Um estádio lotado com 50 mil santistas. Ou seriam fantasmas? (foto de Nazir Khayat)

Parece que para a Rede Globo de nada adianta o Santos ganhar títulos, ser considerado o melhor time do continente e ter os dois melhores jogadores do Brasil – Neymar e Ganso. Números divulgados pela BDO, uma das maiores empresas de auditoria e consultoria do País mostram que de 2010 para 2011 a diferença entre os valores anuais pagos pela Rede Globo a Santos e Corinthians tiveram um aumento de 19% a favor do alvinegro da capital.

Em 2010 o Santos recebia R$ 32,2 milhões, contra R$ 55 milhões do Corinthians, diferença de R$ 22,8 milhões, ou de 70%. Em 2011, depois do acordo sigiloso com os clubes, o Santos comemorou o aumento de sua cota para R$ 59,5 milhões, porém o alvinegro da capital passou a receber R$ 112,5 milhões, ou R$ 53 milhões a mais do que o Alvinegro Praiano – o que gera uma diferença de 89%.

Segundo a BDO, os cinco clubes que mais receberam dinheiro da Rede Globo em 2011 foram: 1 – Corinthians, R$ 112,5 milhões; 2 – Flamengo, R$ 94,4 milhóes; 3 – São Paulo, R$ 67,1 milhões; 4 – Vasco, R$ 65,6 milhões e 5 – Santos, R$ 59,5 milhões.

Uma estratégia contra a espanholização

Como já informamos e comentamos aqui, esse caminho proposto pela Globo levará o futebol brasileiro à espanholização. O aumento de cotas aos demais clubes foi enganoso, pois na verdade a diferença para o Corinthians aumentou. Sem equilíbrio nas cotas, não haverá competitividade e o futebol brasileiro caminhará para ter apenas um ou dois super times.

O mérito esportivo, ficou, definitivamente em segundo plano. De nada parecem valer os títulos ou os espetáculos proporcionados pelo Santos. Há uma reserva de mercado ao alvinegro da capital. O que ainda não se sabe é se ela é movida por motivos mercadológicos, ou essencialmente políticos, já que não tem havido uma diferença no ibope que justifique divisão tão desproporcional de cotas.

Pode parecer prematuro, mas pressinto que se os outros clubes não se unirem para uma atitude mais drástica, o abismo só aumentará cada temporada. É mais do que evidente que, sem sofrer alguma pressão, a Globo não mudará uma vírgula de sua filosofia.

Se Santos, Vasco, São Paulo, Palmeiras, Grêmio, Internacional, Grêmio, Cruzeiro, Atlético/MG, Botafogo e Fluminense, entre outros, não se unirem e obrigarem a se fazer um novo contrato, a Globo continuará cavando a cova deles todos.

Agora mesmo leio em outro site que a TV em questão não transmitirá jogos do Santos enquanto Neymar e Ganso estiverem servindo à Seleção Brasileira. Ora, ambos passarão quase metade do Campeonato Brasileiro servindo a Seleção e o Santos será punido por isso? Como se o Santos sem Neymar e Ganso fosse um time inferior aos demais que lutarão pelo título nacional…

Não é à toa que, domingo, as 50 mil pessoas no Morumbi fizeram um coro monumental contra a rede de tevê que domina a opinião pública brasileira. “Chupa Rede Globo/ É o meu Santos campeão de novo” gritaram santistas e todos aqueles que foram ao estádio a fim de apreciar um pouco da arte que resta ao nosso futebol.

Itália, Inglaterra e Alemanha são exemplos

Para provar que o sistema de divisão de cotas estabelecido pela Globo está ultrapassado e levará o futebol brasileiro ao caos, o amigo Douglas Aluisio enviou-me um e-mail com a tese de doutorado de Emanuel Junior que trata do assunto. Um trecho importante da tese diz o seguinte:

Em janeiro de 2007, a autoridade antitruste da Itália recomendou, em um relatório de 170 páginas, que o sistema de negociação coletiva fosse utilizado novamente para garantir mais competitividade.

Foi necessária uma intervenção estatal, via Ministério do Esporte, para que se procurasse um modelo de negociação coletiva com regras estabelecidas para uma divisão mais equânime destes recursos, que passará a ser da seguinte forma:

1. 40%: dividido igualmente entre todos.
2. 30%: de acordo com o desempenho no campeonato anterior (mérito desportivo).
3. 30%: baseado no tamanho da torcida.

Na Premier League (Inglaterra), liga de futebol de maior faturamento no Mundo, a negociação é coletiva e a divisão também é dividida em três partes:

1. 56% divididos igualitariamente entre todos os clubes.
2. 22% baseados na classificação final da temporada anterior.
3. 22% variáveis de acordo com o número de jogos transmitidos na televisão.

Esse modelo permitiu, por exemplo, que o Manchester United, campeão em 2008/09, tenha recebido 66 milhões de euros, enquanto que o Middlesbrough, penúltimo colocado, tenha encaixado 40 milhões (praticamente o mesmo valor que receberam os espanhóis Valencia e Atlético de Madrid).

Na Alemanha a negociação já é coletiva e a divisão é feita de modo quase que de igualdade absoluta. Fato que gera críticas por parte do todo poderoso Bayern de Munique, que se sente prejudicado diante de seus adversários europeus na Champions League.

Para termos uma noção da competitividade na Bundesliga basta olharmos para a tabela classificativa: há dez rodadas do fim do campeonato alemão, os seis últimos classificados são, todos, clubes que já foram campeões alemães pelo menos uma vez. O Wolfsburg, campeão em 2009, é o 14º (de 18 clubes); Werder Bremen, quatro vezes campeão (a última vez em 2004), é o 15º; Kaiserslautern, quatro vezes campeão (último título em 1998), é o 16º (antepenúltimo); Stuttgart, cinco vezes campeão (a última vez em 2007), é o 17º (penúltimo); e Borussia Mönchengladbach, cinco vezes campeão, dominador na década de 70 (seus cinco títulos foram naquela década, altura em que também conquistou duas Copas UEFA), é o 18º colocado, ou seja, o lanterna.

Já imaginaram tantos clubes campeões brasileiros juntos (e em uma mesma edição!) nas últimas colocações do “Brasileirão”? Impossível de se imaginar tal cenário, já que todos os campeões são membros do Clube dos Treze e, por isso, gozam dos já referidos privilégios.

Portanto, como se percebe pelos exemplos dados, negociação coletiva e divisão justa, que respeite a Isonomia, não são nada de outro mundo. São realidades constatáveis nas três ligas de maiores faturamentos do futebol europeu

Você não acha que os clubes devem agir contra a espanholização?