Flamengo e Corinthians a caminho de se tornarem novos Real Madrid e Barcelona?

“Existe algum torcedor que não diga que nossa liga está prostituída, adulterada e corrompida? É uma liga de terceiro mundo em que dois clubes roubam o dinheiro de televisão dos demais”.

Guarde bem essa frase. Ela foi dita por José Maria Del Nido, presidente do Sevilha, criticando as desproporcionais cotas de tevê e os privilégios dados a Real Madrid e Barcelona, que tiraram toda a competitividade do Campeonato Espanhol. Daqui a alguns anos, talvez bem mais cedo do que possamos imaginar, queixas idênticas estarão nas bocas dos presidentes de Grêmio, Internacional, Vasco, Fluminense, Santos, Palmeiras, São Paulo…

O presidente do Sevilha sempre alertou para os perigos que a bipolarização traria para o campeonato, mas nunca lhe deram o devido crédito. Agora a Espanha reconhece que o dirigente estava correto. Diz Oscar Murillo, repórter do Diário de Sevilla:

“José María del Nido sempre criticou a divisão dos recursos proveninentes da televisão. No início, era tratado como um louco, mas parece que não estava. Atualmente, o abismo existente cria um sentimento de resignação entre os torcedores dos demais clubes. Eles sabem que é impossível lutar contra os gigantes Real e Barça. Ao mesmo tempo é criado um ciclo perverso, pois esse torcedor deixa de ir ao estádio e de ver os jogos pela televisão. As partidas não são mais tão atrativas. Real e Barça sempre foram mais fortes, só que antes a distância não era tão agressiva como agora.”

Fernando Roig, presidente do Villarreal, concorda com Del Nido. “Essa é a liga que vocês querem? Eu vendo jogadores para equilibrar as minhas contas, enquanto outros pedem crédito e conseguem”, afirmou. “Se querem que a liga tenha duas partidas apenas, que coloquem duas partidas, mas isto será péssimo para o futebol”, completou, referindo-se ao clássico entre Real Madrid e Barcelona.

Para o presidente do Granada, Quique Pina, “com a situação atual é melhor não ter campeonato. Não pode haver uma diferença tão grande de Barcelona e Real Madrid em relação aos demais”. Ele sugere a criação de uma liga independente, sem Real Madrid e Barcelona, que possa resuperar a competitividade perdida no futebol espanhol. “Antes você ia ao Bernabéu ou ao Camp Nou com toda a ilusão do mundo. Hoje em dia, se eu fosse treinador pouparia meus jogadores nessas partidas”, disse Pina.

Os jogadores dos outros times também sentem a impossibilidade de travar uma luta justa com os dois poderosos. “Temos de buscar a vitória na esperança de que Real ou Barça tenham um contratempo. A chance de ganhar um título é como um milagre”, diz Piatti, atacante do Valência. O brasileiro Marcos Senna concorda: “A diferença para Barça e Real é brutal”.

Desigualdade tem rebaixado o Campeonato Espanhol

Com uma parte da verba dividida igualmente entre todos os times da divisão principal e uma porcentagem destinada aos mais bem classificados, os campeonatos nacionais de Alemanha e Inglaterra têm sido escolhidos como os melhores da Europa. Enquanto isso, a Espanha, que preferiu a bipolarização, vê a maioria de seus clubes perderem rapidamente a força que tinham.

Hoje Real Madrid e Barcelona ficam, juntos, com 34% do total pago pela tevê. Os outros 66% são distribuídos entre os 40 clubes que disputam a primeira e a segunda divisões espanholas.

Como resultado dessa partilha desproporcional, clubes que eram grandes, com o Atlético de Madrid, viraram medianos, enquanto outros se apequenaram. Até a década de 70 o Atlético de Madrid era considerado um dos grandes da Espanha e tinha o mesmo número de títulos nacionais do Barcelona. Hoje não tem a mínima possibilidade de ser campeão. Sua cota de tevê é 30% do que recebem Real e Barça.

Outro exemplo é o La Coruña. Campeão espanhol em 2000, com um time no qual despontavam os brasileiros Djalminha e Mauro Silva, hoje a equipe se contenta em não ser rebaixada. Sua cota é 10% dos dois privilegiados.

O resultado disso tudo é que no campo não há mais o mínimo equilíbrio. Ao se iniciar o campeonato, já se sabe quem vai lutar pelo título. Nas últimas sete temporadas, quando não deu Real Madrid, deu Barcelona. A diferença de pontos para os demais tem sido assustadora. Na temporada 2010/11, o Real Madrid, vice-campeão, ficou com 21 pontos a mais do que o Valencia, terceiro colocado.

Ex-diretor do Barcelona também critica a divisão

Mesmo profissionais de Real Madrid e Barcelona estão percebendo que a distância destes dois times para os demais está empobrecendo o Campeonato Espanhol como produto. Este Calzada, ex-diretor de marketing do Barcelona, reconhece que o campeonato está cada vez menos interessante:

“Real Madrid e Barça levam a maior parte dos recursos. Sem dúvida é algo muito ruim para o campeonato. A maior parte dos jogos é desinteressante, e cada vez mais é previsível o resultado de Barcelona e Real Madrid. O natural é que vençam sempre”.

Calzada acredita que “uma divisão mais igualitária fortaleceria os clubes menores e aumentaria a competitividade do campeonato. Porém, o que piora é o fato de a Espanha ser o único país da Europa onde os clubes negociam seus contratos de televisão de forma individual (assim como o Globo está fazendo com os clubes brasileiros). É complicado se chegar a um acordo quando todos não estão à mesa”.

O ex-responsável pelo marketing do Barcelona lembra que a fórmula adotada no Campeonato Inglês seria mais justa, e compara: “Na Espanha, o clube que mais ganha com direitos televisivos tem 11 vezes mais recursos do que o que menos arrecada. No Campeonato Inglês a diferença não chega ao dobro.”

Por que o Brasil adotou o modelo espanhol?

É difícil entender por que os presidentes dos grandes clubes brasileiros permitiram que a Rede Globo promovesse a implosão do Clube dos Treze e, no seu lugar, instituísse a negociação individual dos direitos de tevê, o que, na prática, iniciou a bipolarização do nosso futebol, baseada em Corinthians e Flamengo.

Provavelmente pela necessidade urgente de dinheiro para saldar dívidas, os presidentes dos outros grandes clubes aceitaram assinar um cheque em branco a favor da Globo e de seus dois privilegiados.

Está mais do que evidente que a intenção é dividir o futebol brasileiro entre um grande de São Paulo e um do Rio. Os outros times dessas praças teriam importância cada vez menor. Com o tempo, a massa de torcedores desses outros times diminuiria a tal ponto que nem teriam forças para lutar contra o sistema.

A nomeação de Andrés Sanchez para diretor da CBF; a pressão de Ronaldo Fenômeno para tirar Neymar do Santos; a nomeação do corintiano Mano Menezes para dirigir a Seleção Brasileira; o boicote ao Morumbi como estádio de São Paulo na Copa do Mundo; a construção a toque de caixa, com apoio dos poderes públicos, do estádio do Corinthians; as vistas grossas à dívida impagável do Flamengo; a preferência descarada da Globo pela transmissão de jogos desses dois times – enfim, o que não faltam são evidencias desse plano que pretende transformar o futebol brasileiro em uma nova Espanha.

O que pode ser feito


Viva melhor! Desligue a tevê, ou mude de canal quando eles jogarem (arte de Daniel Galvão)

Em primeiro lugar, é preciso que os presidentes dos outros clubes grandes do Brasil tenham atitudes corajosas, de quem realmente representa comunidades de tradição no futebol brasileiro. Que não se deixem vender por migalhas, enxerguem na frente e restabeleçam um Clube dos Treze, ou dos Quinze, ou dos Vinte, independente e com poder para discutir com a Globo, ou outra rede de tevê, de igual para igual.

Em segundo, que as negociações deixem de ser individuais, ou secretas, o que só é bom para a tevê. E que nessas negociações valorize-se a participação do clube na Série A e também o mérito esportivo, com prêmios aos mais bem classificados.

É importante, ainda, conhecer melhor a proposta do deputado Mendonça Filho, divulgá-la e apoiá-la. Pelo que eu a conheço, é bem melhor do que a proposta da Globo. Por ela, 50% da verba da tevê será dividida entre todos os clubes da Série A e a outra metade distribuída de acordo com a média de classificação de cada equipe nos anos anteriores. É, sem dúvida, muito mais justa e equilibrada do que a que está sendo imposta pela Rede Globo.

Porém, enquanto nada disso acontece, a única saída que nós temos é de boicotar os jogos de Corinthians e Flamengo pela tevê, deixando de assisti-los. Chega de favorecer ao adversário, engrossando o seu ibope. Se suas torcidas são tão grandes assim, que se virem sozinhas.

Este blog deixa claro que não é anti-corintiano e nem anti-flamenguista. Respeita todos os clubes brasileiros e suas torcidas de maneira igual. Só que considera extremamente injusto e maléfico para o nosso futebol esta divisão de cotas – e esta rede de favorecimentos – instituída pela Rede Globo e os poderes políticos e esportivos de nosso País em prol de dois clubes apenas.

Por isso, o que nos resta é esta campanha radical para que torcedores de outros times jamais assistam a jogos de Flamengo e Corinthians pela tevê. Só assim, mexendo nos números – do ibope, do patrocínio, da grana – é que os donos do poder aceitarão rever seus planos.

Mesmo sem a divulgação maciça dos grandes veículos de comunicação, a campanha começa amanhã, quando a Globo instituiu que um amistoso entre os seus dois queridinhos deverá ser transmitido em rede nacional. Vá procurando outra coisa para fazer no horário (ver o jogo do Santos pela Copa São paulo é uma ótima opção para os santistas), mas não dê um minuto de ibope para este jogo de favorecidos).

Você não quer que o Brasil se transforme em uma Espanha, quer?