A imprensa catalã divulgou com estardalhaço, e jornalistas do mundo inteiro repercutiram sem pensar, a informação de que Lionel Messi bateu o recorde de gols de Pelé em uma temporada. Como a notícia, mesmo para quem acompanha o futebol superficialmente, parece inverossímil, ela vem acompanhada com uma errata, ou melhor, uma explicação: só foram contados os gols em “jogos oficiais”. Com 91 gols, Messi teria marcado 16 a mais do que Pelé, que em 1958 marcou 75 “oficiais”.

Excluir os jogos “amistosos” da carreira de um jogador que atuou até a década de 1970 é o mesmo que ceifar dessa carreira de alguns de seus momentos mais grandiosos. Pois o que hoje se entende como “amistoso”, quase um jogo-treino sem importância, antes podia significar duelos lendários, que ficavam definitivamente para a história.

Em 1959, por exemplo, ano em que marcou 101 gols, Pelé foi o autor de quatro tentos na vitória impagável sobre a Internazionale, no Torneio de Valência, por 7 a 1. Você chamaria uma partida contra a Inter de Milão “amistosa”?

E em 1961, quando Pelé chegou à marca, esta sim um recorde, de 110 gols na temporada, dois deles foram confeccionados na faiscante decisão do Torneio de Paris, na qual o Santos enfrentou o Benfica, campeão europeu, e goleou por 6 a 3.

Por que adversários consagrados como Internazionale e Benfica têm de ser deletados da contagem de gols de Pelé, enquanto equipes inexpressivas, como Malaga, Getafe, Zaragoza e quetais merecem ser incluídas entre as generosas adversárias do Barcelona de Messi? Por que a imprensa catalã quer? Ou porque no idiotizado mundo das estatísticas, estes últimos têm o privilégio de participarem de “jogos oficiais”?

Jornalismo estatístico x textos com alma

Hoje vivemos a predominância do jornalismo estatístico, em que o bom texto, os parágrafos sonoros, pensados, com ritmo e estilo, raramente são encontrados. Não há quem os faça e é muito mais fácil usar os números como muletas.

Os números fazem parte do futebol, é certo, mas há poucas técnicas que mais distorcem a verdade do que a estatística, ainda mais quando esta analisa apenas pequena parte do todo. Sempre haverá aquele quem, em uma competição, ou em um aspecto particular, faça mais gols do que Pelé, pois o Rei do Futebol, e os estatísticos têm dificuldade de perceber isso, não era uma simples máquina de fazer gols, mas sim um artista que também fazia gols.

O problema dos deformadores da verdade histórica é que eles geram um bando de leitores idiotizados, cuja única fonte de consulta são esses blogs e sites repletos de falsidades que se vê na Internet. Receptivos a qualquer informação que justifique seus sentimentos mais baixos – como o ódio e a inveja –, esses leitores, por sua vez, espalham sandices pelo éter que sempre encontram uma terra podre em que frutificar. Veja o comentário que encontrei abaixo de um post do Globoesporte com o título “Melhor do que Pelé?”:

Santos de Pelé foi o melhor time do Brasil na era do futebol amador, mas disputava torneios exibição sem valor algum. Aqui no Brasil os times eram formados de trabalhadores, não tinha(sic) condições de viver de futebol. O Santos tem uma historia nesta fase e foi importante para o torcedor, mas mesmo assim não deixou de ser amador. Fazer 200 gols no ano era facil.

Como se sabe, o amadorismo começou no Brasil em 1933 e Pelé jogou no Santos até 1974. 41 anos de diferença entre o fim do amadorismo e o fim da era Pelé no Alvinegro Praiano! E o autor desse comentário acima diz e repete que o Santos e o futebol brasileiro eram amadores nos tempos de Pelé… E afirma que fazer 200 gols no ano era fácil!!! O pior é que sempre haverá um leitor mais idiota ainda que acreditará nessas imbecilidades. Felizmente não tenho esses tipos aqui no blog…

O que é essencial saber sobre Pelé e Messi

Os méritos de cada um dos dois são indiscutíveis e não sou em quem os tirará. Porém, há diferenças fundamentais que me fazem afirmar que o tempo tornará Messi apenas mais um dos que foram comparados a Pelé, como tantos outros antes, sem, entretanto, superar o Rei.

Mesmo os estatísticos terão de admitir que, ao se analisar o todo, ficará impossível fazer tal comparação. Pelé chegou aos 500 gols aos 21 anos e 10 meses, Messi tem 25 anos e seis meses e nem alcançou a metade. Pelé foi nove vezes consecutivas artilheiro de uma das competições mais difíceis da época – o Campeonato Paulista de Futebol –, em que o Santos tinha de se bater contra adversários de tradição, como São Paulo, Corinthians e Palmeiras.

Pelé foi três vezes campeão de uma Copa do Mundo e participou de quatro delas, marcando em todas. Fez dois gols na final de 1958 e um na decisão de 1970, quando também deu assistências para outros dois gols. Também foi duas vezes campeão mundial pelo Santos, marcando três gols e dando uma assistência na final de 1962, contra o Benfica, em Lisboa.

Para se igualar a Pelé no quesito desempenho em Copas do Mundo – essencial para se avaliar a carreira completa de um jogador – Messi terá de vencer as próximas três Copas e ser decisivo em ao menos duas delas, mantendo o mesmo rendimento até os 35 anos.

Outro aspecto, para mim fundamental, é a versatilidade técnica. Por que Roger Federer passou a ser considerado o melhor tenista de todos os tempos? Por que, além das estatísticas, é um jogador completo, que domina todas as técnicas do jogo. Ou seja: faz tudo, e bem. Conhece os golpes e seus efeitos, pode jogar tanto no fundo da quadra, como na rede, tem ótimo condicionamento físico, excelente mobilidade, é tranqüilo nos momentos decisivos…

Passe as qualidades de Federer para o futebol e só Pelé preencherá todos os atributos. Rápido, capaz de correr 100 metros em 11 segundos com a bola colada aos pés; dono de uma impulsão espantosa e uma técnica de cabeceio primorosa; autor de uma matada de peito que se tornava um drible, pois deslocava o zagueiro e preparava a bola para a jogada seguinte; capaz de chutes poderosos com os dois pés, alternando bolas fortes ou colocadas; excelente cobrador de faltas e pênaltis; valente, crescia quando agredido e provocado; enfim, uma presença inspiradora que levava o Santos e a Seleção Brasileira a vitórias redentoras.

Por isso, eu diria, respondendo à pergunta do título, que o argentino Lionel Messi só será melhor, melhor não, igual, a Pelé se, na próxima encarnação, ou em alguma outra dimensão do tempo e do espaço, nascer de cabelo carapinha, de pele escura, falando português, filho de Dondinho e de Dona Celeste e em uma pequena cidade do Sul de Minas.

Quantos gols você viu o Messi marcar com a cabeça? Tudo bem, deixa pra lá… Veja alguns de Pelé. Note a impulsão e a técnica:

Quantos gols você viu Messi marcar com a perna direita? Pois Pelé era destro e treinou tanto a perna esquerda, que usou-a para marcar gols assim:

E pra você, quando Messi será melhor que Pelé?