Muitos me pediram para escrever sobre a morte de Victor Hugo Deppmann, 19 anos, assassinado na noite de 9 de abril por um menor interessado em lhe roubar o celular novo. Estudante de rádio e TV na Faculdade Cásper Líbero, estagiário na RedeTV, Victor era um rapaz forte e saudável que fazia musculação e jogava futebol. Ele chegava à portaria de seu prédio, no bairro de Belém, São Paulo, quando foi abordado pelo assaltante que acabou lhe dando um tiro na cabeça.

Santista fervoroso, Victor guardava na memória o dia em que, ainda criança, entrou no campo da Vila Belmiro segurando a mão do ídolo Robinho. Mesmo tão jovem, sua paixão pelo Santos era tamanha que seus pais resolveram estender a bandeira do Alvinegro Praiano sobre seu caixão.

Foi um santista, como poderia ter sido um são-paulino, corintiano, palmeirense, flamenguista… Nessa hora, há algo bem maior em jogo do que o time de coração de cada um. O jovem brasileiro não pode viver com medo, estressado pela possibilidade da violência e da morte a cada vez que sai de casa.

A morte de Victor Hugo reacendeu as discussões sobre a redução da maioridade penal para 16 anos. Há forte pressão da sociedade para que desta vez a lei passe. Creio que esta possa ser uma das medidas para reduzir a espantosa violência que aflige a população brasileira, principalmente os jovens. Mas acho que de nada vale aprovar leis se elas não são conhecidas e muito menos respeitadas. O que quero dizer é que a impunidade está diretamente relacionada à ignorância das leis.

Desconhecer as penas incentiva a impunidade

Lembra-se de quando fomos obrigados a usar cinto de segurança? No começo muitos eram contra, falavam até de invasão de privacidade e outras baboseiras. Foi preciso um grande trabalho de esclarecimento – e por meio dele ficamos sabendo que a multa para quem desobedecesse a lei era bem pesada. No final, o resultado não poderia ter sido melhor. Hoje usamos o cinto de segurança automaticamente, o hábito acabou sendo incorporado ao ato de dirigir.

O mesmo processo ocorreu com as várias leis que tornam a vida em países de primeiro mundo mais segura e confortável. No começo as penas para jogar objetos na rua, destruir patrimônio público atravessar fora da faixa etc tiveram de ser divulgadas e esclarecidas exaustivamente. Muita multa teve de ser paga até que a população pegasse o espírito da coisa.

O exemplo da segurança dos estádios europeus é o mais sintomático. Não há fossos ou alambrados para impedir que o torcedor invada o campo. Mas há um obstáculo bem maior, que é a consciência de todos a respeito das penas sofridas caso cometam essa infração: além de multa e/ou prisão, ficarão anos, talvez a vida toda, sem poder voltar a um estádio.

Por que não passar a divulgar, no Brasil, as leis e as penas relacionadas a cada infração, a cada crime cometido pelos torcedores? Qual a consequência de se brigar no estádio ou em seus arredores? De atirar objetos no campo, ou invadi-lo? De invadir a área destinada à torcida adversária? De entoar cânticos incentivando a violência? De ferir gravemente ou matar alguém?

Por que não inundar os estádios e seus arredores com câmeras de segurança? Por que não aplicar as leis que já existem e preveem o afastamento dos infratores dos jogos de futebol? Por que não promover uma investigação rigorosa em todas as torcidas organizadas e, se não houver remédio, extingui-las todas? Por que não iniciar uma campanha de denúncias contra os criminosos, incentivando as população a usar o telefone 181?

Além dos variados veículos de comunicação, há a possibilidade de se distribuir filipeta nos estádios, usar o serviço de som dos mesmos para reforçar a campanha… Enfim, chegou o momento de tolerância zero nos estádios de futebol… e na sociedade brasileira.

A ignorância das leis facilita a entrada de menores no mundo do crime. E uma vez que entram, não saem mais. Portanto, é mesmo essencial que a maioridade penal seja reduzida para, no mínimo, 16 anos. Mas isso não basta. Será preciso construir lugares apropriados para receber essa multidão de novos infratores (se bem que um país que gasta tanto com estádios, pode muito bem investir em presídios e ambientes correcionais).

Tudo começará, porém, com a simples, barata e eficaz divulgação das leis ligadas ao combate à violência. Conhecê-las ajudará os pais a orientar e prevenir seus filhos. Está comprovado que o mero conhecimento das consequências de seus atos pode inibir muitos dos prováveis infratores. Parece pouco, mas é o que está ao nosso alcance. Façamos…

E você, o que você sugere para combater a violência?