Enquanto isso, hoje, na Câmara Federal, em Brasília, Neymar (foto) e Paulo Henrique Ganso atraíram uma multidão de fãs em inédita solenidade em homenagem ao Centenário do Santos. Os próprios deputados se acotovelaram em busca de autógrafos dos santistas. Até gravatas e pastas de trabalho foram oferecidas ao Menino de Ouro para sua dedicatória. O número de crianças também foi muito grande. Os alto-falantes da Câmara chegaram a tocar o hino do Santos e o deputado Marco Maia (PT-RS), presidente da casa, pediu o reforço da segurança devido à aglomeração provocada pelos santistas. O presidente Luis Álvaro Ribeiro discursou e foi muito aplaudido ao defender a filosofia de que não é preciso que um atleta brasileiro já para a Europa para se tornar conhecido mundialmente.

Como vocês viram, eu estava ao lado de Pelé na festa de lançamento do livro “100 anos de futebol arte”, ontem, na Vila Belmiro, e ouvi bem o que o Rei disse. Ouvi as frases inteiras e o contexto integral na qual foram ditas. Posso afirmar que o escarcéu que alguns estão fazendo com as afirmações de Pelé não só não se justificam, como assustam a qualquer pessoa de bom senso e de bem com a vida.

Como é impossível gostar de futebol e não gostar de Pelé, minha conclusão, lógica, é de que há muita gente trabalhando como cronista esportivo que deveria fazer outra coisa, pois não se sente feliz com sua atividade. Não vejo alegria em seus comentários, não vislumbro sorrisos, apenas dor, lamúrias, imprecações, parecem se martirizar ao falar do futebol brasileiro. Só se alegram, e aí babam na gravata, se forem escalados para um clássico ucraniano, ou esloveno, ou turco…

E também há muita gente autoritária e moralista, que quer ditar padrões de comportamento sem antes olhar para o próprio umbigo. É muito fácil criticar um ídolo intangível como Pelé quando não passamos de anônimos elevados à quinta potência da mediocridade, imensos zeros à esquerda na escala da fama. O prestígio incomensurável de Pelé deve doer profundamente nos seres invisíveis.

O que Pelé falou e como falou sobre Olimpíadas

Em um clima descontraído, com direito a responder a perguntas do repórter do programa humorístico CQC e de ser desafiado a vestir a camisa de Maradona – o que, felizmente, não fez –, Pelé brincou que o Brasil ainda não ganhou a medalha de ouro olímpica porque ele não disputou a Olimpíada. E falou sorrindo, mostrando que estava brincando.

Antes, porém, havia explicado, aí com seriedade, que na sua época os jogadores brasileiros mais jovens já se incorporavam à Seleção Brasileira principal, e, por serem profissionais, eram proibidos de participar dos Jogos Olímpicos. Com isso, enquanto o Brasil usava juvenis nos Jogos, os países do Leste europeu, que mantinham um profissionalismo marrom, jogavam as Olimpíadas com suas seleções principais.

Lembro-me bem da desigualdade da disputa. Uma Tchecoslováquia, vice-campeão mundial no Chile, entrava com sua força máxima na Olimpíada, enquanto o Brasil utilizava garotos com menos de 18 anos que ainda nem tinham atuado em equipes profissionais. A derrota era certa.

Pelé lembrou que não só ele, mas outros santistas, como Edu e Coutinho, foram convocados para a Seleção principal sem atingir a maioridade e não puderam mais atuar pela Seleção Olímpica. Quem ouviu a frase completa e a entendeu bem, percebeu que Pelé se referiu a toda uma geração de jovens craques brasileiros e não apenas a ele.

O que e como falou sobre Neymar e Messi

O assunto era sobre quem é melhor do que quem, e Pelé, depois de citar vários argentinos que já foram comparados a ele – Di Stefano, Omar Sivori, Diego Maradona –, falou de Lionel Messi e disse, sorrindo, que primeiro o argentino-espanhol terá de provar que é melhor do que Neymar, a quem Pelé considera apenas menos experiente do que o jogador do Barcelona.

Modéstia à parte, entendi perfeitamente o que o Rei quis dizer. O fato de admitir que hoje Neymar é menos experiente do que Messi, já deixou claro que, no momento, Pelé considera o argentino melhor. Porém, e aí está a chave da questão, Pelé alerta que ainda é cedo para uma análise definitiva entre os dois, pois Neymar é bem mais jovem (a diferença de idade entre ambos é de quatro anos, sete meses e 15 dias) e, aos 20 anos, já obtém melhores resultados do que Messi com a mesma idade.

Não há dúvida de que Messi vive hoje a melhor fase de sua carreira, mas foi preciso chegar aos 24 anos e 290 dias, quase 25 – que completará em 24 de junho – para atingir esse patamar. Por sua vez, Neymar tem apenas 20 anos e 65 dias e já se destacou em várias competições, é titular absoluto da Seleção Brasileira e considerado unanimemente o melhor jogador da América do Sul.

Não consigo encontrar nenhum absurdo no que Pelé falou. E ele, mais do que qualquer cronista que jamais chutou uma bola na vida, tem todo o direito de ver em Neymar talento e potencial para superar Messi.

Mesmo que estivesse errado, a afirmação de Pelé deveria suscitar entusiasmo na crônica esportiva brasileira, pois deve ser uma boa notícia saber que o melhor jogador do mundo pode estar sendo cultivado, novamente, no Brasil. Porém, lobistas raivosos do futebol europeu, muitos se irritaram com o maior jogador de todos os tempos. Ora, são assessores de imprensa de Messi?

Os amantes do bom futebol estão morrendo

Não consigo imaginar Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, Mário Filho, João Saldanha, Ney Bianchi, Thomaz Mazzoni e outros grandes jornalistas esportivos indignados com Pelé por ouvi-lo dizer que um brasileiro tem tudo para ser o melhor jogador do mundo.

Amantes do futebol bonito e das coisas do Brasil, esses saudosos mestres do bom texto e do bom senso dariam ao Rei o respeito que ele merece. E se contestassem seus argumentos, seria apenas com arte e elegância, jamais com grosserias. Chega a ser indigno ler o que algumas pessoas nascidas neste País escrevem sobre Pelé. Positivamente, não gostam de futebol. E se não gostam de futebol e nem de Pelé, gente boa é que não podem ser.

E você, o que achou da reação de alguns jornalistas às frases de Pelé?