Mário Pereira cabeceando na vitória por 2 a 0 sobre o Corinthians, no Parque São Jorge, em 17/11/1935, que deu ao Santos seu primeiro título paulista (arquivo pessoal de Mário Pereira).

Meia-direita rápido, Mário Pereira, “O Perigo Loiro”, único remanescente do time campeão paulista de 1935, morreu sábado, aos 97 anos. Há um ano entrevistei-o para um filme que a produtora Canal Azul está produzindo para o Centenário do Santos. Mesmo com alguns lapsos de memória, lembrou de boas passagens do primeiro título importante do Alvinegro Praiano. Estava forte, saudável, alegre, brinquei que chegaria fácil aos 100 anos. Sua morte é uma triste surpresa.

A casa de Mário Pereira está repleta de fotos do Santos, para quem ele torceu até os últimos de seus dias. Em sua homenagem, relembrarei agora a campanha que deu ao Alvinegro Praiano seu primeiro título paulista, há 76 anos:

O primeiro título estadual do Time dos Sonhos

O Santos chegou de uma excursão ao Rio Grande do Sul, em que fez cinco jogos, e já ficou sabendo que sua estreia no Estadual, pela nascente Liga Paulista de Futebol, seria três dias depois, contra o tricampeão Palestra Itália, na Vila Belmiro (naquele ano foram disputados dois campeonatos, um pela Liga Paulista, com sete times, e o da Associação paulista de Esportes Atléticos, com oito equipes, das quais a mais forte era a Portuguesa de Desportos, que se sagrou campeã).

Em 2 de junho, o Santos entrou em campo com Ciro, Neves e Badú; Figueira. Ferreira e Marteleti; Saci, Moran, Raul, Logu e Paulinho. O técnico era Bilu. Seu adversário, o favorito Palestra Itália, naquele ano buscaria o título para se igualar ao Paulistano, único tetracampeão paulista (1916/17/18/19). Porém, com muita garra, o Alvinegro Praiano venceu por 1 a 0, gol de Raul.

Em seguida o Santos venceu o Hespanha (hoje Jabaquara), no campo do Macuco, por 2 a 0 (gols de Saci e Sandro) e, no Parque Antártica, goleou o Paulista, da Capital, por 5 a 1 (três gols de Sandro, um de Logú e um de Zé Carlos).

Na sua quarta partida o Santos enfrentou o Corinthians, na Vila Belmiro, e perdeu por 2 a 1 (gol de Saci). No jogo seguinte recebeu a Portuguesa Santista na Vila Belmiro e venceu por 3 a 1, com gols de Junqueirinha, Logú e o primeiro do jovem Mário Pereira no campeonato.

No último compromisso do primeiro turno, o Santos foi à Capital enfrentar o Juventus da Moóca e venceu por 4 a 1, com dois gols de Delso, um de Araken, o velho ídolo que voltava ao seu time do coração, e Saci.

Ao final do primeiro turno, o Corinthians era o líder, pois tinha vencido seus seis jogos, mas o Santos vinha logo atrás, com cinco vitórias.

No início do segundo turno, Santos e Palestra Itália empataram em 0 a 0, no Parque Antártica. Em seguida, o Alvinegro conseguiu duas goleadas na Vila Belmiro: 4 a 1 no Hespanha (dois gols de Junqueirinha, um de Delso e um de Mário Pereira) e 5 a 2 no Paulista (dois de Mário Pereira, um de Araken, um de Delso e um de Junqueirinha).

Na seqüência, o time enfrentou a Portuguesa Santista em Ulrico Mursa e empatou em 3 a 3 (Araken, Junqueirinha e Mário Pereira). Depois, jogou contra o Juventus, na Vila Belmiro, e venceu por 2 a 1 (Junqueirinha e Saci).

Faltava apenas um jogo, o Corinthians, no Parque São Jorge. O alvinegro da capital tinha sido surpreendido duas vezes em Santos, derrotado por Hespanha e Portuguesa Santista. Com isso, tinha um ponto perdido a mais do que o Santos, apesar de ainda estar na briga pelo título. A situação era a seguinte:

Se vencesse ou empatasse, o Santos seria campeão. Se o Corinthians vencesse, jogaria por nova vitória contra o Palestra Itália para ficar com o título. Porém, uma derrota do Santos deixaria o Palestra também com chances de chegar ao título. Para isso, precisaria venceu o Corinthians no último jogo e assim se classificar para uma super decisão contra o Santos.

Quando lembram a história deste título, alguns pesquisadores se enganam ao dizer que o Corinthians não tinha mais chances de ser campeão e que por isso teria facilitado as coisas para o Santos. É a velha mania de desmerecer as conquistas do Alvinegro Praiano. Eu mesmo já me deixei enganar por esse erro de informação ao pesquisar matérias sobre o Campeonato Paulista de 1935.

Na verdade, o Corinthians tinha 15 pontos ganhos e o Santos, 18. Portanto, se vencesse, o time da capital iria para 17 e depois poderia chegar a 19 se vencesse também o Palestra Itália. É totalmente infundada a versão de que a partida só valia para os santistas.

Tanto é assim, que os dias que antecederam ao jogo foram muito nervosos. A imprensa paulistana dizia que o Corinthians ganharia, pois “não se deixará bater em seus domínios”. O técnico do Santos, Bilu, que, como jogador, tinha sido vítima da arbitragem na final de 1927, quando o Santos foi vergonhosamente garfado na Vila Belmiro diante do Palestra Itália, procurava acalmar o time. “Não se deixem levar pela guerra de nervos”, dizia ele.

Os trens chegavam apinhados de Santos com a torcida do Alvinegro Praiano. Um grupo de estivadores levou, escondidas, várias garrafas com gasolina, que seriam usadas para colocar fogo no Parque São Jorge caso o Santos fosse novamente roubado em um jogo decisivo. Um santista mandou confeccionar uma faixa enorme com os dizeres: “Salve Santos F C, glorioso campeão paulista de 1935” e entrou com ela no estádio.

No primeiro tempo, apesar da correria do adversário, empurrado por sua torcida, foi o Santos quem marcou, aos 35 minutos, em bela jogada individual de Raul. Na segunda etapa, Araken aumentou aos 17 minutos. Quando o adversário parecia querer reagir, a faixa santista foi estendida nas arquibancadas do Parque São Jorge (naquele dia lotado, com 15 mil pagantes) e sua visão deu novo ânimo aos jogadores do Alvinegro Praiano, que passaram a tocar de pé em pé, colocando o adversário na roda.

A festa começou depois do jogo, prosseguiu nos trens que desceram a serra, no bar da estação de Santos e tomou a cidade. Até quem não acompanhava o futebol saiu às ruas para comemorar e saudar os heróis. Cinco bandas foram vistas tocando pela cidade.

Dias depois, na disputa pelo estadual dos segundos quadros, o Santos bateu o Palestra Itália por 4 a 0 em São Paulo, 2 a 1 em Santos, e fez barba e cabelo no futebol paulista em 1935.

Delso, o atacante que fez gols importantes para o Santos, desfalcou o time na decisão, pois teve de ir ao Interior acompanhar o enterro de sua mãe. Mário Pereira, muito caçado pelos zagueiros, devido à sua agilidade e velocidade, sofreria grave contusão nos joelhos, em uma daquelas chamadas “entradas criminosas” e abandonaria o futebol pouco depois, aos 22 anos. Com cinco gols, Mário Pereira foi o segundo artilheiro do Santos na campanha do título, um a menos do que Junqueirinha.

Mário, que nasceu em Santos 4 de abril de 1914, apenas dois anos depois da fundação do clube, marcou 24 gols nos 41 jogos que fez pelo Santos, média de 0,58 por jogo. Só nos resta agradece-lo pelo amor, pela vida dedicada ao Glorioso Alvinegro Praiano.

E se foi também a sensibilidade de Daniel Piza

Com apenas 41 anos, o culto e talentoso jornalista Daniel Piza nos deixou neste final de semana. Trabalhei com ele no mesmo sexto andar do jornal O Estado de São Paulo – ele pelo Estadão, eu pelo Jornal da Tarde. Nunca nos falamos, mas fui agradavelmente surpreendido quando li sua elogiosa crônica sobre o livro “Donos da Terra”, que lancei em 2007 e que ele considerou “ótimo”. Passei a acompanhar seus escritos, sempre repletos de elegância e respeito à cultura brasileira. Ele adorava o futebol, não era santista, mas tinha um respeito muito grande pela hsitória do Alvinegro Praiano.

E você, o que diz de Mário Pereira e do título de 1935?