O mais recente episódio constrangedor – a agressão a jogadores do Palmeiras por integrantes da torcida Mancha Alviverde, em pleno aeroporto de Buenos Aires –, deixa claro que o conceito e a utilidade das torcidas organizadas têm de ser repensados. A pergunta que se deve fazer, hoje, é: torcida organizada mais ajuda ou mais atrapalha o futebol?

Quando a Torcida Jovem e a Gaviões da Fiel surgiram, no final dos anos 60, suas presenças foram recebidas com relativo entusiasmo, pois expandiam o espetáculo para as arquibancadas. Surgiram os coros, os cânticos, e as bandeiras, que não eram proibidas, tomavam todo o estádio.

Alguma violência sempre houve no futebol, mas não se matava e nem se morria. Com as organizadas, bandos de garotos, que antes se sentiam inseguros de ir aos jogos, compareciam em massa. Assim foi com a Torcida Jovem, que realmente fazia jus ao nome.

Os líderes da Jovem era universitários ligados ao Movimento Estudantil que combatia a Ditadura Militar. Em um mesmo dia participaram de uma passeata no Centro de São Paulo e à noite estavam no Pacaembu incentivando o Santos contra o Operário de Mato Grosso. Eram rapazes de personalidade e independentes, que nada recebiam do clube e por isso se sentiam livres para criticar quando quisessem.

Hoje quase todas as organizadas recebem benesses das diretorias dos clubes. Ganham uma cota de ingressos que podem vender mais baratos, ônibus para o transporte, verba para o Carnaval… Isso arrefeceu seu poder de fiscalizar e cobrar os dirigentes dessas agremiações.

Nunca mais se ouviu nos estádios o coro tradicional: “Ô, ô, ô, queremos jogador!”. As organizadas não podem se indispor com a diretoria que lhes sustenta. Mas essa vantagem econômica, que virou meio de vida para muitos, tirou a força, o poder político que tinham.

Seu poder, hoje, tem se restringido em ameaçar fisicamente jogadores e técnicos, mas raríssimas vezes se voltam contra os dirigentes. Tornaram-se mais temidas do que amadas pelos demais torcedores.

No Santos, uma das promessas da nova gestão era acabar com a relação promíscua com as organizadas. Mas, com alguns meses de mandato, ela já foi retomada, pois era ruim para o clube, mas conveniente para quem estava no poder.

Um futuro internético

Há alguns anos o poder fiscalizador dos clubes passou para os blogs e sites dedicados a esses times, que reúnem as opiniões dos torcedores que não têm o rabo preso com as pessoas que dirigem esses clubes e por isso podem ser sinceros.

É fácil perceber que há uma diferença entre o que acha o torcedor que se expressa pela Internet e o que se ouve da boca das torcidas organizadas nos estádios. Os primeiros têm sido mais críticos, mais preocupados com o dia a dia do clube, enquanto os outros parecem mais interessados em cumprir o papel de parceiros da direção.

Porém, a própria Internet tratará de reduzir drasticamente a relevância das organizadas, pois por meio dela é que todos os ingressos de um estádio serão vendidos, e não haverá mais sentido em doar entradas ou pagar ônibus para um grupo de torcedores. Quem for realmente torcedor e quiser ajudar o seu time, que pague seu ingresso, ora.

De origem política, em uma época difícil do País, as organizadas, em sua maioria, se transformaram em grupos privilegiados de torcedores que recebem incentivo para torcer. É claro que essa relação não poderá sobreviver em um futebol mais profissional.

Por isso, independentemente da violência que provocam ou têm potencial de provocar, as organizadas perderam o sentido, pois não existem mais para ajudar os clubes, e sim para ajudar os dirigentes desses clubes e a si mesmas.

Para que encontrem um novo papel no futebol, as torcidas organizadas terão de rever seus conceitos éticos, terão de expurgar todos os maus indivíduos que as contaminam, terão de eliminar qualquer forma de violência de seu comportamento e terão, acima de tudo, de recusar as esmolas dos clubes, para que voltem a ser independentes. Ou começam a fazer isso desde já, ou morrerão.

E pra você, qual o futuro das torcidas organizadas?