Foi a gota d’água. Palmeiras e Santos, um clássico de enorme tradição, que reúne dois dos times mais vitoriosos do futebol brasileiro, foi preterido pela TV Globo por um jogo entre o alvinegro da capital e o Guarani, que ocupa a penúltima posição do campeonato.

Foi como se a TV carioca dissesse: podem espernear à vontade, eu comprei os direitos e passo o que quiser e por isso vou transmitir o jogo do único time que realmente me interessa. Nem o Sportv, braço da Globo nas tevês por assinatura, programou o clássico em um de seus três canais.

Quem quisesse assistir, que pagasse o pay per view. Infâmia… Desrespeito à história do futebol e ao torcedor. Desprezo aos decantados princípios da própria Globo, que inclui a defesa da ética e da justiça.

Que justiça pode haver em ignorar um jogo entre duas equipes que, somadas, têm 42 títulos Paulistas, mais de 20 nacionais, quatro Libertadores e dois Mundiais (sem contar a Copa Rio), para transmitir uma partida que nem em Campinas despertou interesse, já que levou apenas 6.379 pagantes ao estádio?

No Pacaembu, apesar das ausências de Neymar, Valdívia, Montillo e muitos outros, o clássico atraiu 11.912 pagantes, 13 mil no total. Só pela sua tradição e rivalidade – que os burocratas da Globo devem ignorar – na tevê aberta o jogo atrairia mais audiência do que a partida de Campinas.

Alguns marquetólogos de escritório podem argumentar que nas pesquisas a torcida do alvinegro de Itaquera é maior do que a soma das de Palmeiras e Santos. Esta é uma falácia. Primeiro, porque essas pesquisas são discutíveis e depois porque clássico é clássico e sempre desperta mais interesse do que o jogo de um grande com um pequeno. Ou alguém, que não seja flamenguista, preferiria ver Flamengo versus Quissamã a um Fluminense e Botafogo?

A propósito, parece que quanto mais abrangente é a pesquisa de torcidas, mais se aproxima do que diz a Timemania. Neste ano de 2013 a Timemania já teve 19 milhões e 180 mil apostas, e a soma das torcidas de Santos e Palmeiras dá 6,87%, contra 5,12% dos corintianos. Portanto, se forem levados em conta os milhões de apostadores que cravam o seu time do coração, Santos e Palmeiras somam 1,75% a mais do que o rival alvinegro.

Não há outro remédio a não ser o Boicote Total!

Parece que a progressiva queda de audiência ainda não fez os responsáveis pela programação esportiva da Globo perceberem que o caminho que escolheram para privilegiar um determinado time levará a um resultado ruim para o futebol, para este time e para ela mesma.

Não acredito que o motivo desta escolha seja estritamente comercial, e sim político. Porém, isso agora não interessa. Qualquer que seja a razão, é evidente que se pretende levar a todo custo o futebol brasileiro a uma situação hegemônica de uma equipe sobre as outras, o que acabará com o que é mais precioso no nosso futebol, que é a competitividade.

Assim sendo, não resta nenhuma opção a mim ou a qualquer torcedor que não concorde com esta situação infame, a não ser deixar de assistir futebol na TV Globo. Eu diria mais: o ideal é deixar de assistir qualquer programa na Globo. Só sentindo no bolso, com a perda de audiência – e, conseqüentemente, de patrocinadores – a emissora pensará em rever a sua forma draconiana de divisão de cotas entre os clubes e toda a campanha a favor de um único clube que isso acarreta.

O que se percebe é que em toda a sua programação a Globo e seu filhote Sportv espalharam propagandas subliminares do time a ser favorecido. Até na Fórmula 1 deram um jeito de entrevistar um cara com a camisa das duas âncoras. É um porre. Não dá mais pra ver nada naquele canal sem se deparar com uma cena nauseante.

Acho inacreditável que os presidentes, diretores, conselheiros de Santos e Palmeiras não tenham se sentido envergonhados por ver um jogo de tanta tradição ser tratado como lixo pela Globo. Como representantes de comunidades com milhões de aficionados, o mínimo que se podia esperar deles é que protestassem contra esse odioso favoritismo.

Não sei você, mas aqui em casa há meses não assisto à Globo. Na verdade, sei que não estou perdendo nada, pois a programação dessa emissora virou uma apelação e uma pobreza total e o faturamento só se salva pelas novelas imbecis que lavam as ideias das cabeças das pobres mulheres brasileiras. Por isso esse boicote tem de se espalhar a todas as torcidas dos clubes grandes do Brasil. Só o torcedor pode começar essa mudança. Mãos à obra.

Em tempo: um pensamento piedoso para Boris Berezovsky, o coitado que descobriu nos bastidores do futebol brasileiro um meio tão ou mais sujo do que a máfia russa.

E então, vamos acabar com esse privilégio? Exclua a Globo do seu controle remoto.