gabriel
Rei morto, rei posto. Gabriel treinou bem, está relacionado e pode jogar contra o Flamengo, amanhã. Para muitos, ele será o novo Menino de Ouro da Vila (Foto: Ricardo Saibun/ Divulgação Santos FC).

Só estes dias eu soube que o hino do Olimpiakos, um dos grandes da Grécia, cita os nomes do Santos e de Pelé. Dá pra imaginar isso? O hino de um tradicional clube europeu citar, com reverência, os nomes de um clube de outro continente e de um jogador estrangeiro? Um amigo, por sinal corintiano, ficou sabendo disso e me perguntou, admirado: “O que mais vocês querem? O que mais um time pode querer do que ser cantado no hino de outro?”.

Realmente. O Santos já atingiu patamares tão elevados que o santista não se conforma com pouco. Vender um craque – como o São Paulo fez com Kaká e Lucas, sem a menor reação de sua torcida – é algo que incomoda profundamente o torcedor do Santos. Porque quando isso acontece é como se o Alvinegro Praiano estivesse dando um passo atrás no grande objetivo que é voltar a ser o melhor, o time mais deslumbrante do mundo. A ausência de Neymar será uma perda terrível, mas não restará outra alternativa a não ser começar tudo de novo em busca de um jogador excepcional e que eleja o Santos como o seu time para sempre.

Este blog, você sabe, fez o que pôde – até apelar para a consciência das pessoas – para que Neymar não fosse embora do Santos e do Brasil. Sua permanência, contra tudo e contra todos, poderia representar o início da redenção do futebol brasileiro, hoje inferiorizado, sucateado, irrelevante. Mas os dinheiristas, os colonizados e os idiotas crônicos venceram e o sinal está fechado para nós, que acreditamos na volta dos grandes craques aos nossos campos, no futebol bonito e ofensivo, na ética e no mérito esportivo, que acreditamos também que há valores muito mais relevantes do que o dinheiro ou o marketing instantâneo, que não resiste à história.

Quem viveu os tempos em que o futebol brasileiro – dignamente representado pelo Santos, em primeiro lugar, e depois por outros também grandes – era reverenciado como o melhor do mundo, nunca poderá se conformar passivamente com a posição de coadjuvante que adquiriu hoje. Mas parece que para a despreparada mídia esportiva do nosso País e, por extensão, para a maioria dos torcedores imbecilizados pela tevê, é assim mesmo que deve ser. Nossas crianças devem adorar os times europeus e um jogador brasileiro, para mostrar o seu real valor, tem de ir pra Europa. Paciência.

Não se pode culpar Neymar, ou seu pai, ou seus assessores, por esta decisão. Em uma sociedade em que a qualidade das pessoas é medida por quanto conseguem faturar por ano, agiram como “profissionais”. A mina de dinheiro do Santos está secando, então melhor procurar outra. Há controvérsias, entretanto, se entre os países europeus possíveis, a Espanha seria o ideal para quem pensa em um futuro brilhante no futebol ou em qualquer outra atividade.

Um país em que metade dos jovens e 27% da população está sem emprego, em que os custos sobem e os salários diminuem e que, para muitos especialistas, está à beira de uma conturbada crise social, não é o lugar para onde eu iria ou levaria meu filho. Hoje os espanhois estão saindo de sua terra em buca de trabalho, a coisa está realmente feia por lá… Mas jogadores de futebol, ou os que lidam com suas carreiras, e que só consegum enxergar o momento seguinte, acham que não precisam entender desses aspectos sociais e geopolíticos para definir em que time se deve jogar. Paciência.

A responsabilidade da diretoria do Santos

Pena que aquele timaço do primeiro semestre de 2010 tenha caído nas mãos de uma diretoria inexperiente, sufocada pela própria vaidade. Mais do que os valores individuais, era a harmonia entre aqueles jogadores talentosos e irreverentes que produzia aquele futebol fantástico. Porém, ao contrário do que apregoou o presidente, os craques foram saindo, um a um, e o encanto se quebrou.

Qual era o salário de Wesley quando foi embora? E André, um Menino da Vila que saiu quando recebia 120 mil por mês, para voltar, por empréstimo, ganhando 300 mil e totalmente fora de forma? E Madson, tão barato, demitido por indisciplina… O certo é que dos virtuosos de 2010 só restaram Neymar e Ganso, dupla genial que se desfez no ano passado quando o meia, em transação tumultuada, foi para o São Paulo.

De 2010 para cá muitos foram contratados pelo Santos e pouquíssimos justificaram o investimento. Keirrison e Ibson foram exemplos de péssimo negócio, mas a pérola consistiu em adquirir 100% do passe de Bill e rejeitar Romarinho, santista desde pequeno, que implorava vir para a Vila Belmiro. A última tentativa de dar a Neymar um companheiro à altura foi trazer o argentino Montillo, que até agora não mostrou nada que justificasse a fortuna paga por seu passe.

De qualquer forma, a saída de Neymar era morte anunciada. O garoto, seu pai e seus assessores não o tiveram o alcance intelectual necessário para compreender que o garoto não tinha se tornado um ídolo apesar do Brasil, mas sim devido ao Brasil. Na Europa, ele será mais um. Correrá o risco de não se tornar a maior estrela do time que escolher e, se repetir as más atuações que vem tendo pelo Santos há alguns meses, poderá até ir para o banco de reservas.

Por outro lado, seria preciso muita personalidade para continuar resistindo à pressão para ir embora do Brasil. O crescimento do Santos incomodava, incomoda e continuará incomodando muita gente interessada no populismo, na espanholização do nosso futebol. Hoje muitos devem estar comemorando a saída do craque. Acostumados a chafurdar na mediocridade e na subserviência, sentiam-se desconfortáveis com a presença de uma das celebridades do futebol em nossos campos esburacados.

Agora poderão voltar aos seus horizontes limitados, às suas polemicazinhas regionais sem nenhuma relevância. Estão radiantes por voltarem a seus mundinhos de merda. Quando caírem em si, virão que cuspiram no próprio pé, pois não terão mais Neymar para alimentar suas notícias podres. Quanto ao santista, continuará sonhando: com novos Meninos, novos líderes, novos times que encantem o mundo. E só restará a certeza de que é preciso começar de novo!

A saída de Neymar encerra um ciclo. O que o santista espera agora da diretoria do clube é que ela tenha aprendido defintivamente que o projeto de crescimento contínuo do Santos passa pela revelação de jogadores da base. Foi-se Neymar, já deveria haver outros no forno à espera de serem lançados. Agora temos Victor Andrade e Gabriel? Pois que possam mostrar a que vieram. E se o técnico não gosta ou não sabe trabalhar com jovens, troque-se o técnico. Se o Santos é maior do que qualquer jogador, quanto mais de “professores” com colete. O que não se pode é cultivar o medo de assumir o seu destino.

Obrigado Neymar. Valeu mesmo! Mas vamos recomeçar sem você!

Apesar de tantos, amanhã será outro dia!

E pra você, como deve ser o novo Santos?