Em alguns países um clube de futebol pode ser rebaixado de divisão ou mesmo fechado caso não consiga arcar com suas obrigações financeiras, principalmente se não paga salários, dívidas bancárias e está com nome sujo na praça. No nosso paraíso tropical, em que a mídia esportiva resolveu, por ibope, privilegiar os dois times pretensamente mais populares do país, clubes ultra devedores não só não são punidos, como notícias sobre o assunto parecem ser abafadas. Agora mesmo noticia-se sobre o bate-boca entre o técnico Vanderlei Luxemburgo e o diretor financeiro Michel Levy, do Flamengo, mas as matérias e análises passam ao algo do grande problema do clube carioca, que é dívida impagável.

Este termo, impagável, foi usado há dois anos pelo ex-jogador Leonardo – ex-São paulo e ex-Flamengo, hoje técnico na Europa – e só o estou reproduzindo. Sim, há dois anos Leonardo já disse que a dívida do Flamengo era impossível de ser paga. No ano passado, um dirigente com acesso às contas do rubronegro, assegurou-me que já batia em um bilhão de reais.

No início de fevereiro do ano passado, a presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, apresentou uns cálculos dando a entender que a dívida era de R$ 625 milhões. Mesmo que fosse “apenas” isso, quando se sabe que os juros bancários de 2011 bateram nos 39% ao ano, o total devedor já estaria perto de R$ 1 bilhão.

Amorim projetou abater R$ 25 milhões da dívida por ano, mas isso seria menos de 10% dos juros anuais. Ou seja: nesta história, a tartatuga nunca alcançará o coelho e o Flamengo jamais terá como saldar seus compromissos. A conta é tão terrivelmente simples, que não sei como nenhum desses repórteres metidos a investigativos se interessou por fazê-la.

O interessante é que mesmo à beira da bancarrota, o Flamengo continua contratando, acenando aos incautos com a possibilidade de parcerias com empresas. A Traffic trouxe Ronaldinho Gaúcho e lhe pagou alguns meses de salários. Quando parou de pegar, o jogador ficou sem receber, já que o clube não fez a sua parte. Agora, há uma verdadeira revolta no elenco, pois meio time está sem receber. Quiseram jogar no Flamengo pela “visibilidade” e acabaram iludidos e mal pagos.

Será que fechar o clube mais popular do Brasil é relevante?

Costumo dizer aos amigos flamenguistas que fiquem tranquilos, pois nenhum político brasileiro terá coragem de fechar o Flamengo. Mas que a situação é desesperadora e merecia reportagens mais aprofundadas da mídia, não há dúvida.

Tento entender por que a imprensa esportiva, que é tão crítica com relação ao Santos e a Neymar, é tão complacente com o Flamengo e o alvinegro da capital. A desculpa de que são os mais populares, dão audiência e mantêm os empregos de muito jornalista, acaba justiticando essa postura paternalista, que mais atrapalha do que ajuda estes clubes.

Se o Flamengo não fosse tão protegido pela bancada da bola no Congresso Nacional, pela Rede Globo e por muitos outros veículos de comunicação, certamente não teria chegado a este ponto de insolvência. O rubronegro agiu sempre como se estivesse acima das leis brasileiras. Até patrocínio da Petrobras ele teve, em uma época na qual se proibia patrocinio de empresas estatais a clubes de futebol. Hoje, sinceramente não sei como estão se virando para driblar os credores.

Só queria entender porque a imprensa evita falar na impagável dívida flamenguista. Você poderia me explicar?