Nos tempos da ditadura no Brasil, em que muita gente era presa dormindo e ia parar nos porões do Doi-Codi, às vezes para nunca mais voltar, ouvi uma parábola de um colega da UEE, a União Estadual dos Estudantes, que servia não só para o Brasil, mas para qualquer regime totalitário, e mostrava bem porque é preciso reagir logo que o problema surge, pois depois pode ser tarde demais.

A historiazinha dizia que uma noite sumiu um sujeito do seu bairro, mas você não ligou, pois nem o conhecia direito. Depois, sumiu um cara da rua de trás. Você também não deu bola. Em seguida desapareceu alguém da sua rua. Até que um dia deram sumiço no seu vizinho e amigo de tantos anos. Então você foi dormir apavorado e ainda estava acordado quando bateram à sua porta…

Digo isso porque, segundo matéria do Uol, cinco clubes da Série A do Campeonato Brasileiro estão reclamando que nem foram procurados pela Rede Globo para prorrogar seus contratos de direitos de imagem. São eles Náutico, Ponte Preta, Portuguesa, Atlético Goianiense e Figueirense. Os outros participantes da Série A já têm contratos assinados no mínimo até 2015, com luvas que alcançam 30 milhões de reais. Mas estes cinco esquecidos têm contratos apenas para 2012, no valor de R$ 14 milhões.

Segundo o presidente da Portuguesa, Manuel da Lupa, equipes da Série B, “que segundo a Globo têm mais torcida, como Santa Cruz e Goiás, trabalham com contratos longos, com mais garantias”. Paulo Wanderley, presidente executivo do Náutico, acha que a Globo está querendo definir quem deve ficar na Série A. E Márcio Della Volpe, presidente da Ponte Preta, acha que “os clubes perderam o poder” e “quem define quem será competitivo é a tevê”.

Hoje a maioria dos clubes considerados grandes não está nem aí para o problema dos cinco rejeitados. Porém, assim como hoje a tevê nem conversa com os primos pobres, o que garante que amanhã outros clubes, hoje considerados grandes, não serão igualmente esquecidos?

Para mim é óbvio que a linha de corte será alcançada quando apenas dois times – que nós já sabemos quais são – somarem, juntos, mais de 50% dos torcedores brasileiros. A possibilidade de contentar a maioria dos telespectadores acertando contratos com apenas duas equipes é tudo que a tevê quer.

Se o futebol brasileiro não estivesse dominado pelos interesses escusos de uma política suja e corrupta, obviamente que o contrato da tevê com os clubes seria semelhante ao que ocorre na Inglaterra, com 50% da verba dividida igualmente entre os integrantes da Série A, 25% aos de melhor colocação no campeonato e 25% distribuídos pelos critérios de audiência.

Aqui, adota-se apenas o critério da audiência – que, pasmem, é baseada em um instituto de pesquisa cujo presidente está envolvido em casos de corrupção. Ou seja: o futebol brasileiro jogou o mérito esportivo no lixo para viver sob o jugo de suspeitíssimos conchavos e favorecimentos.

Será que os clubes grandes devem esperar até que batam às suas portas?