Amigos, nossa pátria teve um jornalista inteligente e sagaz que criou uma maneira irônica e corajosa de criticar as bobagens que se vê por aqui: o Febeapá, ou Festival de Besteiras que Assola o País, título de livros que publicou em 1966, 67 e 68, em plena ditadura militar. Pois bem, estivesse vivo, o saudoso Sergio Porto, que assinava Stanislaw Ponte Preta, teria material para enciclopédias inteiras só com as bobagens que se vê no futebol. No momento, poderia se deliciar com a discussão entre o Santos e os representantes do garoto Gabriel Barbosa, o “Gabigol”, para a assinatura de seu contrato profissional.

O menino foi descoberto aos oito anos por mestre Zito, que o viu atuar pelo São Paulo contra o Santos em uma partida de futsal e o levou, com família e tudo, para a Baixada Santista. Desde então o Alvinegro adotou os Barbosa.

Em campo, o rapaz tem correspondido. Meia-atacante goleador, há dois anos tem sido chamado regularmente para as seleções de base do Brasil. No momento tem patrocínio da Nike e já recebe salário equivalente ao de um profissional. Até agora, porém, sua fama se deve ao fato de ser um Menino da Vila e de estar sendo amparado e valorizado pelo mesmo clube que já revelou Pelé, Pepe, Coutinho, Robinho, Neymar, Ganso e tantos outros…

Ou seja, tudo o que Gabriel é hoje deve ao Santos. Em que outro clube um menino de 16 anos já teria tanto prestígio e geraria tanta expectativa? Pois bem. Só que apesar de tudo o que já fez pelo jovem e sua família, o Santos está tendo dificuldades para negociar esse primeiro contrato profissional de Gabriel e, se não tomar cuidado, corre até o risco de perde-lo. Por quê?

Porque no chamado “contrato de formação”, assinado na gestão do presidente Marcelo Teixeira, Gabriel recebeu 40% do próprio passe, e agora seu pai, Valdemir Silva Almeida, e seu empresário, Wagner Ribeiro (o mesmo de Neymar e Lucas), não querem abrir mão dessa porcentagem, que o Santos, representado por Fernando Faro, quer reduzir para 30%.

Parece brincadeira, mas o seu Valdemir Almeida e Wagner Ribeiro não estão satisfeitos com a proposta do Santos. Para Valdemir faltam acertar “detalhes” e para Ribeiro “existem divergências”.

Quer dizer que o time que formou o rapaz, que lhe deu guarida e apoio, pode ficar sem ele mesmo antes que ele se torne profissional? E quer dizer que esse vínculo, esses anos todos de estrutura e dinheiro no bolso não é levado em conta pelo pai do jogador? Ora, com todo o respeito ao seu Valdemir, mas que exemplo ele quer dar ao filho? O mesmo que o pai do Chera? Ou do Alemão? – outros jogadores que acreditaram demais no canto de sereia de seus empresários Luiz Taveira e Wagner Ribeiro e hoje estão comendo o pão que o diabo amassou? Ingratidão é algo que aqui se faz, aqui se paga.

E olhe que o Santos, que cuida do Gabriel há oito anos, não tem o direito de acertar com ele um contrato superior a três anos! Portanto, quando o rapaz tiver 19, o clube viverá esse drama novamente. Que tipo de legislação esportiva é esta que não protege o clube dos pais e empresários ambiciosos, mal-agradecidos e anti-éticos? O que ela contribui para a formação de jogadores, para a manutenção da imagem do Brasil como um formador de craques?

Enfim, Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, criador do famoso Febeapá, um jornalista carioca que trabalhava 15 horas por dia escrevendo para todas as mídias da época – e provavelmente por isso morreu de infarto, aos 45 anos –, hoje poderia se fartar de besteiras oriundas do nosso pobre, explorado e mal administrado futebol.

Quer saber mais sobre Sérgio Porto? Veja:

http://www.releituras.com/spontepreta_festival.asp

E você, o que acha dessas negociações do Santos com Gabigol?