Reconheço que democracia é uma palavra bonita e doce, que sai fácil dos lábios de muitos que querem agradar. Mas, para ter valor, ela precisa representar um desejo sincero, uma vontade autêntica. Quanto à necessidade da participação maior da torcida do Santos nas decisões do clube, é um anseio que tenho há décadas, talvez desde quando entendi melhor o futebol.

Se é o torcedor que movimenta o negócio, por que não é ouvido pelos clubes? Nunca aceitei a estrategia dos dirigentes esportivos que se elegem prometendo mundos e fundos ao torcedor e depois se tornam ditadorezinhos. Na verdade, é uma questão de caráter. Já conheci dirigente de espírito democrático.

E também é possível encontrar um líder autoritário que faz as coisas certas, ou quase. Mas a democracia é, quase sempre, melhor, pois consegue que as pessoas se sintam mais motivadas, já que são incluidas no jogo. E mais gente pensando e trabalhando por uma causa invariavelmente é mais produtivo do que meia dúzia de gênios decidindo por todos.

Este foi meu tema no mural do Jornal da Tarde, há 35 anos

Tenho na minha frente uma matéria de página inteira, publicada no Jornal da Tarde em 10 de agosto de 1977, portanto há mais de 35 anos. Eu era um foca que tinha saído da Editoria Geral e estava no Esporte, ao lado de feras como Sérgio Baklanos, Edison Scatamacchia, Flávio Adauto e Roberto Avallone.

Chamado a participar, pela primeira vez, do “Mural do Esporte”, última página daquela edição, não tive dúvidas: abordei o fato de a torcida do Santos, uma das mais presentes nos estádios naquela época, não ser ouvida pela diretoria do clube com relação à compra e venda de jogadores.

O Santos tinha se classificado para o terceiro turno do Campeonato Paulista devido ao critério discutível das rendas. O Morumbi vivia lotado de santistas. Mas, como sempre, sua diretoria, presidida por Modesto Roma, não dava bola para o torcedor: vendia e comprava jogadores a seu bel prazer. Endividado, em crise técnica, o Alvinegro Praiano só seria salvo no ano seguinte pelos Meninos da Vila.

Eu era o mais novo naquela afamada equipe de esportes, mas não tinha nenhum problema de demonstrar minha paixão pelo Alvinegro Praiano. Ela não impediu, aliás, que eu cobrisse com profissionalismo e empatia o São Paulo do técnico Rubens Minelli, campeão brasileiro de 1977; o Palmeiras de Mário Travaglini e o Corinthians do técnico Duque. Eram tempos mais puros, em que a política e a tevê não tinham lançado seus tentáculos de aço sobre o futebol. Havia rivalidade, claro, mas com muito mais respeito do que hoje.

Veja a apresentação do Mural, escrita por Roberto Avallone, a ilustração dos participantes (eu com a camisa do Santos) e o meu artigo. Sim, pode dizer que ouvir o torcedor é uma obsessão para mim.

É uma loucura gerenciar um clube pela vontade de seus torcedores?