Ontem o futebol paulista viveu mais um capítulo lastimável. Os dirigentes de São Paulo e Ponte Preta combinaram que não iriam colocar seus times em campo no gramado encharcado do estádio Moisés Lucarelli. Sim, havia chovido muito; sim, o campo tinha poças, mas nada que não pudesse ser resolvido se rodos fossem usados e furos fossem feitos para o escoamento da água. Porém, mais de uma hora depois de a chuva parar, ninguém tinha movido uma palha para melhorar a condição do campo, pois o objetivo evidente dos dois times era não jogar.

Então, o árbitro ouviu o apelo dos dirigentes dos clubes e resolveu adiar a partida, com a alegação de que um gramado assim “coloca em risco a integridade física dos jogadores”. Ora, jogar a 3.600 metros acima do nível do mar não coloca a vida dos jogadores em risco? E por que os jogos contra times bolivianos não podem ser cancelados? Por que não se dar a cada time que vai jogar em La Paz um tempo prévio de adaptação à altura? Ora, há riscos inerentes ao futebol, que é arriscado por si só. Manter o gramado encharcado para usar isso como alegação para o adiamento do jogo não é ético, é fugir das condições naturais do esporte.

O Santos já foi obrigado a jogar partidas decisivas em campos tão ruins quanto. Por exemplo? O primeiro jogo da semifinal contra o Bragantino, no Morumbi, pelo Paulista de 2007. O time mais técnico, que era o Alvinegro Praiano, obviamente foi prejudicado, e o jogo terminou 0 a 0. Mas ninguém se machucou. Na Europa, jogam até sobre a neve. Aqui, jogadores de futebol estão acostumados a jogar na chuva e no barro. Bem, não sei se os são-paulinos estão (ao menos Lucas e Casemiro creio que sim, pois ficaram decepcionados com a adiamento da partida).

Um detalhe inquietante é que o árbitro do jogo de ontem, que concordou prontamente com a reivindicação dos dirigentes de São Paulo e Ponte, é o mesmo Flávio de Oliveira, que no último confronto entre São Paulo e Santos decidiu a partida ao marcar um pênalti inexistente sobre Luis Fabiano e depois validar um gol de Lucas em impedimento.

Sorteio estranho escolhe Paulo César de Oliveira

Um amigo já me disse que quando há muita coincidência no futebol, é porque não é coincidência. O mesmo Flávio de Oliveira que ajudou o São Paulo no último confronto com o Santos, ajudou de novo ontem ao adiar a partida. E o San-São de domingo – outra coincidência? – será arbitrado por Paulo César de Oliveira, irmão de Flávio, que ganhou o sorteio da Federação.

Lembro-me que depois de um São Paulo e Guarani, em que chegou a ser vetado pela direção do tricolor, Paulo César demorou a atuar em jogos do São Paulo, mas, quando voltou a fazê-lo, nunca mais descontentou os diretores do clube de Vila Sônia. Espero que ele não atue preocupado com isso no domingo, ou é certo que, mais uma vez, o Santos pagará o pato.

Sei que no sorteio dos árbitros para o clássico de domingo a bolinha escolheu Flávio Rodrigues Guerra, mas este foi impugnado porque já tinha atuado na vitória do Santos sobre o Mogi Mirim, nas quartas. Outros três árbitros estavam impugnados e não podiam concorrer: Vinicius Furlan, Rodrigo Braghetto e Antonio Rogério Batista do Prado.

Fico aqui pensando por que Rodrigo Braghetto, que atuou tão bem no jogo Corinthians e Ponte Preta, de maneira isenta, sem ajudar o time grande, não poderia participar do sorteio, que acabou caindo no colo de Paulo César de Oliveira. Alguém duvida de que esse sorteio é muito bem dirigido?

O poder da arbitragem, porém, pode não ser decisivo

De qualquer forma, a influência da arbitragem é limitada. Se seu poder não tivesse limites, o Santos dos anos 60 não teria ganhado tudo. Nenhum árbitro será maluco de pender descaradamente para um lado, ou sua carreira irá para o lixo em apenas uma partida. O árbitro mal intencionado espera a oportunidade para agir. Se ela não lhe for dada, pouco poderá fazer. E mesmo que erre em um gol ou outro, não poderá errar em dois, três quatro…

Hoje, com os milhões de olhos atentos a uma partida de futebol, com a intensa mídia internética que acelera e multiplica as opiniões e com o infalível tira-teima, um árbitro tem de ser muito cara de pau e inconseqüente para entrar em campo com a intenção deliberada de ajudar um time, ou prejudicar outro. Pelo que conheço do Paulo César de Oliveira, ao menos caráter ele tem. Até que prove o contrário.

E você, acha que o jogo do São Paulo foi adiado corretamente?