Meus amigos, hoje jogar na retranca está na moda. Com essa estratégia os técnicos empurram seus empregos com a barriga, enquanto o futebol perde a magia. É duro sair do estádio sem poder soltar a garganta em um grito de gol. Há jogos que, antes de começar, você já sabe que será amarrado. No máximo 1 a 0, e olhe lá!

Perceba que a Seleção Brasileira só goleia equipes irrisórias, de jogadores que mal sabem andar em campo. É só pegar um timinho um pouco melhor, como essa medíocre Argentina, em que até o Guiñazu e o Barcos são titulares, e já perde, restringindo-se a um golzinho chorado. Mas o nosso Santos, o time que mais gols fez na história, não está nada melhor.

Parece que a sovinice do técnico Muricy Ramalho foi estendida até os times de base. O que vimos do Sub-20 no meio da semana decepcionou até os mais otimistas. Jogar pela vitória contra o Bahia, na Vila Belmiro, e não conseguir um mísero gol é preocupante. Cadê a fome de gol dos Meninos?

Que corram o risco de perder com gols de contra-ataque, mas que se joguem contra o adversário como um garoto brasileiro se joga em cima de um prato de feijão com arroz. Essa influência da retrancabilidade nas divisões de base vai acabar com a última qualidade que resta ao futebol brasileiro, que é a ânsia descomunal pelo gol.

Na era de ouro, time bom era o que marcava muitos gols

Hoje os torcedores estão sendo obrigados a engolir campeões que jogam na retranca, à espera de um ou outro lance de bola parada para tentar a vitória. Há não muito tempo, time que jogasse em casa e se defendesse, era vaiado pela própria torcida. Até os considerados pequenos eram forçados a avançar, e o resultado eram jornadas memoráveis.

Ao contrário do que ouvi outro dia de um jornalista do Sportv, as equipes campeãs não precisam ser, necessariamente, as de defesa menos vazada. Eu, e acho que a maioria dos santistas, gostamos do campeão que tenha, sempre, o ataque mais positivo. E isso era comum naquele Santos inigualável da década de 1960. Campeão paulista em 1960, 61, 64, 65, 67 e 69, em nenhuma dessas oportunidades o Alvinegro Praiano teve a defesa menos vazada.

Em 1960 o Santos sofreu 44 gols, um a mais do que o Corinthians. Só que marcou 100 gols, 43 a mais do que o então alvinegro do Parque São Jorge. Em 1961 o Santos sofreu quatro gols a mais do que o Palmeiras, mas marcou 31 gols a mais do que o alviverde. Em 1965 vazou 28 gols, contra 25 do Palmeiras, mas seu ataque marcou 93, contra apenas 55 do rival. Em 1969 a humilde Ferroviária deixou passar quatro gols a menos do que o Santos, só que o Alvinegro marcou 35 a mais do que o valente clube do Interior.

Marcante mesmo foi o Paulista de 1964, em que o Santos sofreu 47 gols, mais do que outros nove times do campeonato. Até os “pequenos” América de São José do Rio Preto (35), São Bento de Sorocaba (38), Ferroviária (41), Juventus (44), Guarani (46) e Comercial de Ribeirão Preto (45) tiveram defesas menos vazadas. Só que o ataque com Pelé, Pepe & Cia marcou 95 gols, 25 a mais do que o Palmeiras, o segundo colocado neste quesito, e o Santos chegou ao título com um saldo de 48 gols!

Há saídas para o defensivismo

Depois de tomar um baile de Pep Guardiola na final do Mundial de Clubes, Muricy Ramalho disse que o Barcelona jogava com sete jogadores no meio-campo e nenhum atacante. Bem, por aí se vê que o nosso professor não entendeu nada.

Na verdade, quase todos os jogadores do Barcelona são atacantes, estão voltados para o objetivo de se aproximar da meta adversária e marcar gols. Eles podem atuar na marcação, pois o time que não é solidário não vai mesmo a lugar algum, mas têm fundamento e filosofia de atacantes.

No Barcelona é possível ver um jogador teoricamente de defesa vir de trás e penetrar de surpresa na área adversária, derrubando a marcação contrária. Para isso, porém, é preciso que esse jogador tenha algum cacoete de atacante, não borre os pantalones na frente do goleiro e tenha uma qualidade mínima no chute e no cabeceio.

Agora eu pergunto: quando veremos o Adriano, o Henrique, ou mesmo o Arouca, se infiltrando na defesa inimiga para bater a gol? Será que isso não pode ser treinado? Será que estão tão pressionados para defender que não conseguem vislumbrar a possibilidade de atacar?

Na verdade, a criação de um time ofensivo começa na base e não depende só de fundamentos, mas de mentalidade, de ousadia e desprendimento. Um time que mantém a filosofia do ataque não pode se preocupar em estar o tempo todo atrás da linha da bola, como quer Muricy. Jogos que priorizam a defesa são chatos, amarrados, afastam o torcedor e só ajudam mesmo os técnicos, que com um empatezinho aqui, uma derrota ou uma vitória mínima ali, vão esticando seus contratos milionários.

Veja como este time jogava na retranca…

Em 1962, depois de vencer o Benfica por 3 a 2, no Maracanã, o Santos foi a Lisboa enfrentar o campeão europeu no Estádio da Luz, na época o maior da Europa. Como o empate lhe daria o título, seria normal que jogasse na defesa, não? Absolutamente não.

Nesta que foi talvez a partida mais importante de sua história – e na única oportunidade que um time sul-americano comemorou o título mundial no campo de um campeão da Europa – o Santos jogou com coragem e confiança, a ponto de chegar a uma vantagem de 5 a 0, depois diminuida para 5 a 2.

Essa partida, considerada uma das joias da época de ouro do futebol-arte, reuniu não só os dois times, mas os dois melhores jogadores daqueles tempos: Pelé e Eusébio. O Benfica, base da Seleção de Portugal que terminou a Copa de 1966 em terceiro lugar, ganhou dois títulos europeus e chegou cinco vezes à final da Liga dos Campeões na década de 1960. Esse era, portanto, um duelo de gigantes.

Acompanhe este histórico filme do Canal 100 sobre a final do Mundial de 1962, em que o Santos bateu o Benfica por 5 a 2, mostrando mais uma vez que a melhor defesa era o seu maravilhoso ataque:

E você, acha que fechar mais a defesa fez o Santos melhorar?