Sem Neymar, Ganso e Arouca, o Santos foi um time medíocre contra o Fluminense e mereceu perder. Isso foi dito e comentado neste blog e nenhum leitor me chamou de anti-santista por isso. Eles sabem que sou muito santista, mas se tiver de criticar, critico mesmo. Ontem a torcida do Corinthians ofendeu, em coro, o seu vice-presidente de marketing, Luiz Paulo Rosenberg, por ter dito que o alvinegro da capital é um time medíocre e que os corintianos não são mais torcedores do que os outros. Ora, um profissional tão inteligente como o Rosenberg, talvez o maior responsável pelo crescimento financeiro do clube, não tem o direito de expressar sua opinião?

Para quem não está informado, relembro que na terça-feira, em uma palestra para alunos do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), Rosenberb afirmou: “O Corinthians faz marketing em cima da torcida. Nosso time é medíocre. E não acredito que um corintiano seja mais corintiano que um palmeirense é palmeirense. Mas nós amamos amar isso. Esse conceito culminou na República Popular do Corinthians”, disse ele, lembrando a campanha criada por sua empresa que leva os torcedores de seu time a se sentirem parte de um país especial, como se fossem independentes do Brasil.

Ontem, contra o Figueirense, no Pacaembu, o time de Rosemberg, que jogou completo, mostrou a sua fragilidade ao empatar em 1 a 1 com o discreto Figueirense, que disputou a última meia hora da partida com um jogador a menos. Apesar da evidência de que o dirigente estava certo em sua opinião, boa parte dos 20 mil torcedores que foram ao estádio cantaram ofensas a ele, gritando: “Rosenberg, vai se f…, o medíocre nessa história é você!”; “Ô Rosenberg, seu falastrão. Quem é você pra falar do Coringão?”, ou ainda “Doutor, eu não me engano, o Rosenberg não é corintiano”.

Medíocre no sentido de mediano

O que ficou claro é que, longe dos holofotes, longe das frases calculadas das campanhas publicitárias e marqueteiras, o dirigente corintiano foi apenas sincero. É evidente que ele sabe que o torcedor corintiano é tão especial como o palmeirense, o santista e o são-paulino. Não há nenhuma diferença entre o fanatismo de um e outro. Sempre considerei, por exemplo, um mérito muito maior o do torcedor de time pequeno, que continua prestigiando sua equipe apesar de saber que ela dificilmente será campeã. É fácil torcer para um time que está toda hora na mídia.

Percebe-se que Rosenberg concorda que isso de “religião”, “nação” e “república” são apenas conceitos de marketing para fazer o torcedor de seu time se sentir especial (só acho que ele não precisava mentir com aquela bandeira dizendo que o alvinegro da capital tem 30 milhões de torcedores).

Por outro lado, o fato de ser campeão brasileiro no ano passado não impede que o Corinthians seja considerado um time mediano, pois os adversários ou também eram medianos, ou foram prejudicados por participar de duas competições simultaneamente, como está acontecendo agora com o próprio alvinegro paulistano, que luta para chegar à sua primeira final da Libertadores e ao mesmo tempo é o penúltimo colocado no Campeonato Brasileiro.

Ao sentir a repercussão de sua fala, Rosenberg explicou que usou o termo medíocre no sentido exato da palavra, que quer dizer “mediano”, mas apelar para o dicionário diante da paixão cega de seus correligionários não deu nenhum resultado.

A busca da paz é a busca pela aceitação das evidências

Não há dúvida de que a paz é mais sólida quando é baseada em fatos reais e quando, no caso do futebol, o torcedor tem consciência das limitações de sua equipe. Se este torcedor é levado a acreditar que seu time é imbatível, é óbvio que em caso de derrota se voltará contra seus jogadores e dirigentes, como se eles não tivessem se empenhado pela vitória. Porém, quando tem uma noção precisa das limitações técnicas de sua equipe, o torcedor aceita o resultado com maior tranqüilidade.

José Paulo Rosenberg fez mais para o Corinthians nos últimos anos do que a maioria dos jogadores do time. Mesmo assim, está sendo execrado por simplesmente falar a verdade. É contra esse fanatismo cego, contra essa manifestação xiita dos torcedores que as pessoas de bem do futebol devem se bater. A paz não está na ausência de discussões, mas sim, repito, na aceitação das evidências.

Vivi um tempo em que o torcedor paulista sabia admitir o mérito alheio. Como não respeitar um Palmeiras de Ademir da Guia & Cia, um São Paulo dirigido por Telê Santana, um Santos de Pelé, um Corinthians do doutor Sócrates ou mesmo uma Portuguesa de Enéas? Hoje parece que se vive de diminuir o adversário e engrandecer de maneira desmedida o time para o qual se torce.

O santista, isso eu percebo todos os dias, tem plena consciência das limitações de sua equipe e é o primeiro a admitir quando o time joga mal e não merece ganhar. Eu mesmo já usei o termo “medíocre” para definir o Santos em algumas vezes. Essa atitude sincera ajuda na busca por um time melhor e vencedor. Por outro lado, iludido pela opinião de comentaristas de tevê, o corintiano achava, ou ainda acha, que seu time é o melhor do Brasil.

Você acha que um dirigente deve admitir as fraquezas de seu time?