Por Athos Pomerode

O que faz um time ser um falso vencedor é o mesmo que o torna um perdedor de verdade. O Palmeiras é o exemplo mais recente. O Santos, o exemplo mais gritante. Sim, meus prezados torcedores santistas, o Santos é um time vencedor de fato e o índice de dois títulos por ano, ao longo dos últimos três anos, não apenas ratifica isso, mas é trombeteado aos quatro cantos como o apogeu de uma geração de vencedores. Vencedor, mas um falso vencedor.

Um time vencedor não apenas ganha títulos com absoluta autoridade, como perde títulos por detalhes e porque o futebol, esporte dos esportes, nem sempre premia o melhor dos melhores, mas eventualmente torna vencedor um outro desse grupo de melhores. Um time vencedor é moldado pela unidade e pelo equilíbrio, pelo arranjo otimizado de todas as suas peças, pela harmonia singular do seu conjunto, pelo imperativo do coletivo. Não significa, de forma alguma, que individualidades não possam brilhar e brilhar muito, que um ataque ofensivo não possa compensar com louvor uma defesa exposta, que uma substituição bem articulada não possa alterar substancialmente o ritmo de um jogo, que uma estratégia tática não possa superar habilidades técnicas maiores de um adversário. Isso tudo faz parte do mundo do futebol, mas vale para uma, duas, três ou dez partidas, mas não para um campeonato inteiro. Neste caso, o triunfo final depende essencialmente da unidade, do conjunto, do coletivo e são estas as prerrogativas que fazem o sucesso ou o fracasso na forja de um time campeão.

Um time que é falso vencedor é moldado pelo gatilho das aparências, pela convergência estreita de tempos e/ou feitos individuais, condimentados por sorte, muita sorte. Mas é sempre uma gangorra desnivelada, um farol que sofre apagões inacreditáveis. Num dado momento, escala o cume do grupo dos melhores; para, em seguida, misturar-se anonimamente ao grupo dos coadjuvantes. Um time falso-vencedor vive de surtos de vitórias, mas é um time sem alma. E a regra geral, a mais comum de todas, é que o falso-vencedor é um time que se projeta num repente, como uma explosão de talentos ou circunstâncias, e não pela história de uma formação delineada e planejada ao longo do tempo.

O Santos é um time falso-vencedor, de diversas maneiras e por diversas razões. O Santos não se fez, foi feito em 2010, por uma singular conjugação de craques, tendo à frente uma dupla de talentos geniais como Neymar e Ganso. A Copa do Brasil foi a conquista mais óbvia de um time com veia de campeão. E veio mais, a conquista culminante da Libertadores. Ali, escancarada, já se postava a versão definitiva do time falso-vencedor, porque, na história da Libertadores, provavelmente nunca se teve e jamais se terá uma conquista tão amparada no talento individual de um grande craque como foi o Santos de Neymar em 2011. No paulista do mesmo ano, já tinha sido assim e voltou a ser na fase decisiva e final do campeonato paulista deste ano. É claro que, nestes títulos, o Santos ganhou partidas com Neymar não jogando bem ou mesmo sem Neymar, mas a exceção não exclui a regra geral e contundente: o Santos foi campeão porque tinha Neymar.

O Santos de Neymar é um falso-vencedor porque é um time comum sem Neymar. E a maior prova disso são os campeonatos brasileiros de 2010 a 2012, em que o Santos não passou (e continua não passando) de mero figurante, sem projeção alguma. Mas a maior exposição dessa cultura de aparências veio na fragorosa derrota para o Barcelona no Mundial, em que os conceitos de ‘time campeão’ e ‘falso campeão’ foram expostos em carne viva e a cores para todos os santistas. A pífia campanha no Brasileirão 2012 é a cereja sem gosto desta receita mal engendrada numa culinária sem classe e sem sal.

O Santos vai minguando aos poucos porque este é o destino incontestável dos times falsos-vencedores. Primeiro, porque nunca foi planejado, nem refeito quando perdeu peças importantes; segundo, porque premia o passado (é impressionante como o Santos se agarra à aposta de reviver a volta de jogadores do passado ao clube, como se os tempos fossem os mesmos, e como se cultuar ex-ídolos forjassem histórias de vencedores) e não aposta no futuro (uma base desprovida de atenção, avaliação e de comissões técnicas qualificadas); terceiro, porque aposta em técnicos caseiros ou em falastrões ultrapassados (Muricy é ocioso, e ociosamente bronco); quarto, porque não existe sincronismo de atividades, mas principalmente de atitudes, entre uma diretoria imatura e completamente passiva ante uma comissão técnica dormente, que devolve com cascalho o peso que recebe em ouro; quinto, porque não é um time completo e pronto, por não ter elenco e por contratar absurdamente mal, vivendo incondicionalmente a livre dependência das genialidades de Neymar.

Mas Neymar cansou. Muricy não engana mais ninguém. Bills e assemelhados não forjam times campeões. Robinho já não é mais a moeda fácil de troca para ludibriar os mais ingênuos e os mais incautos. Expirou a validade da orquestra e da claque do circo. O sonho acabou. E a saída é a mesma de sempre, desde que o futebol se impôs como atividade profissional: recomeçar. E recomeçar exige paradas e mudanças, análises e principalmente atitudes. Seria muito, muito bom, que hoje mesmo, tivesse início na Vila, o recomeço de uma longa história que voltasse a fazer do Santos, de Neymar e cia, um time vencedor, de corpo e alma. De corpo e alma, porque é assim, e somente assim, que se forjam os grandes campeões.

Você concorda com a análise do Athos? Como você classificaria a equipe do Santos atualmente?