Sou Cunha, portanto tenho um pé lá na terrinha e nutro alguma simpatia pela Portuguesa, mas até os torcedores mais fanáticos da Lusa estão a rir desta última pesquisa do Datafolha que coloca empatadas, no 12º lugar, as torcidas do campeão brasileiro Fluminense; do popularíssimo Bahia e dela, a humilde e batalhadora Portuguesa, as três com 1% dos torcedores do Brasil.

A divulgação da pesquisa gerou até uma resposta – muito bem educada, por sinal – do jovem e competente presidente do Bahia, Marcelo Guimarães Filho, que depois de expor fatos e argumentos irrefutáveis a respeito da grandiosidade da torcida bahiana, terminou com o parágrafo lapidar:

“O Esporte Clube Bahia espera que o Datafolha aprofunde os seus métodos de pesquisa na próxima vez em que for abordar este tema, para que o resultado não fique tão longe da realidade, o que acaba arranhando a imagem e credibilidade desta nobre instituição”.

Sim, vamos torcer, presidente, para que as próximas pesquisas tenham resultados menos absurdos, mas não estou nada otimista. Não se vê nenhuma pesquisa repetir o resultado de outra, ou ao menos ser coerente com outra. A cada uma realizada por estes institutos, grandes surpresas nos esperam.

Falta muito mais abrangência nessas pesquisas

Nesta última pesquisa a Datafolha diz ter consultado 2.588 pessoas, de 160 cidades brasileiras. Isso quer dizer que ouviu 0,001% dos habitantes do País, que moram em 2,7% das cidades brasileiras. Ou seja: das 5.565 cidades do território nacional, 5.405 não tiveram uma viva alma ouvida nessa pesquisa.

Dizem que o grande obstáculo para uma pesquisa de torcidas mais abrangente é o investimento necessário, pois para se consultar moradores de mil cidades seria necessário mais de um milhão de reais. Mas, se é para fazer de uma maneira precária, como tem sido, é melhor não fazer nada – até porque esses resultados distorcidos acabam sendo utilizados espertamente pelos clubes beneficiados.

Os que defendem essas pesquisas dizem que são “científicas” e por isso conseguem, de um microscópico estrato da população e dos municípios, traçar com perfeição o quadro geral de um país continental como o Brasil. Porém, só o fato de chegar à conclusão de que as torcidas de Fluminense e Bahia têm o mesmo tamanho dos aficionados da Portuguesa já mostra que há algo de muito errado nesse método.

Para mim, devido às particularidades do povo de cada região deste País, das características próprias de cada cidade, é impossível dar uma idéia geral das preferências do brasileiro consultando um universo tão pequeno de pessoas. Muitos fatores podem fazer com que habitantes de cidades próximas, de mesma classe social, idade e poder econômico, tenham preferências diversas.

Para melhor elucidar o que estou dizendo, lembrarei uma recente pesquisa da própria Datafolha, sobre a mesma questão das torcidas de futebol, desta vez nos bairros de São Paulo: divulgada este ano, a pesquisa mostra que no bairro de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste da Capital, o Santos tem 11% dos torcedores (1% a mais do que o Palmeiras, 1% a menos do que o São Paulo), e em dois bairros contíguos, Penha e São Miguel, têm 7%. Ora, como explicar uma queda de 36,3% em uma região com as mesmas características de população? Ou, como explicar que haja tantos mais santistas em Ermelino Matarazzo?

Bem, cada cidade, bairro, vila ou aldeia deste País, como eu disse, tem um comportamento e uma história que nem sempre é similar ao comportamento e à história de seus vizinhos. Que fato, que situação, fez com que o número de santistas fosse maior em Ermelino Matarazzo não se sabe, mas o fato é que essa foi a constatação da pesquisa do Datafolha, que ouviu 25.534 moradores da cidade de 11.316.000 habitantes entre 5 de maio e 10 de agosto.

A importância da Timemania como pesquisa de torcidas

Em 2012 a Timemania teve, até o sábado passado, dia 15 de dezembro, 125.217.741 apostas. Cada apostador, como se sabe, marcou no volante o seu “time do coração”.

Não se sabe quantas pessoas participaram da Timemania em 2012, mas em um único teste, o de número 376, de sábado, jogaram 776 mil pessoas.

Pesquisas da Caixa Econômica Federal com relação à Mega Sena demonstram que mais de 98% dos apostadores preenchem apenas um cartão. Acredito que a porcentagem de apostadores únicos da Timemania seja a mesma, ou maior.

Há dois anos, 62,8% das 5.565 cidades brasileiras tinham casas lotéricas. Tudo indica que essa abrangência aumentou, pois o número de casas lotéricas saltou de 9.000 para 11.321 no período.

Em 2010 e 2011 a ordem dos seis times mais votados na Timemania continuou a mesma. Em 2012 houve duas mudanças – sobre as quais falarei a seguir – mas o grupo continuou o mesmo.

Dentre os argumentos de quem teima em negar a importância da Timemania como termômetro do real tamanho das torcidas nesse continental Brasil, há o de que boa parte das apostas é decidida por pela “surpresinha”, na qual o apostador deixa o computador escolher seus números. Sim, mas antes o apostador já escolheu o seu “time do coração” e isso explica porque a ordem dos clubes mais votados não tem sofrido alteração, ano após ano.

Outro argumento dos opositores é que a Timemania revela apenas o percentual de apostadores entre os idosos, pois, segundo eles, esta faixa de público é a que mais se utiliza de jogos lotéricos. Bem, esta é apenas uma meia verdade, pois, segundo a Caixa, 25,4% dos apostadores brasileiros têm 55 anos ou mais, ou seja, apenas um quarto do total.

Por outro lado, só mesmo pessoas ignorantes e preconceituosas podem considerar brasileiros com mais de 55 anos inferiores, ou afastados dos destinos das instituições. É nesta fase da vida que as pessoas são mais cultas, ponderadas, civilizadas e, geralmente, ocupam cargos mais importantes na sociedade. Para quem não sabe, a média de idade do brasileiro acaba de alcançar 74 anos e 29 dias e é entre os chamados idosos que estão os líderes e as pessoas mais relevantes deste País.

Números coerentes com a realidade do nosso futebol

O que faz com que muitos desconfiem dos resultados das pesquisas dos institutos é que, mesmo adotando, supostamente, os mesmos métodos científicos, jamais chegam a resultados similares, quase sempre apresentando discrepâncias inexplicáveis, como este empate entre as torcidas de Fluminense e Portuguesa.

Na Timemania, ao contrário, as evoluções são quase imperceptíveis e obedecem a fatores mais palpáveis, que parecem se basear na popularidade anterior de cada agremiação, mas também leva em conta a fase que o time atravessa. Você não verá, na Timemania, um time em ascensão, com títulos e ídolos, ver o seu percentual de torcedores diminuir, assim como não será surpreendido por porcentagens exageradas para equipes que andam brigando contra o ostracismo.

Revelarei, agora, o resultado do teste de sábado. Antes, porém, gostaria de checar o seu feeling, prezado leitor e prezada leitora: você acha que diante dos últimos acontecimentos, o Corinthians, segundo colocado, estaria mais perto do Flamengo, o líder, mesmo um dia antes na final do Mundial de Clubes? E quanto à briga de Santos e São Paulo pelo terceiro lugar, você acredita que com o título da Copa Sul-americana e as últimas boas exibições do Tricolor, ele superou definitivamente o Santos? E com relação a Palmeiras e Grêmio, que disputam o quinto lugar, quem será que ficou na frente no teste de sábado?

Bem, você já sabe as respostas, porque são lógicas. O Corinthians teve 43.664 apostas como o time do coração e ficou com 5,62% das apostas, apenas 0,13% abaixo do Flamengo, com 44.686 apostas. O São Paulo assumiu o terceiro posto, com 3,77%; o Santos está em quarto, com 3,60%, seguido por Grêmio, com 3,35% e Palmeiras, com 3,20%. Depois, até o décimo, seguem, pela ordem: Vasco da Gama, 3,10%; Internacional, 3,02%; Fluminense, 2,76% e Botafogo, 2,62%.

Note, porém, que o resultado de um único teste é o instantâneo do momento, que pode ser influenciado pela euforia dos vencedores e a depressão dos vencidos. Por isso, prefiro valorizar mais o resultado que mostra a posição dos times ao longo de todo o ano, ou, como define a Timemania, o “acumulado”.

Pelo retrospecto geral em 2012 só há uma mudança de posição com relação ao último teste: o Palmeiras ocupa o lugar do Grêmio na quinta posição, e o clube gaúcho cai para sexto. Não há qualquer surpresa desde que se analise o ano todo e não apenas o resultado final do Campeonato Brasileiro. Não se pode esquecer que neste ano o Palmeiras foi campeão invicto da Copa do Brasil, conquistando o seu primeiro título nacional após uma década de infortúnios.

Confira os times preferidos dos apostadores da Timemania em 2012

1º FLAMENGO 5,80% 6.624.991 votos
2º CORINTHIANS 5,60% 5.969.075
3º SAO PAULO 3,80% 4.493.437
4º SANTOS 3,60% 4.397.880
5º PALMEIRAS 3,20% 4.052.811
6º GREMIO 3,40% 3.914.036
7º VASCO DA GAMA 3,10% 3.788.776
8º INTERNACIONAL 3,00% 3.564.018
9º FLUMINENSE 2,80% 3.262.373
10º BOTAFOGO 2,60% 3.236.101
11º CRUZEIRO 2,20% 2.910.504
12º ATLETICO 2,30% 2.853.302
13º BAHIA 2,20% 2.553.664
14º FORTALEZA 1,80% 2.268.664
15º GOIAS 1,50% 1.845.687
16º VITORIA 1,50% 1.845.581
17º CORITIBA 1,20% 1.724.565
18º CEARA 1,30% 1.722.566
19º ABC 1,60% 1.663.901
20º AMERICA 2,50% 1.552.700

E você, acha que as torcidas de Fluminense e Portuguesa têm o mesmo tamanho?