Bayern 7 x 0 Barcelona

messi na alemanha

Bem, os da Alemanha estão trabalhando muito bem. O Bayern de Munique acaba de aplicar um 3 a 0 no Barcelona em pleno Camp Nou. Somando-se os resultados de ida e volta pela semifinal da Liga dos Campeões, o Bayern enfiou 7 a 0 no Barça, que alguns precipitados baba-ovos juravam ser o melhor time de todos os tempos.
Como na outra semifinal o Borussia Dortmund passou pelo Real Madrid (4 a 1 e 0 a 2), o título europeu será decidido entre Bayern e Borussia, ou seja, irá para o futebol mais organizado e rico do continente europeu, o da Alemanha (sobre o qual falaremos mais em um post futuro). Em tempo: para alguns torcedores que se gabam da popularidade de seus times no Brasil, é bom lembrar que a média de público do Borussia em seu estádio é de 80 mil pessoas. Isso mesmo, 80 mil pessoas! Outro dia eu conto como eles conseguem.

Enquanto isso, no Brasil…

pelada
A liberdade das peladas não chegou às escolinhas de futebol.

Neste dia que, apesar de homenagear o trabalho, representa uma bela folga bem no meio da semana, me veio a pergunta: será que os profissionais do futebol brasileiro, que nunca tiveram salários tão altos, estão mostrando um nível técnico que faça jus a essa remuneração?

Pergunto isso porque vemos jogos de vôlei, basquete, tênis e ficamos impressionados com a técnica e a condição física dos jogadores. Estão mesmo bem acima dos atletas de fim de semana dessas modalidades. Mostram força, resistência física, aplicação tática e, principalmente, precisão nos fundamentos, qualidades que só são adquiridas com muito treino.

Veja o tênis, em que o treino de fundamentos é parte essencial no processo de desenvolvimento do jogador. Há atletas, como o australiano John Newcombe, que passam a vida preocupados em aprimorar determinado golpe. Mesmo com sete títulos de Grand Slam, Newcombe, hoje com 68 anos, nunca esteve contente com o seu saque, e por isso o treinou durante toda a carreira, e além dela.

Dá para imaginar um jogador de futebol com atitude parecida, ou seja, treinando regularmente, por conta própria, um fundamento que não domina? Dá para imaginar, por exemplo, Bruno Peres ou Galhardo aproveitarem esse dia de folga para irem ao campo do CT Rei Pelé repetirem incontáveis cruzamentos para a área, de todas as posições e usando todos os efeitos possíveis?

Como repórter do Jornal da Tarde, tive o prazer de acompanhar o trabalho de Telê Santana no Palmeiras em 1979/80. Lembro-me que ele, na época com 48 para 49 anos, fazia questão de bater na bola para demonstrar os efeitos que queria. Graças aos seus ensinamentos, Jorginho passou a fazer gols olímpicos e Baroninho também aperfeiçoou seu petardo. O mesmo Telê repetiu seus métodos no São Paulo, de 1990 a 1996, com os resultados que todos conhecem.

Chegou a hora dos treinamentos individualizados

Há times, como Corinthians e Fluminense, que já estão realizando treinamentos por setor: defesa, meio-campo e ataque. Outros, como esse surpreendente Mogi Mirim, estão indo além ao usar os treinos para corrigir falhas individuais. O jogador que em uma partida apresente dificuldade em um fundamento, depois terá de praticá-lo isoladamente.

Não há mesmo outra saída para a pouca criatividade e precisão que se vê no futebol brasileiro. Chegou a hora de os técnicos terem coragem de exigir a prática contínua dos fundamentos e de os jogadores, mesmo veteranos, calçarem as sandálias da humildade e tratarem de corrigir o que fazem errado.

É evidente que algumas habilidades não podem ser ensinadas, nem mesmo quando repetidas infinitamente. Como inventar um drible a cada jogada, como Neymar, ou como saber a hora exata e como chutar a gol de forma a enganar o goleiro? Há qualidades que dependem não só da técnica, mas do temperamento, da personalidade do jogador. É aí que entra a genialidade dos escolhidos.

O desenvolvimento dessas habilidades tem a ver com a liberdade – que os meninos tinham nos campos de terra batida e hoje não têm mais nas escolinhas monitoradas por candidatos a técnico. São Paulo ostentava milhares de campos de várzea e essa profusão de terrenos baldios dedicados ao futebol se espalhava por todas as cidades brasileiras. Hoje os imóveis espremeram os campinhos entre quatro paredes e as crianças não mais os freqüentam com medo da violência que paira sobre nossas cabeças.

A solução é importar essa liberdade, essa irreverência natural das crianças, para as escolinhas dos clubes. Pois foi essa alma de menino que construiu o estilo brasileiro de jogar, baseado na inspiração de artistas de rua como Pelé, Garrincha, Canhoteiro, Pagão…

E como o garoto, como eu fui um dia, não pode mais passar uma tarde inteira, sozinho no campo imenso, treinando chutes na forquilha das traves sem goleiro, que os técnicos saibam convencer seus jogadores profissionais de que sem o contato permanente e íntimo com a bola, sem a perfeição do toque – em sua direção e intensidade ideais – nada de belo será gerado do contato entre o homem e a gorduchinha.

Você não acha que os jogadores deveriam trabalhar mais os fundamentos?