O contrato com o técnico Muricy Ramalho está vencendo e deve ser renovado por mais um ano. A diretoria do Santos e o técnico parecem satisfeitos com esse novo acordo, mas e o torcedor? Este, não está plenamente convencido de que o time que mais revelou jogadores e o que mais fez gols na história deve continuar com o mesmo treinador, de tendência defensivista e avesso ao trato com os garotos da base (este blog mantém uma enquete sobre o assunto na lateral direita. Se ainda não o fez, dê sua opinião).

Na verdade, Muricy tem qualidades e defeitos. Entre os seus méritos está o de fazer os times que comanda erguerem taças. De 2006 para cá São Paulo, Fluminense e Santos foram campeões com ele. Porém, suas equipes não jogam bonito, não fazem muitos gols, não revelam jogadores de expressão e têm como características muitos volantes e poucos atacantes.

No São Paulo Muricy foi tricampeão brasileiro adotando um sistema tático defensivo, com três zagueiros e cinco jogadores no meio-campo. Sua filosofia é primeiro arrumar a defesa, reforçando o meio-campo. Seus times não costumam jogar com mais de dois atacantes e usam a bola parada como uma das armas principais para chegar ao gol.

No Campeonato Brasileiro pode-se dizer que o técnico conseguiu levar equipes medianas ao título, mas jamais montou um grande esquadrão. A seguir, os elencos dos times campeões comandados por Muricy e a campanha que fizeram no Brasileiro:

2006 – São Paulo: Rogério Ceni; Fabão, Alex Silva e André Dias; Souza, Mineiro, Josué, Danilo e Júnior; Leandro e Aloísio. Campanha: 78 pontos; 22 vitórias, 12 empates e 4 derrotas; 66 gols feitos e 32 gols sofridos.

2007 – São Paulo: Rogério Ceni; Alex Silva, Breno e Miranda; Souza, Richarlyson, Hernanes, Leandro e Jorge Wágner; Dagoberto e Aloísio. Campanha: 77 pontos; 23 vitórias, 8 empates e 7 derrotas; 55 gols feitos e 19 gols sofridos.

2008 – São Paulo: Rogério Ceni; Rodrigo, André Dias e Miranda; Zé Luis, Jean, Hernanes, Hugo e Jorge Wágner; Dagoberto e Borges. Campanha: 75 pontos; 21 vitórias, 12 empates e 5 derrotas; 66 gols feitos e 36 gols sofridos.

2010 – Fluminense: Ricardo Berna; Mariano, Leandro Euzébio, Gum e Carlinhos; Diogo, Fernando Bob (Diguinho), Deco e Conca; Emerson (Rodriguinho) e Fred (Washington). Campanha: 71 pontos; 20 vitórias, 11 empates e 7 derrotas; 62 gols feitos e 36 gols sofridos.

Em compensação, fracassou em 2009, quando assumiu o comando do Palmeiras e perdeu o título ao ganhar apenas um ponto entre os 12 disputados com os times que estavam na zona de rebaixamento. No ano passado também não foi bem, levando o Santos a uma campanha lamentável.

Entusiasmo inicial. Depois, uma feia realidade

Muricy chegou ao Santos em abril de 2011, para substituir Adilson Batista, demitido, segundo o presidente Luis Álvaro Ribeiro, por não respeitar o DNA ofensivo do clube. Assumiu a equipe em meio a Copa Libertadores, deu um jeito na marcação, contou com Neymar em grande fase e obteve um título importantíssimo. Porém, depois, mesmo com tempo para trabalhar, não conseguiu dar um padrão de jogo aceitável à equipe.

A defesa passou a sofrer menos gols, mas o time também deixou de marcá-los. As contratações sugeridas por Muricy – Ibson, Renteria, Henrique, Borges – não deram certo e hoje o Santos é um time pior do que era quando o técnico começou seu trabalho.

Com dificuldade crônica de motivar e orientar jogadores jovens, Muricy pouco tem se valido dos novos Meninos da Vila, o que vai contra a filosofia do clube de continuar revelando jogadores. Percebe-se que não há um planejamento com relação à utilização desses garotos, que entram em jogos esparsos, mas nunca são utilizados com regularidade, o que impede que se firmem na equipe.

Sua aversão a técnicas e discursos motivacionais também não ajuda quando o elenco precisa de um chacoalhão. Com ele, o Santos é um time frio, o que é bom algumas vezes, mas em outras – como na final do Mundial de Clubes e na semifinal da Libertadores deste ano – parece apatia.

No Santos, Muricy já conquistou três títulos, o que dá a média admirável de uma conquista a cada seis meses. Tem vencido cerca de metade das partidas, empatado um quarto e perdido outro quarto. Não é, positivamente, um retrospecto ruim.

Resta saber qual é o objetivo do clube e o que a diretoria do Santos espera de um técnico. Se é ganhar títulos, até agora a média de Muricy é ótima. Se é fazer a equipe jogar ofensivamente e revelar novos Meninos da Vila, ele tem sido um fracasso.

Ruim com ele, pior sem ele?

O difícil de se trocar um técnico é que eles são uma incógnita. Há tantos fatores que influem no rendimento de um treinador, que a maioria dos clubes que vivem trocando de “professor” não chegam a lugar algum. Quase todos os técnicos brasileiros, na verdade, pendem mais para o defensivismo, ou acabam priorizando a defesa com o único objetivo de se manter no cargo por mais tempo.

Dos últimos técnicos que fizeram o Santos jogar pra frente, Émerson Leão, Vanderley Luxemburgo e Dorival Junior não estão em fases melhores do que Muricy. O que se pode deduzir também é que um técnico trabalha de acordo com o material humano que têm em mãos. Sem jogadores de habilidade é muito difícil adotar uma tática ofensiva.

Há pouca diferença entre os métodos e estratégias adotados pelos técnicos brasileiros, e não se justifica que alguns ganhem salários tão mais altos do que outros. A única novidade surgida no futebol é a volta do carrossel holandês jogado pelo Barcelona e pela Seleção da Espanha. O resto é mais do mesmo.

Fosse eu um diretor do Santos e não pagaria mais do que 300 mil reais para um técnico. E ele teria de ser inteligente, flexível e bom caráter. Um profissional assim, apoiado por uma diretoria de futebol eficiente e que realmente entendesse do assunto, montaria não só um grande time, mas um sistema de jogo planejado que envolveria também as divisões de base.

Quando um clube tem uma diretoria de futebol insegura, como o Santos, o técnico acaba tendo muitos poderes, mesmo que não queira. Isso já aconteceu na gestão anterior e está ocorrendo de novo. Como a filosofia de Muricy é colocar o time na defesa, hoje o elenco do Santos está recheado de volantes e defensores. E faltam atacantes no time que mais gols fez na história do futebol. É uma incongruência.

E você, acha que Muricy deve permanecer ou não no Santos? Por que?