O técnico podia resumir seus treinamentos a rachões, pois na hora do jogo era pedir para jogar a bola pro Neymar e ficar torcendo; a diretoria de futebol podia contratar mal, encher o time de jogadores meia-boca, pois o garoto dava um jeito de arredondar as bolas quadradas que recebia; o marketing podia ser falho e negligente, pois só a presença de Neymar já atraia os patrocinadores; o departamento social podia desprezar o sócio, pois as pessoas continuavam insistindo em permanecer ligadas ao Santos; a assessoria de comunicação não precisava ser criativa, pois todos queriam notícias de Neymar; a presidência e o comitê gestor podiam se omitir politicamente e deixar o processo de espanholização correr solto, pois o interesse do público pelo jovem ídolo contrabalançava as coisas. Agora, porém, ele não está mais entre nós e o Santos precisa se redescobrir e… trabalhar.

É preciso haver um plano com metas claras e empenho e competência para realizá-las. Um plano que comece nas categorias de base, a eterna salvação do Santos e dos clubes brasileiros. A saída de Neymar, jogador que carregava o time desde 2010, fará as pessoas se coçarem. Ou mostram a que vieram, ou justificam os altos salários que extraem do Santos, ou assinarão suas cartas de demissão. E o espelho disso tudo, como sempre, é e será o time de futebol.

A primeira experiência da nova fase ocorreu na partida contra o Botafogo, quarta-feira à noite, em que o Santos foi derrotado por 2 a 1, em Volta Redonda. Na verdade, o santista já esperava um rendimento insatisfatório da equipe – até porque em jogos fora de casa, pelo Campeonato Brasileiro, o time de Muricy Ramalho mais perde do que ganha, situação que se repetia mesmo quando tinha Neymar. De qualquer forma, essa partida mostrou aspectos interessantes, que merecem ser analisados com atenção.

Perceba o amigo leitor e leitora que o Santos de Muricy, como nos jogos em que atua fora de casa, entrou com uma formação defensiva, com apenas Patito Rodríguez e o estreante Willian José mais à frente, auxiliados pelo meia Montillo. Se desse para achar um golzinho, ótimo, mas se não desse, que se garantisse o empate – resultado que, pelas circunstâncias, seria considerado bom, já que o adversário é o atual campeão carioca e jogava em casa.

A questão é criar mentalidade ofensiva

Porém, se um time joga para se defender, dificilmente ataca bem. E o que se viu foi o Botafogo chegar a 2 a 0 com facilidade, roubando duas bolas de santistas que tentavam sair no contra-ataque: a primeira de Arouca, que terminou no gol de Fellype Gabriel, aos 14 minutos, e a segunda de Montillo, que acabou no gol de Rafael Marques aos 21 minutos.

Assim, na metade do primeiro tempo a partida já parecia definida, com o alvinegro carioca ameaçando uma goleada. Foi aí, entretanto, que surgiu o milagre do amor-próprio, um sentimento que, independentemente das ordens conservadoras do técnico, impulsionou os santistas para a frente, em direção ao gol defendido por Renan.

Tímida no primeiro tempo, a reação ganhou força no segundo, quando Neilton entrou no lugar de Patito e Gabriel substituiu Renê Junior. Com três atacantes – Neilton, Willian José e Gabriel – o Santos voltou a ser um time à procura do gol, que acabou surgindo aos 23 minutos, em ótima jogada de Neilton e conclusão de Montillo. Um minuto depois Montillo teve o empate nos pés, porém chutou pra fora.

O que essa partida mostrou mais uma vez – e espero que Muricy Ramalho tenha prestado atenção – é que não é necessário ter um elenco de craques para montar um esquema ofensivo. Jogar para marcar gols é uma questão de mentalidade, algo que o Santos sempre teve e por isso, ao estudar a história do Alvinegro Praiano, usei a expressão “DNA ofensivo” no livro Time dos Sonhos, e a considero extremamente válida hoje e sempre.

Em um fórum de debates sobre o Santos na Internet, li que um torcedor se referiu a mim “como um cara legal, que já fez alguns livros do Santos, mas que parou nos anos 60 porque acredita na história do DNA ofensivo”. Mesmo que eu pareça um tanto preconceituoso, responderei a este torcedor e a outros que pensam como ele, que se alguém não acredita no DNA ofensivo, não tem motivo para ser santista. Vai acreditar no quê? Na força da defesa?

O Santos não é o time que fez mais gols na história por acaso, e também não é por acaso que revelou tantos atacantes. Está no sangue, na alma do santista ir pra cima dos adversários. Tudo bem que é melhor ter um time equilibrado, que se defenda e ataque com igual eficiência, mas se um setor da equipe tem de ter prioridade, este é o ataque. Sempre foi assim e isso explica o sucesso do Glorioso Alvinegro Praiano através dos tempos.

O Santos precisa de um técnico que tenha essa mentalidade e que a incuta nos jogadores. “Pense no gol, tenha fome de gol, alegre-se pelo prazer de buscar o gol, lute pelo gol” – estas ideias passaram pela mente dos grandes jogadores do Santos o tempo todo, e não “defenda, marque, chute pra frente, alivie o perigo, mate a jogada…”.

Quando se libertou dos pensamentos defensivistas, o Santos foi pra cima do Botafogo e, ao menos por alguns minutos, mostrou que pode haver vida e esperança sem Neymar. Galhardo arriscou um chute que raspou a trave; Neilton jogou como se estivesse no sub-20 e Montillo, pela primeira vez em muito tempo, assumiu a responsabilidade de ser o craque do time.

Se um time está no ataque, o outro só pode estar na defesa – esta é uma máxima do futebol que acabei de criar. Mas é a mais absoluta verdade, não é mesmo? Como dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, ao atacar o Santos fazia o Botafogo retroceder, e como o jogador brasileiro é melhor com a bola nos pés do que marcando, o domínio passou a ser santista.

Se prestou atenção, Muricy percebeu que não adianta colocar três, quatro, cinco, seis volantes… Se o Santos continuar jogando recuado, de nada valerá roubar a bola do adversário e não saber, ou ter, o que fazer com ela. A primeira medida será eliminar um volante e passar a escalar três jogadores no ataque. Mas isso é só a ponta do iceberg. Há muito mais a ser feito…

Está na hora de uma mudança radical

Se tivesse a coragem e a visão de futebol de um Chico Formiga, Muricy Ramalho poderia promover uma revolução no Santos, pois os titulares experientes decaíram tanto do ponto de vista técnico e físico que já podem ser gradativamente substituídos pelos jovens, com enormes vantagens para o time.

Dizem que do exterior chegam propostas para Arouca, o goleiro Rafael e o meia Felipe Anderson. É preciso ter coragem para tomar uma decisão dessas, mas eu venderia os três. Que o dinheiro seja usado para se contratar um titular absoluto, um craque, mão de obra especializada que está rara no Santos.

Que venham Robinho (por um salário bem menor do que o milhão que ele pede) e mais um fora de série; que fiquem por mais um tempo Edu Dracena, Cícero e Montillo, até para passar experiência aos mais jovens. No mais, que os garotos assumam o comando.

Note que o Santos pode montar um time todo de Meninos que não ficaria devendo nada ao que está jogando: Gabriel Gasparotto, Galhardo, Gustavo Henrique, Jubal e Émerson Palmieri; Alan Santos, Leandrinho e Lucas Otávio; Neilton, Giva e Gabriel. E olhe que ainda não inclui Victor Andrade, Pedro Castro, Léo Cittadini, Bruno Peres…

Hoje o Santos tem a felicidade de, mantendo três ou quatro jogadores mais experientes, montar uma equipe jovem, rápida, habilidosa e com fome de gol. Este é o tipo de time que empolga o torcedor, que aumenta o seu entusiasmo e sua tolerância. Se for inteligente, Muricy tratará de montar uma equipe assim, voltada para fazer gols, e não apenas para impedir os gols do adversário. Se não for, seus dias estarão contados na Vila Belmiro.

Reveja os melhores momentos de Botafogo 2 x 1 Santos:
http://youtu.be/H0728tfVH8Y

E você, não acha que o Santos tem de voltar às suas origens ofensivas?