A manifestação da torcida do Santos, protestando contra a Rede Globo na final da Copa São Paulo, merece reflexões mais aprofundadas do que o bate-boca grosseiro e sem sentido que às vezes presenciamos na Internet. É claro que os corintianos acham que a revolta dos santistas é “chororô” e que a TV tem de pagar mais ao clube que tem mais torcida. Só acham isso porque torcem para o time beneficiado. E é também evidente que santistas e torcedores de outras equipes não concordam com esse privilégio e esperam que a Globo, ou qualquer emissora que venha a deter os direitos de transmissão do futebol, divida as cotas de uma maneira mais justa, valorizando o mérito esportivo.

É oportuno lembrar que o Corinthians sempre se orgulhou de ser um time de raízes populares, que para conseguir um lugar ao sol teve de lutar contra o elitismo do início do século XX, que bajulava os clubes de origem elegante, como Paulistano, São Paulo Athletic, Associação Athlética das Palmeiras, Mackenzie, Germânia e menosprezava os que vinham do povo.

Os corintianos, ao menos de um passado recente, sempre se orgulharam dessas decantadas origens humildes, da luta contra as desigualdades dos primórdios do futebol, época em que o clube era mantido à margem do poderio político e econômico. Hoje, porém, bafejado por ajudas suspeitas do poder público e da rede de tevê mais poderosa do País, essas desigualdades são bem-vindas?

Agora que faz parte da elite econômica e política do futebol brasileiro, o novo ideal do ex-clube pobre é perpetuar esses privilégios? Está aí uma questão de consciência com a qual os corintianos terão de lidar. Um time do povo pode ser o mais rico e o mais auxiliado por políticos, empresários e pela TV?

O ibope justifica todos os meios?

O argumento dos que se beneficiam dessa política monetarista é de que a TV quer dinheiro e tem de transmitir os jogos do time de maior torcida mesmo. Os outros que se lasquem. Bem, esta visão simplista dá margem a alguns questionamentos bastante sérios, tais como:

Se o que interessa para a TV é apenas dar audiência, será que, digamos, sexo explícito no horário nobre não seria uma boa? Ou transmissões ao vivo das execuções de prisioneiros das várias guerras e conflitos pelo mundo?

Creio que todos concordam que a busca pela audiência deve obedecer a alguns princípios éticos e morais. No caso do esporte, mais propriamente do futebol, será que a qualidade da equipe, sua capacidade de dar espetáculo e lutar por títulos, não deveria ser mais valorizada do que simplesmente o fato de contar com uma torcida maior?

Será que mesmo os aficionados de clubes muito populares não gostam de assistir a jogos de outras equipes quando estas praticam um futebol mais vistoso e eficiente do que o do seu próprio time? Não posso falar pelos outros, claro, mas cansei de ver partidas de equipes para as quais eu não torcia, apenas pela expectativa de ser premiado com um grande jogo.

A TV tem o direito de decidir quem será grande ou pequeno?

Se o maior dinheiro que os clubes arrecadam vem da TV, então ela pode determinar quais agremiações terão mais capacidade de contratar bons jogadores e, conseqüentemente, montar melhores times. Com times mais fortes, terão mais visibilidade, venderão maiores patrocínios, atrairão grandes públicos e ganharão mais títulos. Ou seja: do dinheiro da TV se inicia um círculo vicioso que vai determinar o desequilíbrio de forças no outrora competitivo futebol brasileiro.

Hoje a Globo paga a Corinthians e Flamengo o dobro do que destina aos clubes do segundo escalão, entre eles o Santos. Além disso, vê-se obrigada a transmitir muito mais jogos desses dois times escolhidos, reduzindo a possibilidade de as outras equipes aparecerem na tevê aberta. Por fim, usa sua programação para mostrar exaustivamente notícias relativas a estes dois clubes, pois sabe que isso contribui para que suas torcidas cresçam, ou não diminuam, o que reforçará sua política discriminatória.

Isso explica porque o jogo do time reserva do Corinthians será o transmitido pela TV Globo no domingo, enquanto o do Santos, tricampeão paulista, com o time completo de Neymar, Montillo & Cia, irá para outro horário. Esse favorecimento explícito já deu um péssimo resultado na semana passada, quando a partida entre Paulista e reservas do Corinthians só conseguiu 11 pontos no ibope, o pior do ano para o futebol. Por mais que seja fanático por um time, o torcedor sente o cheiro de pelada no ar…

Essa política protecionista a Corinthians e Flamengo acabará, a média prazo, com a competitividade do futebol brasileiro. Teremos, então, a chamada Espanholização, que vem a ser o predomínio de apenas duas equipes sobre todas as outras, como ocorre na Espanha, em que os títulos se alternam apenas entre Barcelona e Real Madrid.

Método inglês é o mais justo

O que o Movimento contra a Espanholização do Futebol Brasileiro pretende é que se valorize o mérito esportivo e a real visibilidade de uma equipe e não apenas o montante de torcedores que ela possui. Por isso recomendamos que o Brasil adote o mesmo sistema de divisão de cotas de tevê que é utilizado na Inglaterra, país que tem o mais competitivo e rentável campeonato nacional do planeta, com várias equipes de grande poder econômico lutando pelo título.

O sistema consiste em dividir igualmente 50% de toda a cota da tevê entre os clubes participantes do campeonato; 25% segundo a classificação de cada um e 25% de acordo com a audiência média que conseguirem durante a competição (medida por institutos neutros, não ligados à emissora detentora dos direitos).

Como ganhariam mais os times que tivessem um rendimento melhor, o sistema obrigaria a uma busca maior pela excelência, pela administração eficiente, o que aprimoraria o nível do futebol em todos os sentidos. Hoje um time brasileiro já entra na competição sabendo o quanto vai ganhar da TV, independentemente de ser o primeiro ou o último colocado. Isso gera a acomodação e favorece a negligência e a corrupção administrativa.

Recente protesto da torcida do Sport contra a Rede Globo:
http://youtu.be/fIo2yDi80AA

Protesto da torcida do Palmeiras contra a Rede Globo:

Fale com o Ministro do Esporte Aldo Rebelo


Ministro Aldo Rebelo, a bola é sua. Que tal marcar um gol histórico contra a Espanholização?

Conheço Aldo Rebelo desde o final da década de 1990, quando fazíamos parte de um movimento em defesa da Língua Portuguesa. A impressão que tenho dele é das melhores. Não sei, sinceramente, o que ele pode fazer com relação à divisão de cotas de tevê, mas estou certo de que, amante do futebol como é, analisará o assunto com atenção.

Por mais que uma emissora de TV seja uma empresa privada, ela deve obedecer a princípios éticos e culturais que envolvem a divulgação democrática, sem privilégios, das entidades esportivas.

Se uma divisão de cotas mais justa entre os clubes brasileiros trará mais competitividade e valorizará o mérito esportivo, não vejo como um homem público que trabalha para defender esses ideais, se oporia a ela. Pelo que conheço do caráter de Aldo Rebelo, ele será favorável a esta causa.

Assim, tomo a liberdade, amigo leitor e leitora, de pedir-lhe que envie sua solicitação elegante e respeitosa ao Ministro do Esporte Aldo Rebelo para que ele analise com calma nossa proposta – que já é empregada com sucesso na Inglaterra – e interfira no que sua área de influência permitir, para que sistema semelhante seja implantado no Brasil. E que isso seja feito com transparência, pois estranhamente os clubes foram obrigados a assinar acordos sigilosos com a Globo, o que contraria o espírito da livre concorrência.

E-mail para falar com o Ministro Aldo Rebelo: http://www.esporte.gov.br/faleConosco/faleConosco.jsp

MINISTÉRIO DO ESPORTE
Esplanada dos Ministérios, Bloco A
Brasília – DF, 70054-906
Telefone: (61) 3217-1800 / Fax: (61) 3217-1707

E aí, vamos apelar ao Ministro para tentar evitar a Espanholização?