Ué, mas ele falou? Não, não falou, mas deveria. E como fica muito chato só ler críticas à diretoria do Santos neste blog e não ler nenhuma defesa consistente, eu mesmo defenderei o Luis Álvaro. Sim, não se espante. Não é nenhum serviço de puxa-saquismo. Será apenas um exercício de lógica e racionalidade. Todos sabemos que as atitudes têm uma razão de ser. Então, vamos juntos, com a melhor das boas vontades, colocarmo-mo-nos no lugar do presidente do Santos e tentar entender o porquê de suas últimas ações, como renovar o contrato de Muricy Ramalho e Edu Dracena; trocar Elano por Miralles; não contratar Romarinho e Martinez; ignorar solenemente a oferta de Riquelme e aceitar, mais uma vez, o acordo com a TV imposto pela Rede Globo.

Usando essa notável capacidade humana que se chama empatia, vamos nos nos colocar no lugar de Luis Álvaro Ribeiro e responder às questões que hoje afligem o torcedor santista.

Blog do Odir (que doravante será designado pela sigla BO): Bem, comecemos pela renovação de Muricy. Se o técnico não consegue armar um time ofensivo, estilo que está no DNA do Santos, por que mantê-lo por mais um ano e meio? Se ganhava 700 mil reais por mês e renovou, então deve ter tido um aumento. Pergunta: Ele vale isso, presidente? Não seria melhor contratar um outro pela metade do preço e usar parte do dinheiro para trazer jogadores?

Resposta hipotética de Laor (que a partir da segunda intervenção será abreviada por RHL): O Muricy ganhou três títulos em um ano e meio, o que dá um título por semestre. Depois do Lula, que outro técnico teve um retrospecto desses no Santos? E ele não é defensivista, visto que há três meses o Santos era um dos times que mais tinha feito gols este ano. Ele está fazendo o que pode com o elenco que tem. Precisamos lhe dar mais recursos e estamos trabalhando nisso. Confiamos no Muricy e sabemos que ele ainda armará times vitoriosos.

BO: Sim, mas justo no campeonato mais longo, que dá mais tempo para se trabalhar, que é o Brasileiro, ele tem fracassado rotundamente. O Santos foi mal no ano passado e está péssimo este ano. Dos 11 jogos, só marcou gols em quatro. Por muito menos o senhor mandou o Adilson Batista embora…

RHL: Mas o Muricy tem mostrado resultados. Não adianta ficar trocando de técnico. Todo time que faz isso não vai a lugar algum. E neste Brasileiro o time está muito desfalcado. Além dos três na Olimpíada tivemos muitos casos de contusão.

BO: Mas se o Santos se orgulha de ser um grande revelador de jogadores, não deveria ter um técnico que goste de trabalhar com os jovens que vêm da base?

RHL: Não é questão de gostar ou não gostar. Se o jogador for bom, joga. Se o Muricy acha que o garoto ainda não está pronto, não pode colocá-lo no time e queimá-lo. É preciso ter paciência com os meninos.

BO: Se é preciso ter paciência com os meninos, se já se sabia que Neymar, Ganso e Rafael iriam para a Olimpíada, por que o clube não se planejou para este Campeonato Brasileiro? Por que o time se enfraqueceu tanto?

RHL: Além das contusões, tivemos de nos desfazer de jogadores que pouco rendiam, que nos custavam muito e que já tinham caído em desgraça com o torcedor. Vocês mesmos fizeram uma enquete neste blog e concluíram que Elano, Borges e Maranhão deveriam ser dispensados. Os três não estão mais no clube. Não era isso que queriam?

BO: Sim, mas não houve reposição à altura. Como dispensar um jogador sem a perspectiva de um substituto? Respeito sua opinião, mas para o torcedor ficou a certeza de que faltou planejamento. E quanto ao Edu Dracena, por que renovar por mais três anos com um zagueiro de 31 anos?

RHL: O Edu tem sido o nosso melhor zagueiro e vinha jogando muito bem este ano. Ele se cuida e com 34 anos ainda estará jogando bem e ainda mais experiente. O que aconteceu com ele foi uma fatalidade do futebol. Ninguém tem uma contusão séria dessas por querer. Acontece.

BO: Realmente, há coisas que são imprevisíveis. Agora, gostaria que o senhor nos explicasse a troca de Elano por Miralles. Deixa ver se nós entendemos bem: o Elano ganhava cerca de 440 mil reais por mês e estava jogando mal. O Santos queria se desfazer dele e trazer um jogador bom mas menos caro. Mas aí faz a troca pelo Miralles e concorda em continuar pagando metade do salário do Elano. Ora, mas metade do salário do Elano é 220 mil mensais. Somando-se com o salário do Miralles, cerca de 200 mil, chega-se praticamente ao mesmo valor que era pago ao Elano. Ou seja: foi como se o Santos simplesmente trocasse o Elano pelo Miralles. Será que não dava para negociar melhor a transação de um jogador que foi titular da Seleção Brasileira na última Copa? Quem é Miralles para ser trocado pau a pau com Erlano?

RHL: O Elano, como este blog mesmo denunciava, estava jogando bem abaixo do que pode, a ponto de em alguns jogos ser reserva do Felipe Anderson. Então, esperamos uma boa proposta por ele, mas ela não veio. Surgiu a oportunidade de trocá-lo pelo Miralles, que poderia ser um bom substituto para o Borges. Este Miralles já esteve nos nossos planos, no ano passado, e a torcida chiou quando o Grêmio o contratou antes de nós. Se ele vai corresponder ou não, não depende de nós. Jogadores de futebol vivem de fases.

BO: E por que a diretoria preferiu Bill a Romarinho e não trouxe Juan Martínez, mais barato, para depois trazer o Patito Rodríguez?

RHL: Do Bill teremos 100% do passe, do Romarinho teríamos uma parte. Por outro lado, vemos mais utilidade no Bill do que no Romarinho. O Muricy quer um jogador com presença de área e achamos que o Bill seria o cara. Quanto ao Martínez, o pai dele engrossou a negociação porque o filho cismou de ir para o alvinegro da capital. E ele não é nenhum garoto, daqui a três meses fará 27 anos. O Patito é bem mais jovem, tem 22 anos, mais técnico, e seu investimento não foi feito pelo Santos.

BO: O torcedor não entende como o Bill, que era o quarto reserva do alvinegro da capital, pode ser a solução para o Santos… Bem, mas e o Riquelme? Por que não contratar um meia de nível tão alto, que aceitaria vir para o Santos apenas pelo salário, e poderia ser o substituto do Paulo Henrique Ganso, que está de saída?

RHL: Em primeiro lugar, o Ganso não está de saída. Só sairá se pagarem a multa. Temos um contrato com ele até 2015. Quanto ao Riquelme, não consideramos que ele esteja no perfil do Santos. Está no fim de carreira e não se empenharia como o faz pelo Boca. Não nos interessamos. E se ele realmente estivesse disposto a vir por apenas 250 mil reais por mês, como a sua fonte informou, então deveria ter acertado com outro clube, mas não acertou com nenhum. Então, na prática, os valores eram bem maiores.

BO: Minha fonte assegurou que no caso do Santos ele viria por 250 mil reais por mês mesmo. Bem, mas o assunto mais relevante, para mim, é a relação dos clubes com a TV que detém os direitos de transmissão, hoje a Globo. Não acha que ao aceitar essa divisão desigual, que privilegia dois times e coloca os outros em um patamar bem inferior, os clubes, Santos inclusive, estão assinando, a médio prazo, a espanholização do futebol brasileiro?

RHL: Como você pode dizer que os valores são tão desiguais? Você teve acesso aos contratos? Isso que a mídia divulga por aí não é verdade. O Santos só recebe 18% a menos do que os que mais recebem…

BO: Não é isso que se sabe, presidente…

RHL: De qualquer forma, a divisão é feita pelo ibope e esses times que ganham mais realmente dão mais audiência. Fazer o quê?

BO: Mas esses dois não jogam sozinhos, presidente. Por que não unir os outros em torno de uma proposta mais justa, como a da Inglaterra, que divide o valor total da seguinte forma: metade para todos os participantes do campeonato, um quarto para os de maior audiência e um quarto para os mais bem colocados? Isso não valorizaria o mérito esportivo e não impediria que alguns clubes ficassem bem mais ricos do que os outros só porque têm mais torcida?

RHL: O Santos não poderia recusar o dinheiro da TV e tentar uma revolução na qual, provavelmente, ficaria sozinho e seria o único prejudicado. Isso tem de ser feito com calma, com a participação de todos, de modo que haja consenso.

BO: Há ao menos a idéia de começar a se conversar sobre isso?

RHL: Não.

E você, o que achou das respostas hipotéticas do Laor?