Antes de começar a entrevista coletiva de Muricy Ramalho em Recife há quem jure ter visto um rapaz com olhos penetrantes, cabelos negros e tez vermelhada colocar uma garrafa d’água de rótulo carmim bem ao lado do microfone, na frente do professor.

Cansado pela batalha que ele não lutou, Muricy ajeitou seu vasto abdômen e, suando, tratou de tomar uma belo gole daquela água tão convidativa. Dizem ter percebido um arrepio correr pelo corpo do treineiro antes de responder a primeira pergunta.

– Então, Muricy, a que você credita a derrota de hoje? – quis saber um repórter de Recife, com a voz meio desanimada de quem já adivinhava a resposta.

– Bem, como você acabou de ver, a derrota de hoje novamente se deve a mim…

– Co-co como? Engasgou o repórter, ao mesmo tempo em que os outros jornalistas e assemelhados se remexeram nas cadeiras.

– É o que eu falei, pô! Se o time tem onze jogadores, eu perco dois e não consigo armar uma equipe para ao menos empatar com o Sport, que briga para não ser rebaixado, a culpa maior é minha.

O silêncio avançou da sala de imprensa até as rádios e tevês. Por um momento pareceu que extraterrestres tinham sugado a energia da Terra. Mas um repórter, mais experiente, conseguiu se recompor e não perdeu o gancho…

– Em que aspectos você acha que errou, Muricy?

– Eu não acho. Eu sei que errei, pô. Há mais de um ano a gente já sabia que o Santos ficaria sem Neymar e Ganso. Era preciso ter planejado um time sem eles. E eu tive tempo para isso. Mas hoje vi que errei. Não consegui montar uma equipe competitiva. Sem Neymar o Santos é um time comum, bem comum, aliás – prosseguiu o técnico, sorvendo outro gole d’água.

A inesperada sinceridade de Muricy começou a animar os representantes da imprensa. Como se o jornalismo esportivo tivesse voltado aos seus bons tempos, um repórter do Jornal da Tarde teve coragem para fazer uma pergunta mais ousada:

– Se você coloca o Victor Andrade no final de um jogo que o Santos está perdendo, é porque acha que ele pode ajudar o time a empatar a partida, certo?

– Certo. Isso!

– Mas se você confia que um garoto de 16 anos, em poucos minutos, pode salvar o time, por que ele não é escalado desde o começo?

– Ótima pergunta e muito bem colocada – cumprimentou Muricy. – Realmente, eu deveria escalar o Victor desde o início. Mas aí entram outros fatores do futebol profissional que vocês não sabem.

– Quais são eles? – insistiu o perspicaz repórter do JT.

– Se eu ponho o Victor desde o começo e ele arrebenta, crio problemas para o clube e para mim. Primeiro, o Miralles e o Bill, que custaram uma fortuna, vão me pressionar para jogar. Ninguém quer ser reserva de um garoto de 16 anos. E outra é que o clube não conseguirá um bom preço para vender os dois reservas e mais uma vez o Santos perderá dinheiro ao negociar jogadores.

– Você quer dizer que às vezes escala um jogador mesmo sabendo que ele é pior do que outro? – perguntou um rapaz de rádio.

– Claro, pô! Todo técnico faz isso. Jogar melhor é apenas um dos critérios. Um técnico de futebol de alto nível, como eu, tem de levar muitas coisas em conta antes de escolher os titulares.

Incomodado, um homem de cabelos brancos, mais de 40 anos de imprensa, resolveu aproveitar a inacreditável sinceridade do treineiro do Santos e fazer a pergunta decisiva:

– Muricy, o que distingue um técnico que ganha mais de 700 mil reais por mês de um outro que recebe dez vezes menos?

– A grande diferença é a capacidade de dar desculpas. Veja que as minhas desculpas são mais convincentes. O time só tinha dois meninos em campo e eu digo que “os meninos” sentiram a pressão e nenhum de vocês me questiona. Vocês engolem tudo o que um técnico como eu e o Felipão falamos. Se não der para reclamar da falta de experiência dos meus jogadores, critico a arbitragem, reclamo da CBF que não liberou o Neymar e o Ganso e, em última instância, digo que a diretoria não contratou os jogadores que eu pedi.

– E ainda dá para dizer que muitos jogadores se machucaram ao mesmo tempo ou que os adversários se fortaleceram… – ajudou um integrante da assessoria de imprensa do Santos.

– Isso, bom menino – exclamou o treineiro olhando com ternura para o solícito Luís.

– Mas por que é preciso dar tantas desculpas? – quis saber o repórter do Sportv.

– Ora, porque se não o público vai descobrir que sou tão técnico quanto qualquer um de vocês. Na verdade, eu entendo mais de pescaria do que de futebol. Mas se o Santos resolver que não precisa ter um técnico famoso dirigindo o time, como poderei ganhar essa fortuna?

– Você não acha que seu salário é muito alto pelo que você faz? – arriscou a estagiária de um site.

– Acho, claro, mas me pagam. Você quer que eu peça para não me pagarem mais? – concluiu Muricy, com um sorriso, tomando o último gole da garrafa misteriosa.

Logo que o professor saiu, um dirigente do Santos correu até a garrafa d’água e suas suspeitas se confirmaram. Em letras pequenas, vermelhas e brilhantes, lá estava escrito: Truth Serum.

E aí, vai um gole d’água?