Isso ninguém vê – Estas quatro fotos foram tiradas do treino do Santos na sexta-feira. Havia outras idênticas, mostrando Neymar treinando chutes a gol várias vezes e de posições diferentes. Este, aliás, era um traço também de Pelé, o primeiro a chegar e o último a sair dos treinamentos na Vila Belmiro. Isso demonstra que o craque de verdade sabe que precisa se aperfeiçoar sempre. Então, o golaço de falta contra o Palmeiras, e mesmo o segundo gol, uma bola não tão forte, mas muito bem colocada, não foram frutos do acaso. Neymar trabalha para ajudar o dom que tem. Esta seria uma boa pauta para a imprensa esportiva, que com a reportagem mostraria aos jovens a face exemplar e edificante do ídolo, um garoto de 20 anos, milionário, mas que mesmo assim trabalha duro para se tornar cada vez melhor. Porém, a quem interessa mostrar o lado superior de Neymar, quando a fofoca e a maledicência dão mais ibope?

Já disseram que no Brasil fazer sucesso é o mesmo que xingar a mãe. Povo de caráter ainda em formação, nos agoniamos com a glória e a felicidade alheias. Perceba que os programas de maior sucesso na tevê são baseados na desgraça, na inveja, na maledicência. Ontem, com os dois gols da vitória santista contra o Palmeiras – que diziam ser o seu algoz – o Menino de Ouro deve ter provocado urticária em seus detratores, que agora ficarão quietinhos até que surja nova oportunidade de dirigirem o seu ódio contra quem comete o crime de são ser um brasileiro medíocre.

Mas, sejamos justos, esse mal não aflige apenas aos nascidos em nossa pátria. As vaias de alguns europeus mostram que mesmo nos chamados países de primeiro mundo há os mal amados, os fracassados crônicos. E outro dia li que um argentino comparou o futebol de Neymar às habilidades de uma foca.

Nem devemos levar em conta a opinião de um argentino sobre um futebolista brasileiro, mas esta me dá a oportunidade de uma análise mais profunda sobre o estilo de jogo de Neymar. Dizer que ele faz malabarismos e não sai do lugar é uma pequena parte da história que só os obtusos enxergam. Quem tentar ver o todo perceberá que a ousadia de tentar o drible que pode provocar a perda da bola é a mesma que pode abrir caminho para o gol, ou, o que tem sido mais comum, provocar a advertência ou a expulsão do adversário.

Por mais que pareça também artístico, é também matemático: em cada três tentativas de jogada individual, Neymar cria um espaço que pode levar ao gol. Portanto, mesmo que perca a bola de vez em quando, ainda assim terá sido mais útil ao time do que jogadores que ficam apenas trocando passes – que chegam a ir até a linha de fundo e recuam a bola para o meio-campo –, sem a confiança, a habilidade e a determinação de tentar um lance decisivo.

Personalidade, esta é a maior diferença

Por que o garoto pegou a bola na lateral-direita, enfrentou dois adversários da Universidade do Chile, passou por ambos e acabou sofrendo o pênalti? Por que, contra o Palmeiras, cobrou aquela falta lapidar e depois, com um toquinho sutil, empurrou a bola, de fora da área, para o cantinho da meta adversária, definindo a vitória santista? Proponho pensarmos juntos nessas respostas…

Por que tem muita habilidade? Ora, há muitos outros jogadores brasileiros com habilidade semelhante e raríssimos fazem jogadas geniais e decisivas a cada partida.

Por que teve sorte, já que jogadores comuns já criaram jogadas idênticas? Sim, mas enquanto um jogador comum faz uma jogada espetacular por ano, Neymar as constrói toda semana.

Veja que a explicação não está na habilidade ou na sorte, mas na vontade de fazer e na confiança de que tudo dará certo no final. Talvez possamos resumir esses atributos na palavra “personalidade”.

Será que Patito, André, Miralles, Bill ou Felipe Anderson também não poderiam fazer ao menos uma jogada como Neymar? Teoricamente, sim. Então, por que não fazem? Falta de habilidade? Talvez, mas não creio que seja apenas isso. Uma boa falta qualquer jogador que treine bastante pode cobrar. O que é necessário, mesmo, repito, é personalidade.

O que faz um jogador tentar o chute de fora da área, mesmo muito marcado, como no segundo gol contra o Palmeiras? É claro que é a confiança no seu chute, a certeza de que essa é a melhor jogada para o momento e que errar não será um bicho de sete cabeças. Por outro lado, o jogador inseguro prefere passar a responsabilidade para outro (por isso é que tenho esperanças no Felipe Anderson, que já marcou dois belos gols de fora da área nesse Brasileiro).

Neymar é um jogador em constante aprimoramento e está disposto a pagar o preço desse aprendizado. Ontem pesquisei nas fotos do último treino do Santos e descobri várias delas que mostravam Neymar chutando a gol de posições diferentes. Faz tempo que ele treina cobranças de falta e escanteio.

Não foi por acaso que o gol da vitória sobre o Corinthians veio de um escanteio cobrado “com a mão” na cabeça de Bruno Rodrigo, e que o triunfo sobre o Palmeiras começou com uma cobrança de falta que faria inveja ao mestre Marcos Assunção, outro ex-Menino da Vila.

Neymar não é apenas o maior salário dentre os jogadores do Brasil, mas também um dos que mais treinam, que mais trabalham para se aprimorar. É claro que este lado edificante – que poderia ser usado para motivar tantos jovens brasileiros também de origem humilde – é deixado de lado pela maior parte da mídia, pois o que vende, o que dá ibope, é a fofoca, a inventada futilidade de um garoto de 20 anos que é rico e feliz.

Os invejosos mostram-se fúteis e irresponsáveis ao tentarem impor a Neymar o perfil de que ele é fútil e irresponsável. Simples assim. Falam do próximo bem-sucedido sem olhar no próprio espelho.

Não fosse Neymar, hoje, e o futebol brasileiro seria um deserto de talento e ousadia. Que os verdadeiros amantes do futebol saibam agradecê-lo pelo exemplo, e agradecer também ao Santos por mantê-lo no País, recusando propostas que seduziriam qualquer outro clube nacional menos comprometido com a tradição do futebol brasileiro.

O duro é constatar que com Neymar, Ganso, o time completo, o Santos estaria brigando palmo a palmo pelo título brasileiro. Mais uma vez os interesses pouco explicados da Seleção Brasileira distanciaram o Alvinegro Praiano de uma conquista importante. Mas, tudo bem. Uma exibição de Neymar pode valer mais do que um título.

Veja os melhores momentos de Palmeiras 1 x Neymar 2:

http://youtu.be/7HUdA04jDGo

Minha mãe adora o Neymar. E a sua?