, juntos, 15%. É isso que, rapidamente, irá acontecer no Brasil.

Por mais que as diretoria de clubes sejam criativas e competentes, é a televisão que ditará a popularidade e a riqueza dos clubes. Ela determina os jogos a serem transmitidos, ela distribui o maior dinheiro que os clubes recebem. Imagine esse privilégio se acumulando a cada temporada, e é fácil chegar à conclusão de que toda a empolgante e secular competitividade do futebol brasileiro irá para o espaço em pouco tempo.

Brasil está na contramão de onde o esporte dá certo

Como já falamos neste blog, os campeonatos de futebol mais bem-sucedidos, os nacionais da Inglaterra e Alemanha, dividem uma parte da cota de tevê entre todos os participantes da divisão principal e reservam outro parte a ser distribuída entre os mais bem classificados. O acordo, coletivo, é feito entre a emissora de tevê e uma entidade que representa os clubes. Nada mais justo, mais limpo, mais motivador.

Nos esportes coletivos dos Estados Unidos, como basquete, futebol e futebol americano, os times piores colocados em uma temporada são os que têm a preferência para contratar os melhores atletas universitários. Percebeu bem? Os piores times de um ano contratam as melhores revelações universitárias, o que garante um equilíbrio permanente entre as equipes, assegurando que o público e o mercado continuará contando com bons espetáculos.

De que adiantaria alguns poucos times super poderosos e outros fraquíssimos? Os jogos não teriam graça. O torcedor guardaria seu dinheiro e sua atenção apenas para os clássicos. O esporte perderia sua atratividade. É claro que os norte-americanos perceberam isso, enquanto os espanhóis continuam jogando um campeonato de apenas dois times.

Veja, ainda, a super profissional Fórmula-1, com investimentos bilionários e a participação de algumas das mais poderosas marcas do planeta. Sempre que o poder econômico desequilibra a competição, surgem regras para equilibrá-la novamente, tornando-a mais competitiva. É o óbvio. Se os homens do nosso futebol não sabem como fazer, por que não pedem uma consultoria para Bernie Ecclestone?

Esse movimento não é anti ninguém. É só a favor do futebol

É compreensível que, em um primeiro momento, torcedores de Corinthians e Flamengo se revoltem contra esse boicote aos seus times. Porém, eles também fariam alguma coisa se outros clubes fossem privilegiados por decreto e com isso ganhassem uma poder desproporcional aos seus méritos.

Imagine, por exemplo, que por ter sido o time que mais cedeu jogadores para a conquista da Jules Rimet, por ter tido Pelé, o jogador que mais divulgou o Brasil lá fora, e por ter se sacrificado tanto pela Seleção Brasileira, a ponto de deixar de jogar três Libertadores, mesmo tendo adquirido o direito para isso, o Santos fosse abençoado com um tipo de aposentadoria vitalícia, dessas que muitos de nossos políticos usufruem. E imagine que ela fosse de alguns milhões, todos os meses. Ora, isso provocaria um desequilíbrio no futebol brasileiro. Mesmo santista, eu seria contra. Há muitas formas de se recompensar o mérito, sem ser pela distribuição de dinheiro.

O que se quer com esse MOVIMENTO CONTRA A ESPANHOLIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO é que os grandes deste País – todos os grandes, e não apenas dois – conservem a sua força competitiva, através de uma cota de tevê e de uma distribuição de visibilidade mais justas, que obedeçam a critérios claros, técnicos e não políticos.

Mais do que dirigentes esportivos, políticos, marqueteiros, empresários do futebol, executivos da comunicação e quetais, é o torcedor que dita as regras e pode fazer o negócio futebol florescer ou definhar no Brasil. Nós acreditamos que sem competitividade, sem os grandes clubes voltarem a ser tratados com igualdade pela tevê e pelos poderes do futebol, não haverá saída para o esporte mais popular do País. Por isso, somos obrigados a boicotar os jogos de Flamengo e Corinthians na tevê, até que uma nova ordem seja estabelecida para a relação entre a tevê e os clubes brasileiros.

O boicote começa hoje à tarde. Posso contar com você?