O estilo Barcelona tem um lado preguiçoso, ou aparentemente preguiçoso, que é este de ficar tocando a bola sem nenhuma ansiedade de chegar ao gol adversário. Se der, se abrir um buraco, tudo bem. Se não, a bola é recuada e a jogada recomeça.

Porém, mesmo quando é preciso recomeçar, dificilmente a jogada retorna até o goleiro. Ontem mesmo, contra o PSG, não me lembro de ter visto nenhuma bola que voltou aos pés do arqueiro.

Outro detalhe é que o toque de bola é ágil, os jogadores estão nos calcanhares, prontos para se deslocar, receber os passes curtos e, ao recebê-los, dar rápido seguimento à jogada.

E o Barcelona evolui em redemoinhos. Não há uma correria em linha reta, mas a bola sempre acaba indo mais à frente, até que se aproxima do gol adversário. Nesse ponto o sistema é muito parecido com o que a Holanda adotou na Copa de 1974.

Mas para que esse Carrossel, ou este Redemoinho, dê certo, todos os jogadores devem participar ativa e humildemente. Sim, no Barcelona o astro é o conjunto. As jogadas individuais estão restritas às necessidades.

Não é um time em que um atacante possa parar a bola, tentar o drible, continuar com a bola até perdê-la ou conseguir uma boa jogada. Parece que há um tempo de bola cronometrado para cada jogador. Quem estourar esse tempo terá de ter um bom motivo para isso, ou será recriminado.

Perceba que nem Messi exagera na posse de bola. Ontem ele não tinha feito nenhuma jogada excepcional até que recebeu o passe de Daniel Alves e bateu cruzado, de esquerda, no tempo e no ângulo perfeitos, para abrir o marcador.

Em primeiro lugar, não acredito que Neymar tenha temperamento para jogar no Barcelona, ou mesmo em times europeus como o PSG. Note que Lucas ficou isolado na ponta-direita da equipe francesa, pegou pouco na bola e pouco fez. A liberdade que ele tinha no São Paulo para fazer o que quisesse, na hora que quisesse, acabou.

Por serem ricos, os grandes times europeus têm muitos jogadores valiosos e vaidosos, que não suportam o individualismo alheio. O PSG tem Ibrahimovic, Beckham… Lucas é apenas um garoto sonhador perto deles. Não creio que a sorte de Neymar seria muito diferente no Barcelona ou em qualquer outro grande europeu.

Santos só aprendeu a parte “boa” da lição

No Santos, que teve a honra de receber a aula dos catalães ao vivo, o estilo do Barcelona ganhou uma roupagem nova, que prioriza a lei do menor esforço.

O time até toca a bola na defesa, mas se o adversário apertar a marcação a bola é recuada para o goleiro Rafael, ou para um zagueiro, preferencialmente Durval, e lá vem chutão pra frente…

O meio-campo dificilmente se aproxima para sair jogando. E, quando o faz, também costuma recuar a bola diante de uma marcação mais cerrada. A solução depende de uma habilidade maior dos santistas e também de uma deslocação constante.

Mas se mexer o tempo todo cansa e o Santos há algum tempo adquiriu o estilo cansadão. Alguns dos poucos jogadores que sempre se preocupam em se desmarcar para receber o passe são Neymar, Arouca e Giva. Coincidentemente os três têm se salvado nas últimas exibições do Alvinegro Praiano.

O esquema do Barcelona depende de habilidade, disposição e generosidade dos jogadores. É preciso dominar e controlar a bola em espaços exíguos do campo e saber tocá-la com precisão; estar disposto a se deslocar o tempo todo, com ou sem a bola, e é essencial ser solidário na hora de defender e generoso no momento de atacar.

Eu diria que o sistema do Barcelona exige, mais do que jogadores, homens melhores. Homens que, por sua cultura e caráter, reconheçam que o coletivo deve vir antes do individual. Por isso, é muito difícil que um atacante brasileiro, acostumado a ser badalado por aqui, se sujeite a ser mais uma peça no time catalão.

Na verdade, a grande vantagem do Barcelona é que os jogadores assimilaram muito bem esse estilo de jogo e o praticam e praticarão independentemente do técnico que os dirigir. Enquanto isso, no Santos, a impressão que se tem é que qualquer sistema que envolva maior esforço físico é rejeitado antecipadamente.

Resumindo, o time catalão toca a bola e avança, o Santos toca e recua…

Veja onde começou o estilo inteligente, coletivo e solidário do Barcelona. Aprecie o show da Seleção da Holanda contra o Uruguai na Copa de 1974. Note que os uruguaios, temidos por sua “garra”, ficaram na roda como joões-bobos:

Agora veja como a Holanda de 1974 jogava sem a bola, perceba o prazer com que seus jogadores se entregavam à marcação dos argentinos, que ficavam sem saber o que fazer diante da pressão do implacável adversário:

Você não acha que o Santos está preguiçoso?