Estou perguntando porque tive de sair com a Suzana aos 20 minutos do segundo tempo, para um jantar com amigos. Até ali o Santos vencia por 1 a 0, com um gol chorado de Bruno Rodrigo no finzinho do primeiro tempo, mas o jogo estava feio. O time não dava seqüência às jogadas, mal acertava três passes seguidos e eu mais uma vez não conseguia entender muitas coisas. Por exemplo:

Se o jogo não valia nada e se o Santos não tem dinheiro para contratações, como o técnico Muricy Ramalho já disse, por que ele não aproveitou a partida para dar experiência a jogadores vindos da base?

Se o jogo não valia nada, e se a vitória ou a derrota pouco importavam, por que Muricy não criou coragem e entrou com uma formação mais ofensiva?

Por que jogar com três volantes contra uma equipe que não só é a lanterna do campeonato, como já está rebaixada e nem tinha a maior parte da torcida no estádio?

Eu olhava os pobres jogadores do Atlético Goianiense e tentava reconhecer alguém. Não consegui. São um bando de anônimos, cuja folha de pagamentos não deve pagar o salário de Muricy Ramalho. Então eu pensei: como o Santos só está ganhando de 1 a 0 deste time? Como não está criando mais chances de gol?

Em um momento vi Rafael defender uma bola cruzada. Havia uns cinco ou seis jogadores do Atlético Goianiense dentro, ou próximos da área do Santos. Ou seja: só quatro estavam no restante do campo. Era a oportunidade de um bom contra-atraque. Mas Rafael, muito inseguro para repor a bola, deixou o tempo passar e só deu o seu tradicional chutão para frente depois que o Atlético já estava postado na defesa. Aí eu perguntei a mim mesmo: por que esse goleiro não treina reposição de bola? Por que não perde esse vício de fazer cera até em jogos que não valem nada, contra adversários inexpressivos?

Eu via aquele monte de gente com camisas do Santos, via as crianças, as meninas com cartazes em homenagens a Neymar; eu sabia que os pais de Felipe Anderson estavam vendo o jogo e ficava me indagando: quando vai sair uma grande jogada que alegre essa gente toda? Quando eles verão lances que os farão sentir orgulho de serem santistas?

Não havia nem mesmo uma seqüência de passes certos. Corria-se um pouco pela esquerda, e logo Gérson Magrão ou Arouca perdiam a bola; tentava-se algo pela direita, e Galhardo e Felipe Anderson também não conseguiam nada melhor. André era quase nulo e Neymar tentava dar um show à parte, mas desta vez mais se atrapalhava com a bola do que conseguia produzir algo útil. Por que será que aquele mesmo time que havia goleado o Cruzeiro de repente parecia tão desentrosado?

Tentei, mais uma vez, entender por que o presidente do Santos, Luis Álvaro Ribeiro, disse que renovou o contrato de Muricy Ramalho por mais dois anos com um sorriso de orelha a orelha. Por que o presidente teria ficado tão feliz ao obrigar o clube, que pelo jeito já não tem muito dinheiro, a pagar mais de R$ 700 mil por mês a um técnico tão limitado, presunçoso, retranqueiro e cabeça dura?

Não é muito mais inteligente pagar um salário bem menor ao técnico e destinar o resto do dinheiro a um jogador de verdade? Como se sabe que sem ovos não se faz omelete, por que não investir nos ovos? De que adianta ter um grande mestre-cuca, que nem é o caso de Muricy, se a despensa está vazia?

Muricy opta pelo “futebol de resultados”, mesmo feio. E é tão teimoso que continua fechando o time mesmo quando o adversário é pouco mais do que ninguém. Com esta filosofia defensivista, de quem tem medo até da sombra, ele sujeita o Santos a perder de equipes medíocres, e perder jogando mal, sem inspiração e alegria, o que causa no torcedor uma das piores sensações possíveis. Se era para perder, por que não escalar um time mais corajoso?

No iPhone, a notícia que não entendi

Em uma brecha no jantar, puxei o iPhone, descobri o Wi-Fi do restaurante e pesquisei no Google para saber o resultado do jogo. Li uma e duas vezes, para acreditar. O rebaixado Atlético Goianiense tinha virado nos últimos minutos. Tentei imaginar como seria possível perder para aquele time, naquelas circunstâncias. Não consegui. Confesso que nem tive apetite para a sobremesa.

Reveja os gols de Atlético Goianiense 2, Santos 1:

Agora, por favor, você pode me explicar como o Santos, com o time completo, perdeu, de virada, para o rebaixado Atlético Goianiense?